Evitei Miguel o dia seguinte todo, com a desculpa de que a ausência de Shawn me sobrecarregou de trabalho, mas a verdade era que eu estava muito irritada com todas as suposições que minha mente imaginativa criava a todo momento. Por esse motivo, quando Rafa me ligou pela manhã para saber como eu estava e depois me chamou para sair, eu aceitei. A dupla Jorge e Matheus iria cantar na casa de shows de Davi e nada melhor que um sertanejo sofrido para afogar as mágoas. Quando saí da empresa, perguntei a Sandra sobre Shawn e ela me disse que ele havia ligado avisando que chegaria no dia seguinte. Bem no dia em que a maluca vai estar na empresa, pensei, voltando a ficar aborrecida com ela. Eu não o via desde sábado, e todos esses dias de ausência me fizeram perceber o quanto ele fazia falta, e pensar que quando ele voltasse a perseguidora estaria ali, me deixava meio desequilibrada, mental e emocionalmente. Tanto, que acabei chorando até dormir na noite passada. O choro começou de repente, e eu achei que era por causa do que Miguel me fez sentir, mas logo, logo, percebi que nada tinha a ver com aquele sacana. Eu estava chorando de saudades de Shawn, eu queria tanto que ele estivesse ali para me abraçar e dizer que tudo estaria bem, como ele fez tantas vezes. Graças a Deus, que quando acordei pela manhã, a única coisa que denunciava meu momento de fraqueza era o inchaço em meus olhos, que eu tentei disfarçar ao máximo com a maquiagem. Quando consegui diminuir os efeitos da minha desilusão, prometi a mim mesma me dedicar muito mais para não perder meu equilíbrio emocional conseguido a duras penas. Talvez por isso tenha sido tão fácil aceitar o convite da minha amiga, sem pensar muito nas consequências. Em minha cabeça, eu estava solteira, pelo menos naquela noite, ou até Shawn chegar. Eu sabia que a atitude mais sensata seria ligar para Miguel e conversarmos como adultos, mas em nenhum momento senti vontade de ter esse tipo de conversa com ele. Óbvio que estava irritada por ter sido enganada, mas isso não tinha a ver com sentimento e sim com revolta. Ele parecia um cara legal, maduro e sério, mas nada como o tempo, ou um pouco de boa sorte, para que as máscaras comecem a cair. O que no caso dele, foi um recorde. Liguei para Rafa quando cheguei e ela foi me pegar na porta, com Davi ao seu lado. Depois dos cumprimentos de praxe, ele nos guiou por entre as pessoas e nos levou para um camarote no andar superior, com uma vista espetacular do palco. De lá, pude ver o quanto a casa estava lotada de pessoas alegres e ansiosas para o início do show. Eventualmente, Rafa me entregou uma bebida e tive vontade de virar tudo de uma vez só, numa tentativa de silenciar as vozes em minha cabeça. Tudo o que eu queria era, por alguns momentos, não pensar em Shawn ou em nossa situação. Minha obsessão por ele tinha transformado as coisas em uma espiral de problemas sem fim e eu sentia que estava a ponto de enlouquecer.
— Vai começar — Rafa disse ao meu lado, dando pulinhos de animação
quando as luzes se apagaram e um som de suspense começou a soar. Então, os cantores surgiram por entre uma cortina de fumaça, para delírio da mulherada. As primeiras músicas foram animadas e fizeram o local pegar fogo. Mas como sempre acontecia, eles iniciaram uma sequência melosa e não demorou muito para começar a me sentir péssima, tanto pelas letras românticas, mas principalmente por ter notado a felicidade dos casais que dançavam abraçados, cantando a plenos pulmões, entre olhares e sorrisos apaixonados.
— Amiga, não fica assim, odeio te ver triste — Rafa pediu, aproximando- se de mim.
— Não estou triste, só que esse tipo de música me lembra ele. Acho que não foi uma boa ideia ter vindo aqui. Ela sorriu com delicadeza e apertou levemente meu ombro antes de sair para ir pegar mais bebidas para nós. Eu aceitei, mas não estava no clima de me embriagar e bebi muito pouco, na verdade, Rafa já devia ter bebido o dobro de mim e não demorou para ficar com aquele brilho no olhar.
— Eu preciso te contar uma coisa — disse ela com a voz enrolada em certa altura da noite. Nessa hora, o show principal já havia acabado e uma segunda dupla tinha começado a se apresentar. A casa, no entanto, continuava lotada, parecia até que ninguém trabalharia no dia seguinte.
—Pode falar, estou sóbria e ouvinte — brinquei, a segurando pelos ombros para que não se desequilibrasse. Rafa estava bem mais embriagada do que pensei. Ela sorriu para mim e falou, bem alto, para que pudesse ser escutada:
— Eu sou uma péssima amiga e estou me sentindo uma vaca. Franzi o cenho sem entender nada.
— Do que você está falando? Ela passou a língua pelos lábios e depois me abraçou.
— Eu te amo tanto, amiga, me perdoa — gritou no meu ouvido, fazendo-me pular para trás.
— O que está havendo, Rafa, fala logo. Ela tinha voltado os olhos para baixo, e quando ergueu o rosto para me olhar, ele exibia um brilho de culpa que eu não via há muito tempo.
— Domingo passado fui com Davi a uma casa de swing — ela começou um tanto envergonhada. Eu olhei incrédula para ela, nunca imaginei que aminha amiga de infância tivesse coragem de frequentar um lugar assim.
— Você transou com outro cara? — perguntei, os olhos arregalados de descrença.
— Não, claro que não, eu só fui conhecer. — Olhei desconfiada para ela que apenas desconsiderou e continuou: — Mas a questão não
é essa. O problema é que, bem, nós vimos o Miguel lá... Com três mulheres. De repente tudo o que conseguia escutar era um som de zumbidos. Não podia ser.
— Eu sei que já tinha que ter te falado, mas o Davi achou que eu não deveria me meter nessa história e eu acabei concordando, mas foi apenas porque sabia que você não ia transar com aquele babaca tão cedo. Imediatamente minha mente começou a lançar imagens de Miguel comigo e outras mulheres em uma cama e senti nojo dele, não por frequentar um lugar assim, mas por estar mentindo esse tempo todo.
— Camila, fala alguma coisa, pelo amor de Deus. Olhei para ela, ainda sem conseguir acreditar no que tinha escutado. Era surreal demais.
— Não estou brava com você, Rafa, mas é muita coisa para assimilar. Eu preciso ir embora, esta noite perdeu o sentido. Ela voltou a me abraçar e quando nos afastamos, todo aquele barulho e o calor que emanava das pessoas, começaram a me sufocar, eu realmente precisava ir.
— Amanhã nós conversamos? — ela perguntou, receosa.
— Sim, não se preocupe. Deixei um beijo em seu rosto e caminhei entre as pessoas com destino à saída. Assim que respirei o ar externo, já comecei a me sentir melhor, mas apenas quando entrei em meu carro e segui para o condomínio, foi que senti alívio de verdade. Minha cabeça estava cheia e meu coração apertado como nunca e foi bom estar em um lugar familiar. Dei uma olhada no relógio do carro e vi que passava das 2h30 da manhã. Sorte que eu não tinha bebido, ou, além do sono, também teria que lidar com uma ressaca no dia seguinte. Ao parar o carro na garagem, desejei imensamente que Shawn estivesse em casa para que eu pudesse correr para lá e me jogar nos seus braços em busca de conforto. Mas então percebi o quanto estava soando incoerente. Não era porque eu estava sofrendo que podia fingir que não o tinha dispensado e escolhido ficar com outro. Nós teríamos que conversar muito antes de resolver qualquer coisa. Mas agora, pelo menos, eu sabia que Miguel só estava me usando, a única coisa que não sabia, com certeza, era seu intuito. Ele queria apenas me levar para a cama? Eu achava que não. Um homem acostumado a transar com duas ou três mulheres de uma vez, não estaria atrás de sexo. Então, a conclusão mais lógica, era de que ele esperava ganhar alguma facilidade na negociação que pretendia fazer com meu pai. Miguel achou que poderia continuar com sua vida de solteiro, enquanto enganava a filha de seu novo sócio. Essa ideia me fez sentir tão burra, tão usada! Você também o estava usando. Isso era verdade, mas fora aquele deslize com Shawn, não houve mais nada, eu estava disposta a respeitá-lo, enquanto o filho da mãe estava inventando uma mentira atrás da outra para poder ir fazer um pouco de swing com suas amigas. Aquilo era bizarro demais. Assim que entrei, tirei as sandálias que estavam me incomodando e subi para o meu quarto, desabando na cama logo que me livrei do vestido. Agarrei um travesseiro e comecei a apontar minhas desgraças a mim mesma: Fernanda estava de volta na empresa, Miguel estava me enganando e Shawn, o homem a quem eu amava, não queria me assumir. A que ponto eu cheguei, pensei, forçando para não me debulhar em lágrimas novamente. Graças a Deus o sono logo chegou e eu me deixei levar. Quando cheguei à empresa na manhã seguinte, meu humor estava péssimo, e para piorar, ao entrar no elevador, encontrei Fernanda e Sandra numa conversa animada, pelo menos por parte da Fernanda. No mínimo, ela já sabia que Shawn chegaria de viagem e devia estar louca para encontrá-lo. Eu nem podia criticá-la, também estava louca para vê-lo, muito louca. Quando o elevador parou, fui direto para a minha sala e peguei o relatório que havia feito no dia anterior para poder revisar antes de o entregar ao meu pai. E falando nele... Minutos depois de ter me sentado e começado a trabalhar, ouvi alguém bater em minha porta, em seguida ela foi aberta, dando passagem a papai e Shawn. Após uma semana longe, foi impossível disfarçar toda a saudade que estava sentindo dele. Minha sorte é que eu ainda tinha uma boa quantidade de orgulho, além de um pouquinho de irritação, proveniente da nossa briga, e consegui conter minha euforia.
— Bom dia — falei, direcionando meu cumprimento a Shawn, pois já tinha visto meu pai em frente à sua casa, quando passei de carro.
— Bom dia, Camila — ele respondeu, de forma casual.
— Precisamos conversar sobre a situação de Fernanda na empresa — papai disse, sentando- se em uma das poltronas de visita posicionadas em frente à minha mesa. Olhei ligeiramente para Shawn , que havia ocupado a outra poltrona e me voltei para o meu pai.
— Estou ouvindo.
— Sua mãe me falou que você ficou chateada por não ter ficado sabendo, mas a verdade é que ela me ligou na segunda, dizendo que já tinha um atestado de saúde e pedindo para voltar ao seu antigo cargo na quinta. Diante disso, a única coisa que pude fazer foi direcioná-la ao RH e ao médico que a estava substituindo enquanto estivera de atestado — esclareceu.
— Entendo... — comecei, mas tive que pigarrear antes de continuar: — Mas não vai ser estranho tê- la aqui depois de... Você sabe — falei olhando para meu pai, mas captando a reação de Shawn através da minha visão periférica.
— Eu entendo sua preocupação — falou com um sorriso —, mas eu conversei com Shawn antes e ele também não se opôs. E então, o que você acha? Acho que quero matar seu sócio, foi o que consegui pensar, me segurando para não agarrar seu pescoço, dessa vez para esganar, não beijar. Como ele podia ter concordado que a ex continuasse trabalhando na empresa? Fuzilei Shawn com o olhar, querendo saber o porquê de ele ter concordado com aquele absurdo. Eu sabia que não era certo e muito menos prudente, já que meu pai estava ali, mas era mais forte do que eu. Ah, que ódio!
— Ela tem um contrato que vence em três meses, Camila, se a dispensarmos, teremos de pagar uma multa muito alta por causa do cargo que ocupa e do salário, ainda mais depois de ter ficado tantos dias internada — Shawn explicou, como se tivesse lido minha mente.
— Sim — continuou meu pai —, e como ela só trabalha um dia na semana, achei que poderíamos segurar as pontas por esses três meses, para evitar prejuízo ao nosso caixa. Respirei fundo e me acalmei. Não adiantava brigar já que eles estavam certos.
— Tudo bem, papai, temos que fazer o que é melhor para empresa, e já que Shawn não se opôs... — dei de ombros e papai sorriu, levantando-se em seguida, pois tinha que ir para a sala de reuniões. Shawn também se levantou e seguiu calmamente para a porta. Chegando lá, trancou-a e se voltou novamente para mim, encarando meu rosto por um momento.
— Não gostou das flores? Ah, droga, com tudo o que aconteceu, acabei me esquecendo das flores.
— Claro que gostei — falei, apontando para o único buquê que deixei ali e que, mesmo após quatro dias, ainda estava lindíssimo.
— Todas as outras estão lá em casa. Obrigada. É evidente que eu queria contar o quanto fiquei emocionada com seu gesto, mas naquele momento, só desejava mandá- lo à merda.
— Está brava comigo por não romper o contrato da Fernanda? — ele perguntou o óbvio.
— Achei que a quisesse longe.
— E quero, mas não se isso causar prejuízos ao Alejandro. Ele não tem nada a ver com meus problemas pessoais. Para dizer a verdade, eu teria pagado a indenização do meu próprio bolso, mas ele não aceitaria, por isso falei o que ele queria ouvir. Analisando por esse lado ele tinha razão, aliás, ele sempre tinha.
—Tanto faz, eu não encontro com ela mesmo — desdenhei, dando de ombros outra vez, mas qualquer um poderia ver que eu estava mentindo. Shawn esboçou um sorriso e começou a se aproximar, sentando- se na poltrona novamente.
— Nós precisamos conversar.
— Sobre? — quis saber, desconfiada.
— Sobre o Miguel. Suspirei e deixei os ombros caírem em desgosto. Era só o que faltava.
— A última coisa de que preciso hoje é falar sobre o Miguel. A revelação de Rafa me deixou tão nauseada, que ainda não tinha conseguido
responder suas mensagens. Eu não sabia como, mas ele tinha descoberto que eu havia ido no show e estava me cobrando por ter ido sem ele. Cara de pau!
—Minha viagem não foi apenas a negócios, Camila, eu aproveitei que estava em Minas e visitei a matriz da empresa que ele herdou.
— E por que fez isso? Ele se mexeu um pouco desconfiado, mas depois me encarou.
— Seu pai estava muito encantado com esse rapaz e com os números que ele mostrava em seus balanços, eu, em compensação, estranhei o fato de uma empresa que se mostrava tão bem financeiramente, tivesse um CEO tão ansioso para fazer sociedade com a Cabello. Então era como eu imaginava.
— E o que você descobriu?
— Muita coisa, a semana que passei em sua terra me deu tempo suficiente para comprovar sua péssima índole. Seu namorado conseguiu falir a próspera empresa do pai, deu calote em várias pessoas e empresas, fazendo a mesma proposta que fez à Cabello e ainda deixou uma noiva abandonada no altar. Não, era muito pior do que imaginava e eu estava perplexa. Era inacreditável que por trás daquele rosto de bom moço havia uma criatura tão irresponsável e perversa.
— Uau.
— A lista de coisas que ele fez nos últimos tempos é bem maior, mas não estou aqui para julgá-lo, apenas quero que saiba com quem está se envolvendo, e se após saber disso decidir seguir em frente, será por sua conta e risco. Odiava esse lado sensato de Shawn.
— Na verdade, não vou mais ficar com ele, também andei descobrindo umas coisas e já tinha desistido. Com essas palavras, ganhei sua atenção imediatamente.
— Que tipo de coisas? Eu realmente não queria contar. A última coisa que desejava era que Shawn sentisse pena de mim, mas depois do que ele fez, não podia recusar seu apelo.
— Ele anda saindo com outras mulheres, e quando eu falo outras, me refiro a outras mulheres juntas em sua cama, swing e esse tipo de coisa. Shawn parecia tão atônito quanto eu, quando fiquei sabendo.
— Como um homem pode pensar em outras mulheres, quando tem você? Arfei, completamente encantada por suas palavras e louca para sucumbir ao desejo de ir até ele, mas me segurei.
— Na verdade, ele nunca me teve, não completamente — tratei de explicar, não queria que Shawn achasse que havia me entregado a Miguel, ainda mais agora, depois de descobrirmos tantas coisas a seu respeito.
— Quer dizer que vocês não...
—Não... — respondi sua pergunta não formulada e vi um enorme alívio atravessar seu rosto antes de ele fechar os olhos e respirar profundamente, como se tivesse acabado de retirar um enorme peso dos ombros. Ver aquilo me deixou tão atordoada, que senti necessidade de me afastar um pouco mais dele. Por isso levantei-me e caminhei até as grandes janelas, encarando o parque lá embaixo, precisava me acalmar um pouco para poder pensar direito. Percebi quando Shawn se levantou e fiquei na expectativa. Em poucos passos ele estava atrás de mim, seu perfume me envolvendo e fazendo cada célula do meu corpo se lembrar do quanto era bom tê- lo tão perto.
— Volta pra mim, Camila, fique ao meu lado e me ajude a resolver os problemas. Os relacionamentos são assim. Nem sempre o que recebemos são flores, lindas e perfumadas, às vezes há espinhos também, mas eu sei que se conseguirmos superar esses contratempos, juntos, nada mais vai conseguir nos abalar. Fechei os olhos, sentia-me nervosa e dividida. Tinha medo de que se continuasse ficando com ele daquela forma, no final, nosso lance não desse em nada, ainda mais com a Fernanda por perto.
— Eu não sei, Shawn — falei, num murmúrio cheio de pesar. Seus dedos deslizaram pelo meu braço direito e ele colou o corpo ao meu.
— As coisas são difíceis para mim também. Apesar de me preocupar com a saúde mental de Fernanda, se fosse apenas ela, eu talvez não estivesse tão relutante, mas tem o Alejandro. Eu sei que nunca te falei sobre isso, mas apesar de não ser tão mais velho do que eu, ele foi como um pai para mim em vários sentidos. Tenho muito receio de perder sua amizade, mas em contrapartida, morro de medo de perder você, eu não aguento mais ficar longe. Shawn era bom com as palavras, ele sabia como argumentar a seu favor e isso era um saco.
— Passei a vida toda correndo atrás de você, não acho justo ter que ficar me escondendo. Quero que todos saibam que estamos juntos. Ele me abraçou por trás e depositou um beijo em minha cabeça.
— Eu sei exatamente como se sente — murmurou, me apertando um pouco mais —, mas tem ideia de como seriam os próximos meses se Fernanda soubesse que estamos juntos? Ela não nos deixaria em paz e acabaria envolvendo o Alejandro. Em nenhum momento eu pensei nisso, porque nunca imaginei que seríamos obrigados a conviver com a Fernanda na empresa por três meses.
— Você tem razão — admiti. Ele me virou para si, um enorme sorriso no rosto, e beijou minha testa. Então, pegou minha mão e a colocou sobre seu coração.
— Você está aqui e eu estou aí — afirmou, apontando para o meu peito —, é o que basta, por enquanto, ninguém pode mudar isso. Naquele momento, mesmo em meio a tantas dúvidas, senti que aquilo realmente poderia dar certo. Nosso relacionamento seria complicado a princípio, mas, pelo menos, havia respeito, cuidado e amor. Sim, eu queria acreditar que ele estava apaixonado, ou não se daria ao trabalho de ir atrás do passado de Miguel para me abrir os olhos. Tudo bem que o relato da Rafa já fora suficiente para que eu tomasse a decisão de me afastar dele, apesar de saber que não duraria muito tempo mesmo. Era tudo muito artificial, o corpo não esquentava quando ele me beijava, o coração não acelerava e a pele não queimava ao seu toque; não dava para ficar com alguém que não me fazia vibrar. Já Shawn, abalava meu mundo inteiro, era esse o tipo de emoção que eu gostava e procurava em um relacionamento.
— Mesmo sendo um babaca, eu preciso terminar com ele. Não era nada oficial, mas quero que ele saiba que não teremos mais qualquer tipo de contato. Shawn aprovou minha colocação, dada a forma como sorriu.
— Tudo bem, mas faça isso logo, não quero mais aquele idiota perto de você. Agora, nós dois. Quero levá-la para jantar hoje à noite, mais precisamente para beber.
— Será que devemos? — questionei, incerta sobre sair com ele, já que continuaríamos nos relacionando em segredo.
— Há muitos pedidos naquela caixa dourada, se vou realizar todos eles, é melhor começarmos logo. O olhar apaixonado que ele me lançou conseguiu desarmar qualquer tentativa de recusa. Apenas ele tinha esse poder.
— Tudo bem, vamos jantar, então. Mal fechei a boca e uma batida soou, me fazendo afastar de Shawn rapidamente, e logo Fernanda abriu a porta e entrou.
— Oi, Fernanda, precisa de alguma coisa? — perguntei tentando não
transparecer nervosismo, mas nem deveria ter me preocupado, porque era como se eu nem estivesse ali. Parecia que, no instante em que colocou os olhos em Shawn, uma bolha a tivesse envolvido e ela não conseguisse pensar em mais nada.
— Na verdade, precisava falar com o Shawn — explicou, mas seus lindos olhos esmeralda continuaram fixos nele. Shawn ficou visivelmente desconcertado com o pedido dela, mas logo o vi assentir.
— Tudo bem, vamos à minha sala. Senti um incômodo inexplicável por saber que eles ficariam a sós. Fernanda era manipuladora demais e tive medo de que conseguisse reverter a situação a seu favor. Quando os dois passaram pela porta de acesso e foram para sala de Shawn , eu fiquei inquieta e morta de curiosidade para saber o que eles conversariam, mas não havia outro jeito senão esperar até que ela fosse embora e Shawn matasse minha curiosidade. Mas não foi assim. Ele realmente voltou à minha sala após ela ter saído, mas para meu desgosto, foi bem suscinto sobre a conversa que tiveram, disse apenas que ele e o ex-sogro eram sócios em alguns negócios e com a separação, teriam que conversar para resolver como ficariam as coisas. Isso me deixou duplamente chateada. Primeiro por saber que ainda havia vínculos entre os dois, mas, principalmente, porque ele não me deu muitos detalhes da conversa. Shawn sabia que eu estava inquieta e, ainda assim, não fez nada para me tranquilizar, porém, foi enfático em dizer que ela não falou nada de mais e por isso decidi não pressionar. Perto do final da tarde, e após a quinta ligação, resolvi, finalmente, atender ao Miguel, mas sequer o deixei falar, apenas disse que não daria para nos vermos mais e pedi que ele parasse de ligar. Ele, obviamente, não entendeu por que mudei de ideia tão de repente e tentou me convencer de que eu estava tomando uma decisão precipitada, depois, insistiu para que conversássemos pessoalmente, mas fui bem clara sobre não querer mais vê-lo e já avisei que não faríamos negócios com ele. Antes que começasse a argumentar novamente, despedi- me e desliguei o telefone, soltando um longo suspiro de alívio. Quase uma hora depois, Shawn apareceu novamente, perguntando se eu já havia terminado, pois já estava indo e eu concordei, se iríamos sair, eu precisava de tempo para me arrumar. Descemos juntos até o estacionamento e no caminho, comentei que havia falado com Miguel. Shawn, é claro, quis saber o que conversamos, mas como não sou boba, resolvi pagar na mesma moeda e fui tão suscinta quanto ele nos detalhes, o que não o deixou muito satisfeito, mas a mim, sim. Antes que ele falasse qualquer coisa, dirigi-me ao meu carro e fui para casa. Quando terminei de tomar banho, recebi uma ligação de minha mãe, dizendo que, mais uma vez, papai havia passado mal devido ao aumento da pressão. Falei com Shawn e acabamos jantando na casa dos meus pais, não havia clima para sair, enquanto ele estava de cama, contra a vontade, diga-se de passagem. Ele sabia que se desobedecesse a esposa, ela o arrastaria para o hospital. Quando mamãe me contou o que aconteceu, fiquei pensando se não tinha a ver com a conversa que Shawn tivera com ele a respeito de Miguel. Eu estava certa de que papai havia ficado decepcionado, mas imagino que logo aquele desapontamento se transformou em indignação, por quase ter sido enganado. Então, não duvido que o aumento da pressão tenha se dado por causa disso e fiquei preocupada, com medo de que qualquer emoção mais forte o fizesse passar mal de verdade. Enquanto comíamos, mamãe pediu, encarecidamente, que tentássemos convencer o Sr. Alejandro a diminuir o ritmo de trabalho. Ela queria que ele delegasse mais e que, aos poucos, fosse deixando a empresa em nossas mãos, antes que algo mais grave ocorresse. Acontece que Shawn já vinha tentando convencê-lo disso há algum tempo, papai, no entanto, era teimoso demais, e quando estava bem, pensava que podia tudo. Mas quem estava de fora sabia que não era assim, então prometi a ela que também iria conversar com ele e pedir que diminuísse a carga de trabalho. Após o jantar, subi para dar um beijo em meu pai, seguida por minha mãe que foi pegar a bandeja onde levara a sopa que fizera para ele. Quando desci, Shawn estava me esperando ao lado de seu carro.
— Na minha casa ou na sua? —ele perguntou, decidido, como se já tivesse certeza de que dormiríamos juntos.
— Shawn...
— Pare de lutar, eu sei que você quer. Nós dois queremos. Sim, era verdade, eu estava cansada de lutar, além de estar sentindo uma saudade enorme de seu toque em meu corpo. Resolvi parar de escutar a razão e decidi seguir meu coração.
— Na sua.
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