Já tinha mais ou menos dez minutos que mamãe havia entrado no quarto. Apesar de apreensiva, esperei pacientemente pela minha vez e quando ela saiu, meu coração parecia que ia explodir dentro do peito.
— Ele quer ver você — ela disse e apertou a minha mão com um sorriso tranquilizador, que não me deu nenhuma ideia de como estava o humor de papai. Eu gostaria de ter falado com Shawn antes de entrar, mas ele tinha acabado de sair para ir ao banheiro. Shawn sabia o quanto eu estava abalada, só que por algum motivo, em nenhum momento conversamos sobre o assunto, apenas trocamos olhares. Respirei fundo e segui em direção ao quarto de papai. Assim que passei pela porta, encontrei-o olhando para a janela.
— Pai! — falei, a voz embargada ao vê-lo ligado a todos aqueles aparelhos.
— Camila. — Sua voz era baixa e fraca. Seus lábios estavam brancos e ressacados. Ele está tão abatido e a culpa é minha.
— Desculpe-me por tudo isso, papai, não queria que recebesse a notícia dessa forma. As... As coisas não foram do jeito que a Fernanda falou — apressei-me em explicar, não queria que meu pai achasse que nosso namoro fosse a coisa suja que Fernanda descreveu. Ele tinha que ver o amor que eu sentia por seu amigo do jeito bonito e simples que era.
— Eu sei — ele respondeu com um quase sorriso no rosto.
— Sabe? Ele assentiu, depois suspirou, como se mesmo aquilo o cansasse.
— Eu posso parecer bobo, mas não sou. Não é de hoje que percebo o quanto você gosta de Shawn, mas preferi ver como as coisas se desenrolariam. Não seria justo pressionar meu sócio e amigo, uma vez que não sabia se algum dia ele iria corresponder ao que você sentia. Papai parou e respirou profundamente algumas vezes, já eu, estava com a respiração presa, sem saber o que pensar. Ele continuou: — Mas já tem um tempo que eu percebi a forma como Shawn tem olhado para você, ele a ama, filha, e estava esperando pelo dia em que viriam me contar. Então, não se preocupe, Fernanda não me disse nenhuma novidade. Nessa hora, eu já chorava copiosamente e um enorme alívio percorreu meu corpo.
— Mas eu achei que tivesse passado mal por causa do que ela falou, o senhor sempre gostou dela e achei que não fosse aprovar. Por isso demoramos tanto, tínhamos medo do que poderia acontecer. Eu realmente estava preocupada que papai achasse que eu fosse a culpada pela separação de Fernanda e Shawn, afinal, eles tinham uma longa história juntos.
— Meu coração está fraco, mas nem tanto, querida; até porque eu já sabia sobre você e Shawn há algum tempo. O problema não foi o que ela falou, mas sim, o que eu vi. — Ele parou mais uma vez para respirar e descansar um pouco, chegando a fechar os olhos, o que me preocupou.
— Acho melhor conversarmos depois, papai. Não quero que passe mal novamente. Ele riu fracamente e garantiu:
— Meu coração está bem, só estou um pouco cansado por causa do sedativo que me deram ontem à noite, não se preocupe. Assenti e me sentei na cadeira que estava ao lado da cama, pegando sua mão que, graças a Deus, não estava fria como imaginei.
— Conforme eu estava falando, ver aquela moça, tão nova, inteligente e bonita fazendo uma cena daquelas, me deixou bem impressionado, e quando vi suas mãos cortadas e cheias de sangue, senti uma aflição enorme, nem sei bem por que...
— Eu posso imaginar, também me senti mal por vê-la daquela forma, mas só consegui sentir dó muitas e muitas horas depois, quando o médico falou que o senhor estava fora de perigo, antes disso, minha vontade era matá-la. Mas eu sei que aquilo não é normal, Fernanda está doente e se não se der conta disso logo, a mais prejudicada será ela mesma. Papai sorriu ternamente e apertou um pouquinho a minha mão.
— Essa é a garota que eu criei. Sorri também e, mesmo já sendo óbvio, quis perguntar, apenas para não haver dúvidas:
— Então quer dizer que não se opõe? Ele fez que não com a cabeça.
— Eu não poderia desejar um genro melhor. Shawn já é como se fosse meu filho. Meu peito se encheu de alegria e amor ao escutar as palavras do homem que me deu a vida. Sentia-me tão aliviada quanto me senti na hora em que o médico nos garantiu que ele ficaria bem. Não sabia como iria reagir se papai ficasse contra o nosso relacionamento, mas posso garantir que um pedaço de mim morreria. Agora, ouvindo tudo isso, percebi o quanto fui boba, papai tinha um coração enorme e se eu tivesse me lembrado disso, não teria sofrido por antecipação durante tanto tempo.
— Ele está ansioso para falar com você.
— Então, não o deixe esperando mais. Limpei as lágrimas do rosto e fui atrás do meu amor. Quando dei alguns passos para fora do quarto, encontrei-o sentado em uma das cadeiras de espera, com o semblante preocupado. Assim que apareci em seu campo de visão, ele ergueu a cabeça e me fitou, seguido por mamãe e Karen, que estavam sentadas ao seu lado.
— Papai quer falar com você — comuniquei, baixinho, e ele se levantou. Seu olhar estava cheio de culpa e receio, mas ele não vacilou ao ultrapassar a porta e caminhar em direção ao meu pai. Quando se aproximou da cama, falou:
— Alejandro, me desculpe por isso, eu...
— Parem de se desculpar, por favor. Esse chamego de vocês não foi novidade para mim. Shawn me encarou espantado e eu apenas sorri, feliz demais para permanecer impassível.
— Bom, ainda assim eu já deveria ter conversado com você, mas não sabia como iria reagir e fiquei com receio de estragar uma amizade de tantos anos. Papai sorriu e me chamou para perto, pegando minha mão.
— Camila é o meu tesouro mais valioso, você, o melhor amigo que já tive na vida e não consigo imaginar ninguém melhor para estar ao lado dela. Só não me posicionei antes, porque não gosto de me meter na vida dos outros e também porque te conheço, rapaz, sabia que precisaria de um tempo para ter certeza do que sentia. Mas estava certo de que quando isso acontecesse, viria falar comigo. Agora, só o que peço é que a faça feliz. Encarei os dois com o coração transbordando de amor.
— Se depender de mim ela será a mulher mais feliz desse mundo — Shawn prometeu, emocionado, e me abraçou.
— Vocês têm a minha benção, mas tenho uma condição — papai disse em tom de brincadeira.
— Que condição? Àquela altura aceitaríamos qualquer coisa, ele merecia tudo o que desejasse.
— Eu quero netos. Saí do abraço de Shawn e abracei meu pai, depois beijei sua cabeça.
— Eu prometo, papai, não agora, mas seus netos virão. Só que para poder curti-los, o senhor precisa se cuidar, como vai correr atrás de um netinho se não consegue andar alguns metros sem se cansar? Meu tom era de brincadeira, mas ele sabia que eu estava falando sério e esperava que depois dessa, começasse a perceber que a coisa era séria.
— Eu já sei. O tempo que sua mãe passou aqui foi me dando sermão e dizendo o que eu podia ou não fazer. Eu e Shawn rimos e papai acabou nos acompanhando. Resolvemos deixá-lo descansar um pouco, mas assim que atravessamos a porta, agarrei-me a Shawn e voltei a chorar. A carga emocional das últimas horas tinha sido intensa demais e receber a bênção do meu pai me deixou com aquele famoso nó na garganta. Por volta das 10h, papai recebeu alta, não sem antes ouvir do médico as inúmeras instruções novamente, dessa vez, na frente de todos nós para que não houvesse equívocos sobre como ele deveria se portar dali em diante. Enquanto estávamos no quarto, Rafa e Davi haviam chegado e no período que tivemos que esperar até a alta, contei aos cinco o motivo de papai ter passado mal e todos entenderam, a cena foi realmente forte e degradante. Fernanda tinha conseguido acabar com a festa, mas o que interessava era que ele estava bem, apesar de tudo e que agora estávamos livres para viver o nosso amor.
— E a cobra, o que aconteceu com ela? — Rafa perguntou, sem rodeios e sem se preocupar com o que Shawn iria achar.
— Ela estava com vários cortes na mão e tive que levá-la a um hospital. Quando a família dela chegou lá, contei tudo o que aconteceu e parece que eles, finalmente, entenderam que ela está com problemas psicológicos.
— É uma pena que uma moça bonita daquelas, tenha ficado tão perturbada — Karen comentou.
— Pois é, só espero que ela mantenha distância de Camila ou terei que entrar com alguma medida judicial — Shawn falou, pois agora com certeza acreditava que sua ex tinha alguma coisa a ver com aquela festa de calouros. As provas estavam na cara dele, não tinha mais como duvidar. No caminho para casa, Shawn parou em uma padaria e depois de acomodar o marido, mamãe fez um café daqueles para todos. Karen decidiu ir para seu apartamento, pois queria dormir e à tarde iria ao cinema com uma amiga, mas eu tinha minhas dúvidas de que fosse mesmo isso. Algo me dizia que o Sr. Manny ainda estava na cidade e que ele seria o acompanhante da minha sogra. Eu também estava morta de sono e fui para casa na companhia de Shawn, que agora era, oficialmente, meu namorado. Se não fosse todo o cansaço, com certeza iria querer comemorar, me acabando na cama com ele, mas Shawn parecia tão cansado quanto eu. Então, tomamos um bom banho e dormimos o domingo praticamente todo, o que foi bem reparador para nós dois. No final dodia, acordei com a boca dele distribuindo beijos pelas minhas costas.
— Sua mãe nos convidou para jantar — ele avisou.
— Hum, estou faminta.
— Eu também, mas é de você. O beijo de Shawn teve outro gosto naquela tarde, além do amor, agora tinha uma deliciosa sensação de liberdade. Não havia mais mentiras, nós teríamos nosso primeiro jantar em família e, finalmente, como um casal. Sem ter que esconder o quanto estávamos apaixonados. Arrumei-me com calma e para aquela ocasião preferi um tênis e um suéter, pois estava caindo uma chuvinha chata. Quando chegamos à casa dos meus pais a mesa já estava posta. Iríamos comer apenas pizza, mas minha mãe escolheu a melhor louça. Achei que Shawn pudesse ficar pouco à vontade, agora que papai já sabia do nosso relacionamento, mas graças a Deus, os dois pareciam na mesma sintonia.
— Estou tão feliz por vocês, filha — mamãe disse quando fomos até a porta pegar as pizzas que tinham acabado de chegar. Ela sempre foi minha cúmplice e sofreu junto comigo em todas as fases da minha vida. Como toda mãe, captava no ar todas as vezes que eu estava magoada por ter visto Shawn com outra mulher ou quando estava armando alguma coisa para ficar perto dele.
— Eu sei, mamãe, é um sonho. Levamos as pizzas para sala de jantar e abrimos as caixas. Em um primeiro momento, achei o cheiro delicioso, afinal, estava morrendo de fome, mas não demorou dois segundos para meu estômago embrulhar. Saí correndo para o banheiro mais próximo e faltei vomitar as tripas e aquilo foi estranho. Eu não tinha bebido muito no dia anterior, pois quando achei que conseguiria curtir a festa, a louca da Fernanda apareceu para dar aquele show. Quando cheguei na cozinha, papai, mamãe e Shawn estavam me olhando de um jeito estranho.
— Está melhor? — mamãe perguntou.
— Sim, foi só um mal-estar — afirmei.
— O que foi? — perguntei alguns segundos depois, quando eles continuaram em silêncio, trocando olhares cúmplices.
— Você nunca foi de ficar enjoada — papai disse.
— E anda comendo mais que o normal, inclusive fastfood — Shawn continuou.
— Acho que você está carregando nosso netinho — mamãe completou e os três começaram a comemorar.
— Ei, podem parar vocês três, foi só um mal-estar. Sim, eu tinha prometido que daria netos ao meu pai, mas como lhe disse, isso não aconteceria tão cedo. Ouvi-los falar tudo aquilo me deixou apavorada. Eu ainda queria fazer tantas coisas, que quando a ficha começou a cair, um certo desespero me abateu. Mas você sonhou em ser a mãe dos filhos desse homem a vida toda. E ainda sonhava, mas não assim, sem aviso e sem preparo. Jantei sob olhares e sorrisos. Papai e mamãe estavam radiantes porque tinham certeza de que eu já estava esperando o herdeiro que eles tanto sonharam. Shawn também parecia bobo com a possibilidade, mas eu não conseguia me imaginar segurando uma criança nos braços. Aquilo parecia uma realidade tão distante que, para mim, o jantar tinha acabado. Fiquei imaginando como seriam nossas vidas com uma criança no meio, eu mal tivera tempo de aproveitar Shawn e já precisaria dividi-lo? Meus pensamentos eram completamente egoístas, desconexos e cheios de porquês. Não fazia sentido todo aquele drama interno, já que sempre desejei me casar com ele, mas, infelizmente, era o que eu sentia. Por outro lado, Shawn já estava na idade de ter filhos, meu pai, de ser avô, mas eu ainda não me sentia preparada para ser mãe, cuidar e educar uma criança deveria ser algo exaustivo, e por esse motivo eu rolei a noite toda na cama, fazendo suposições e imaginando situações para uma vida a três. Parecia que quanto mais eu pensava no assunto, mais enjoada eu ficava, mas tratei logo de colocar em minha cabeça que aquilo era psicológico. Já havia lido vários artigos sobre gravidez psicológica, que acontecia quando a mulher ficava tão nervosa e tensa, pensando tanto no assunto, que acabava criando os mesmos sintomas que uma gravidez real. Deveria ser isso que estava acontecendo comigo, mas como nunca fui mulher de ficar me torturando por besteira, decidi que no dia seguinte, a primeira coisa que faria seria marcar um exame de sangue para tirar logo essa dúvida, meu ciclo nunca foi regular então, não me apeguei ao atraso de dois dias para justificar uma gravidez. Tudo bem que esqueci de tomar meu anticoncepcional duas vezes durante o mês passado, mas já tomava há tanto tempo que com certeza esses dois dias não fariam a menor diferença. Não é? Na segunda- feira, por volta de meio-dia, entrei confiante na sala da enfermeira e deixei que ela tirasse uma amostra de sangue para fazer o Beta-HCG. Segundo ela, o resultado estaria disponível no site do laboratório em mais ou menos quatro horas. Voltei para a empresa mais tranquila, pois até o final do dia minha dúvida seria esclarecida. Aquela tranquilidade, contudo, se foi rapidamente. À medida que o tempo passava, mais ansiosa eu ficava para saber o resultado do exame e quase tive uma síncope quando vi. POSITIVO. Oh, meu Deus, por quê? Fiquei repetindo essa pergunta por mais de meia hora, desde que entrei no site do laboratório e acessei o resultado do exame. Eu estava mesmo grávida. Sempre sonhei em me casar (com Shawn) e ter filhos, mas agora que a realidade tinha batido à porta, eu não conseguia agir de forma positiva, só conseguia pensar que minha vida se transformaria em um caos, porque um filho iria mudar absolutamente tudo. Eu havia estudado tanto, e então, quando finalmente estava fazendo uma coisa que adorava e na qual era muito boa, acontece isso. Se fosse tudo bem durante a gravidez, talvez eu pudesse voltar para o trabalho um mês depois do parto. Mas se por acaso alguma coisa acontecesse durante a gestação... Cogitar aquilo apenas me fez ficar mais nervosa. Inclinei a cabeça para trás, repousando-a no encosto da cadeira e girei, girei e girei, até ficar meio tonta. Então fiquei de frente para a janela, dobrei um pouco o corpo, e comecei a observar as pessoas na pracinha do outro lado da rua. Havia uma boa quantidade de crianças brincando, sob a supervisão de seus adultos e tentei me imaginar naquela posição, tentei imaginar a sensação de segurar um bebê nos braços, mas tudo parecia muito distante, muito fora da minha realidade.
— Camila? Fechei os olhos ao escutar a voz de Shawn e após respirar profundamente, virei-me para encará-lo. Assim que o vi, lembrei-me de como ele ficou feliz no dia anterior, quando meus pais cogitaram apossibilidade de que eu pudesse estar grávida e me senti mal por não estar feliz da mesma forma.
— Oi —falei, tentando controlar a vontade de chorar, esse bebê, definitivamente, não tinha aparecido em uma boa hora.
— Você está bem? Sem conseguir mentir, fiz que não com a cabeça e as lágrimas começaram a descer. Rapidamente ele se aproximou e me puxou para um abraço.
— O que houve, meu amor, por que está chorando? Quando pensei em responder, uma leve batida soou e em seguida, papai e mamãe surgiram à porta. Por ordens médicas ele não iria trabalhar por alguns dias, mas tinha convencido a esposa de passar na empresa no final da tarde para ver como as coisas estavam.
— Filha, por que está chorando?
— O que houve, querida? Ambos perguntaram ao mesmo tempo, assustados. Eu tentei, mas não conseguia falar, o nó na garganta era tão grande que parecia me sufocar, então, afastei-me de Shawn, peguei o exame que imprimi do site e o entreguei a ele. Shawn demorou alguns segundos para assimilar o que estava lendo, mas quando isso aconteceu, seus olhos ficaram tão marejados quanto os meus.
— Você está mesmo grávida?
— Sim, e completamente perdida, desesperada.
— Um filho! Essa é a melhor notícia que você poderia me dar — ele afirmou, me beijando, enquanto meus pais faziam a maior festa atrás dele.
— Um netinho... Ah, meu Deus, que felicidade! — papai disse e me abraçou. Já mamãe não conseguia nem falar de tão emocionada que estava.
— Estou com medo — falei.
— Medo do quê, meu amor? — Shawn perguntou e limpou as lágrimas do meu rosto.
— De não saber cuidar dele ou dela, crianças dão muito trabalho. Os três deram risada do meu desespero.
— Filha, toda vez que nasce uma criança, nasce uma mãe também. Eu tive esse receio quando engravidei de você, mas depois passou. Além disso, não a deixaremos encarar tudo isso sozinha, eu, seu pai, Shawn e Karen vamos te ajudar. Se quiser continuar trabalhando, posso cuidar do meu neto com o maior prazer; não fique criando situações bobas em sua cabeça. Mamãe conseguiu me acalmar um pouco, talvez porque tivesse razão, não adiantava ficar pensando besteira. Eu jamais teria coragem de fazer um aborto, então, o que me restava era começar a gostar da ideia, pois de uma coisa eu sabia: todos os meus sentimentos e emoções eram passados para o bebê. Saímos da empresa juntos e fomos direto para casa. Mais tarde, jantamos em família, junto com Karen e Rafa, que foram convidadas para que pudéssemos contar a novidade. Davi não conseguiu ir, mas ligou para parabenizar Leonel. Todos estavam em clima de festa, e mesmo eu, já estava um pouco animada. Desejei aquilo a vida toda, então, atribuí todo aquele desespero ao choque de receber a notícia naquela fase do nosso relacionamento e medo do desconhecido.
— Amiga, melhore essa cara, está todo mundo feliz.
— Eu também estou feliz, Rafa, só fui pega de surpresa e estou tentando digerir.
— Vocês dois transam feito coelhos, o resultado não poderia ser outro — ela fala tentando me descontrair e consegue, pois começo a rir. Então ela continua, de forma mais suave:
— Imagine como vai ser gostoso ter uma mini cópia de Shawn correndo dentro de casa. O comentário arrancou um sorriso terno de mim. Toquei minha barriga pela primeira vez desde que li o resultado na tela do computador.
— Vai ficar tudo bem, eu só estou me acostumando com a notícia. Ela assentiu e nos juntamos aos demais. Sentei- me entre Shawn e Karen que me puxou para si e falou:
— Estou tão feliz por vocês, Camila. — Seu sorriso era enorme, assim como os de meus pais e Shawn, que estava ainda mais carinhoso e cuidadoso. A forma como ele me olhava deixava claro que a notícia o fez me amar ainda mais. Eu queria poder dizer que estava tão feliz quanto eles, mas o primeiro passo era aceitar que eu iria ser mãe em poucos meses e que logo alguém iria precisar incondicionalmente de mim. Nos dias seguintes papai, mamãe, Shawn e Karen me deixaram quase louca. Nenhum deles falava em outra coisa que não se referisse ao bebê: o sexo, o nome, o quarto... Achei que esse tipo de coisa fosse me irritar, mas não, como falei com a Rafa, a cada dia eu me acostumava mais com a ideia e se não fossem os enjoos, eu estaria ainda melhor. Minha primeira consulta foi um verdadeiro caos. Acho que a médica se assustou com a euforia do meu namorado e dos nossos pais, quando o bebê surgiu na tela, parecia que eles estavam em uma final de copa do mundo. Mas
quando a médica começou a descrever o que estávamos vendo, foi impossível não ficar emocionada por saber que aquela coisinha estava se formando dentro de mim. Contudo, foi na hora em que o som do seu coração invadiu a sala que meu mundo desabou. Aquelas rápidas batidas fizeram minha ficha cair de vez: eu estava grávida, havia uma vida dentro de mim, e não qualquer vida, mas o filho do homem a quem eu amava. Essa constatação me fez chorar de emoção pela primeira vez e a partir daí eu me transformei na típica grávida, louca para ver como seria seu rostinho, sentir seu cheirinho e saber como ele seria. Desse dia em diante, tudo mudou, meu filho era real, aquela era minha nova realidade e eu o amaria com tudo de mim.
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