Capítulo Sessenta e Nove

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— Não estou entendendo o que está me pedindo — Ryda falou.

Joaquim grunhiu.

Fazia um bom tempo desde que se irritara com alguém, e Ryda não estava cooperando; ou melhor, não queria cooperar.

— Estou dizendo — começou pela quarta vez, o mais lentamente possível — que desejo que o feitiço que pôs em mim seja retirado. O feitiço que meu pai mandou que colocasse.

Ryda piscou, atônito.

— Em primeiro lugar, não sou um gênio, não pode dizer que deseja algo de mim, rapazinho. Em segundo lugar, seu pai foi alguém muito especial para mim. Ele pediu que eu cuidasse de você, mesmo de longe.

— Não quero estar protegido.

— Deveria querer.

Ao abrir a boca para falar, percebeu que não conseguia. Ryda mantinha um sorriso astuto no rosto, como se questionasse, ironicamente, quais eram suas reclamações. Ele lhe dirigiu um olhar mortal e balançou a cabeça.

— Gosto de tirar a voz das pessoas quando elas me aborrecem. Fiz isso com aquele menino louro duas vezes. ele sempre se assusta, e eu sempre me divirto.

Joaquim revirou os olhos. Não podia dar as costas, sabia que Ryda não viria atrás dele. Não era assim que as coisas funcionavam com o feiticeiro. Mesmo que conseguisse que o feitiço fosse retirado, tinha que lembrar que foi Clemente que o colocou lá, e isso o deixava raivoso, mesmo que pouco. Havia debatido consigo mesmo durante minutos quando a apresentação com fumaça terminara e Lipe saíra, assim como Érico, cada um com pensamentos diferentes e dolorosos. Um escudo ao seu redor, que impedia que morresse era uma coisa boa, para ele, porém, é um impedimento ao seu conceito de guerreiro.

Recuara diversas vezes antes de finalmente passar pela porta do quarto colorido de Ryda, que tinha cortinas cor vinho, tapetes azuis e uma cama de dossel laranja e branco. Somente a presença do homem já era demasiada colorida.

— Quero lutar — era sua voz novamente, retornando aos poucos, rouca e frágil — e quero fazer isso sem medo. Se eu for à guerra com um feitiço em mim, não vou me sentir um guerreiro. Vou sentir que estou trapaceando enquanto os meus amigos é quem estão verdadeiramente lutando.

— Posso colocar um escudo neles também... Apesar de achar que isso esgotaria minhas forças.

Joaquim balançou a cabeça, negando. Sua cabeça estava começando a doer por causa daquela conversa.

— Nenhum deles aceitaria.

Ryda sorriu, sabendo que ele tinha razão.

— Aquela garota loura que falou com você na sala com certeza não aceitaria.

— Messina. Sim. Ela é uma guerreira e tanto.

— Eu sonhei com ela. Aliás, sonhei com todos vocês em algum momento antes desse momento.

— O que quer dizer? — Tendo consciência de que o feiticeiro estava fazendo magia, Joaquim afastou-se um passo.

Quando Ryda fazia magia, suas mãos ficavam douradas, como ouro derretido na mais quente fornalha. Era como se as veias dele não tivessem sangue comum, vermelho, e sim dourado, e elas estouravam sempre que ele desejava usar suas habilidades.

Os olhos dele, a pele e até os cabelos ficavam mais destacados, saturados, vencendo a luz natural.

De repente estar em pé pareceu afetá-lo. suas pernas cederam até que ele caísse de cara no chão, sentindo a dor lancinante do impacto do chão contra seu nariz e sua testa. O ar lhe escapou dos pulmões e ele encarava, sem conseguir se mover ou falar, o tapete azul felpudo, que fazia cocegas em seu nariz. O tecido foi se tornando opaco, até que seus olhos estivessem completamente fechados.

Coroa, Flechas e Correntes (Romance Gay)Onde histórias criam vida. Descubra agora