- Você não quer companhia? - a Vi pergunta quando nos aproximamos.
- Sua? Pra que, pra você mentir pra mim?
- Fred o segredo não era meu! - irritada ela acerta o volante.
- Eu sou seu melhor amigo! Eu! Eu segurava sua mão quando você tinha medo de vacina, eu segurava sua mão quando tinha medo de falar com adultos, era pra minha cama que corria quando inventava de ver filme de terror. Você mentiu para mim!
Vi estaciona. Os cabelos ruivos espalhados pelo rosto são registro de que agora só estuda e nem tempo para a hidratação semanal deve ter.
- Eu tava respeitando nosso pai!
- Não! Você estava me enganando porque queria ser como ele e sabia o quanto seria horrível para mim, ele é um assassino do Estado e você quer ser igual!
- Nosso pai fez o que tinha de fazer, eu confio no julgamento dele.
- Não! - abro a porta do carro – julgamento é com juiz e jure, ele não tem direito de escolher quem vive ou morre! Não importa o quão horrível a pessoa seja, ou nós garantimos o direito de todo mundo ou ninguém tem direito!
- Isso é idealismo!
- Somente porque pessoas como vocês se acham acima da lei!
Bato a porta e paro na calçada, nos encaramos um pouco antes que Vi dê a partida e vá embora. Olhando para o límpido azul celeste respiro fundo. Tudo ficou complicado. Eu só queria minha família de volta, é pedir muito?
Para não dar a volta entro pelo estacionamento, mas paro, minha chateação esquecida porque de repente olhos fofos me fitam.
- Boa tarde, quer conhecer nossos gatinhos? - uma mulher me diz.
- Dona, eu acho que ele me falou comigo! - aponto o bichinho.
A mulher sorri e se aproximando da gaiola me chama.
- Esse é o Fred. - ela diz sorrindo.
- O nome dele é Ferdinando. - outra corrige.
- Nós ainda não decidimos porque ele combina com os dois. - a primeira explica.
- Ele se chama Fred? - Pergunto meio sem acreditar na coincidência.
- Quer pegar?
- Por que ele parece triste? - questiono olhando o gatinho amuado.
- O Fred foi rejeitado pela terceira vez – ela diz abrindo a gaiola. - ele é brincalhão. Esse é o sonho de todo dono de gato, mas tem gente que usa como desculpa para voltar atrás na responsabilidade da adoção.
- Tem gente idiota no mundo! - resmungo e estendo as mãos.
Devagar ela retira o Fred Ferdinando da gaiola. Ele é rajado e branco, olhos verdes água. O bichinho assustado crava as unhas na mulher. Ele foi devolvido duas vezes, imagino sua tristeza. Ele confiou, entregou-se, amou e foi traído, sei como é.
Estendo minha mão, mas ele recusa, sem pressa a voluntária afaga sua testa e me ensina como me aproximar, jogo a mochila no chão e espero, ele volta para a gaiola e continuamos a nos olhar, pelas grades ofereço o dedo para que sinta meu cheiro.
Pessoas visitam, olham os animais, falam fofinho. Cachorros latem, crianças choram, mas eu e o pequeno gato continuamos nos sondando.
- Quer tentar de novo? - uma das jovens pergunta vendo que não desisti. - O que você acha Fred, quer dar uma chance para o gato humano?
As mulheres em volta sorriem, o pequeno bichinho parece tremer, mas a moça me explica que é rom rom. Nunca tive bicho, meus pais diziam que três crianças e animais eram demais para o nosso apê em SP.
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Fred 2.0
RomanceDepois de sobreviver a um atentado e descobrir desagradáveis verdades sobre a Família Frederico tenta se ajustar na companhia da irmã Aretha e um novo amigo. Multiplos pontos de vista narrativo, todos em primeira pessoa. O texto possui conteúdo adu...
