Maurício se despede, Aretha volta ao consultório e a acompanho, me despeço de Fabrine com um selinho e no coração lhe desejo toda a felicidade desse mundo, mas meus lábios estão cansados de falar e talvez seja hora de calar. Nos sentamos no sofá do consultório, o lugar foi decorado pelo meu pai.
Anualmente Thomas vem e troca as coisas de lugar, muda quadros ou mobília, mas na parede tem sempre a mesma foto bonita, é a mamãe nos ombros do vô Augusto na entrada do Cícero Pompeu de Toledo, vulgo Morumbis.
Ati tem o sorriso gigante, meu avô segura seu joelhos e ela tem os braços pra cima, como se mostrasse o monumento atrás de si. Olhos de água barrenta brilhantes, cabelos soltos, ambos estão usando a camisa reserva. Não sei quem fez a foto, se a Vó Virgínia ou o bisavô Frederico, mas eu gostaria de ter estado lá.
Pais foram crianças, pais são pessoas, pais erram. Mas os meus não erraram por maldade, frieza ou indiferença. Ati é a fortaleza que nos abriga e Thomas o cavaleiro que fica na frente do castelo, espada em punho, nos protegendo.
Odiando ou não o rumo que as coisas tomaram eles são bons pais. Se eu conversasse com meia dúzia de pessoas acho que em 5 mintuos teria exemplos do que são pais ruins: abusos psicológicos, físicos, sexuais, intransigências, expectativas sem fim, controladores, machistas, bipolares, alcoólatras ou viciados em outras substâncias, enfim, gente ruim. Mas não meus pais, eles são meio que o crème de la créme.
- O que você fez? - Aretha pergunta.
- Como sabe que eu fiz alguma coisa?
- Tá com cara de culpado! - ela responde e alcança a taça com água – é pela Fabrine?
- Nope, I may have said some pretty unkind words to mama (1).
- No you didn't (2)! - Aretha aperta os olhos me encarando.
- Bloddy hell, I did it! I'm not proud and I'll apoligise, ok? I'm just looking for strenght to go home and talk to her (3).
- You're an asshole, you know that, right (4)?
- Look, I was upsset, and hurt (5).
- Not an excuse to hurt our mother (6)! - Aretha faz sua cara brava e eu tenho convicção que seus filhos correrão pra minha casa quando se meterem em encrenca.
- I know! - eu digo levantando – I'll make things right, are you staying here (7)?
- Ya, Fabrine will leave in the morning, she is really well, but I'll stay just in case she needs anything (8).
- Thank you sis, you are perfect (9).
- Apoligise to our mother, and we will be good too (10). - ela indica a porta com a cabeça e me dá um sorriso triste.
Procuro no bolso a chave do carro e não encontro. Tento me lembrar, mas não sei como cheguei aqui. Caminho até o ponto de ônibus e me sento, prefiro assim, preciso juntar forças. Não estou menos chateado pelo que aconteceu, mas minha mãe não merecia ouvir droga nenhuma e o que ela fez pela Fabrine e por mim é muito especial.
Pago a passagem, me sento no fundo, observo as pessoas. Nós nunca fomos ricos, viajamos para o exterior somente duas vezes na vida, estudávamos em colégios bons, mas nunca os melhores, morávamos com conforto num espaço pequeno, sempre tivemos carro, mas mesmo sob os protestos do papai a Ati sempre nos ensinou a andar de ônibus e metrô, ela fazia questão de nos mostrar como nossa realidade era privilegiada, apartamento próprio, colégio de três línguas, ganhávamos roupas anualmente.
Rodamos São Paulo inteira de ônibus, às vezes nem que fosse para ver, nada de celulares nas mãos, ela nos ensinou a entender a cidade, respeitar o trabalhador e nunca agir como donos do mundo.
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Fred 2.0
RomanceDepois de sobreviver a um atentado e descobrir desagradáveis verdades sobre a Família Frederico tenta se ajustar na companhia da irmã Aretha e um novo amigo. Multiplos pontos de vista narrativo, todos em primeira pessoa. O texto possui conteúdo adu...
