Desço as escadas quase voando, entro no carro e antes de colocar a chave na ignição respiro profundamente, muitas vezes. De todos os jeitos que imaginei esse dia nenhum se parece com hoje.
Imaginava estar em casa com minha amada aguardando o resultado na porta do banheiro. Imaginava dar a notícia aos meus pais e amigos por telefone, eu e a mina gritando de alegria. Mas não vou reclamar, sempre quis ser pai e serei um excelente pai, muito melhor do que os meus.
Eu nunca vou mentir para o meu garoto, ele será sempre prioridade. Sorrio olhando minha imagem no retrovisor, e se meu rosto for parar numa menina? Como seria uma menina com meus olhos pretos e o cabelo loiro? Será que a criança será alta como eu, ou mais baixa como a Fabrine?
Deixo a garagem rumo a W3 Norte, odeio Brasília, mas meu filho será brasilense, quem acreditaria? Eu sempre achei que meu moleque cresceria no nosso apê de Santa Efigênia. Acho que dificilmente consigo convencer a Fabrine a se mudar comigo para lá.
Dou duas voltas na quadra até encontrar lugar no qual estacionar. Na primeira batida a porta é aberta e sua mãe me deixa entrar, olhos inchados de chorar.
- Eu sei que é uma surpresa para todos, mas vai ficar tudo bem.
- Como? - a mulher me pergunta. Voz fria, como se eu tivesse dito um absurdo.
- Eu tô aqui! A Fabrine não passará por nada sozinha, eu posso vir morar aqui, ou procuramos um lugar pra gente.
- Garoto, você ainda mora com seus pais.
- Mas eu tenho emprego – me defendo – sou professor de defesa pessoal, tradutor e tenho dois braços, nada vai faltar para a Fabrine e a criança.
A mulher me olha como se eu tivesse duas cabeças, depois me dá às costas indo para a cozinha. Fabrine está na cama, abraçada aos joelhos, cabeça apoiada na parede, as lágrimas escorrem como torrente. Dou duas leves batidas na porta para não assustá-la e entro.
- Oi.
Ela não responde, nem se move, seu choque deve ser milhões de vezes maior do que o meu. Tento não achar ruim, não ser indelicado.
Seu corpo e vida estão prestes a mudar dramaticamente, é claro que está em choque, a mina terminou comigo porque não queria compromisso e de repente tem no ventre um compromisso pra vida inteira.
- Obrigada por ter me ligado. - começo - Eu sei que cê tá confusa e provavelmente com raiva de mim, mas eu nunca fiz sexo sem camisinha, só que essas coisas às vezes acontecem. Eu tô aqui, você e o bebê nunca estarão sozinhos, eu sei que somos jovens e não temos grana, mas vamos dar um jeito, eu prometo.
- Você não entende!
Suspiro, ela tá nervosa, quer brigar, tudo bem, posso ser saco de pancadas por uns minutos.
- Eu entendo, mas quero ouvir o que você tem pra falar.
- Oh meu Deus! Por que você é assim? Como tu pode estar tão tranquilo quando nossas vidas estão prestes a ser destruídas?
- Eu sei que cê me tá triste, mas sua gravidez não precisa ser o fim de nada, pode ser o começo de alguma coisa.
Ela fica em longo silêncio, desses que qualquer homem com meio cérebro sabe que vem chumbo grosso quando abrir a boca.
- O que você tem a perder?
Ela grita e eu fico calado.
- Você odeia seu curso na faculdade, dá aulas em um tatame no meio do pasto da UnB. Você não é nada, não tem nada, não construiu nada!
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Fred 2.0
RomanceDepois de sobreviver a um atentado e descobrir desagradáveis verdades sobre a Família Frederico tenta se ajustar na companhia da irmã Aretha e um novo amigo. Multiplos pontos de vista narrativo, todos em primeira pessoa. O texto possui conteúdo adu...
