ROMANCE DARK
Ela sonhava com a liberdade. Ele era a própria prisão.
Aos vinte anos, Luiza Montti acreditava que finalmente conquistaria a liberdade prometida. Mas o que deveria ser um recomeço transformou-se em um pesadelo sangrento - e ela foi lanç...
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O amanhecer surgiu pálido, envolto em uma névoa diáfana que se confundia com a melancolia que carregava dentro de mim. O céu, sombrio e denso, parecia carregar o peso do destino que se abatia sobre mim, como se até a natureza compreendesse a solenidade trágica daquele dia. A data tão aguardada por todos havia chegado, mas, em meu peito, não havia celebração — apenas um vazio frio e interminável. O vento, impiedoso, atravessava a sacada, fazendo as cortinas ondularem em uma dança inquieta e desesperada, como se refletissem minha própria inquietação.
Havia mais de uma hora que eu permanecia imóvel, sentada na beira da cama, prisioneira de pensamentos que não conduziam a parte alguma. A noite anterior fora um tormento — o sono rarefeito, fragmentado por acessos de ansiedade, cedeu lugar a uma sequência interminável de pesadelos. Restou apenas o cansaço insidioso, gravado em cada fibra do meu corpo.
O tempo arrastava-se com uma lentidão torturante, mas eu, mergulhada no abismo silencioso da minha mente, permanecia incapaz de mover sequer um músculo. Era como se meu corpo tivesse se fundido ao vazio que me consumia. A única sensação concreta que me restava era o desejo febril de desaparecer — escapar dessa realidade sufocante e implacável. Hoje, mais do que nunca, sentia a tentação de ceder, de permitir que a dor me subjugasse por completo, como um rio feroz que arrasta tudo em seu caminho, sem piedade ou remorso.
A ideia de caminhar até o altar me aterrorizava. Aquele altar, que deveria ser um símbolo de amor e união, para mim era um tribunal. Eu seria julgada, condenada a uma vida sem escolhas, sem liberdade. Meu peito se apertava a cada pensamento, como se algo muito pesado estivesse sendo empurrado para dentro de mim, afundando lentamente em minhas entranhas. E, ao mesmo tempo, um vazio imenso me tomava, como se a esperança tivesse morrido em mim antes mesmo de nascer. O que restava de mim ali? Uma sombra do que poderia ser, uma alma arrastada por algo maior, que eu não entendia e muito menos aceitava.
A saudade do que poderia ter sido minha vida — o livre arbítrio, o amor verdadeiro, os momentos de felicidade sem amarras — me afligia a cada suspiro. E então, uma revolta mansa tomava conta de mim. Revolta contra os outros, contra as circunstâncias, mas, acima de tudo, contra mim mesma. Por que eu não tive coragem de fugir? Por que não lutei quando ainda podia? Agora, o destino já estava traçado, e eu era uma espectadora passiva de um espetáculo que não escolhi, de um casamento que não era meu, que nunca seria meu.
O peso do mundo parecia repousar sobre meus ombros enquanto eu me afundava nos lençóis. Em vez de me entregar às exortações da razão, entreguei-me ao abraço morno e sedutor da letargia, enredando-me nos cobertores como um ser que se retira do mundo.
O quarto parecia ainda mais frio sob a luz acinzentada que atravessava as cortinas pesadas. Deitada sobre a colcha macia, eu encarava o teto, tentando encontrar alguma lógica em meio ao caos dos meus pensamentos.
Fui arrancada dos meus devaneios pelo som austero da porta se abrindo com um clique preciso. Não precisei desviar o olhar para reconhecer sua presença — o eco firme dos saltos de Andréa sobre o mármore polido anunciava sua entrada como uma proclamação inevitável, tão fria quanto triunfante.