Capitulo 30

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O vidro grosso da janela refletia o brilho alaranjado do amanhecer

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O vidro grosso da janela refletia o brilho alaranjado do amanhecer. A cidade despertava lá fora, indiferente ao que acontecia dentro da sede. O escritório estava silencioso, exceto pelo leve crepitar do charuto entre meus dedos e pelo tilintar do líquido âmbar contra o cristal à medida que eu girava a taça de conhaque. Poderia ser uísque, mas naquela manhã, algo mais denso parecia apropriado.

No painel luminescente à minha frente, a imagem de Luiza, entregue ao sono, projetava-se, um espetáculo de vulnerabilidade sob meu escrutínio. Seus movimentos, inquietos e convulsivos, agitavam os lençóis de seda, que se enroscavam em seu corpo esguio, delineando a silhueta de uma presa em cativeiro. Mesmo nas profundezas do sono, a tensão persistia, enraizada em seus ombros, como se a vigilância fosse um fardo inescapável, uma sombra que a perseguia até mesmo no reino dos sonhos. Um sorriso gélido curvou meus lábios, um prenúncio de triunfo.

Ela era minha possessão, um troféu conquistado na arena da obsessão.

Recostei-me na poltrona de couro, a textura macia acariciando minha pele, enquanto a fumaça do charuto cubano, densa e aromática, escapava lentamente de meus lábios, desenhando arabescos no ar rarefeito. Cada detalhe da noite pretérita, o crepúsculo de sua liberdade, retornava à minha mente com uma nitidez cirúrgica, como um filme em alta definição. O vestido de noiva, um sudário branco que simbolizava sua rendição, o olhar de fúria contida, mascarado por sorrisos forçados, os dedos crispados, apertando o buquê de flores como se buscassem um escape. A respiração suspensa, um suspiro de resignação, quando meus olhos encontraram os seus no altar, um palco para o nosso destino. Ah, aquele momento... O instante em que a vi cruzar o corredor da igreja, a marcha nupcial como um réquiem para sua autonomia, foi como testemunhar um xeque-mate se desenrolar diante de meus olhos.

Ela podia me odiar, destilar seu veneno em palavras afiadas como lâminas. Podia desejar minha morte, fantasiar com a vingança em seus sonhos febris. Mas nada disso importava, pois agora ela me pertencia, corpo e alma, um apêndice de minha própria existência.

Luiza sempre foi minha obsessão silenciosa, um desejo que se infiltrou em minha mente e coração como um vírus adormecido, crescendo em silêncio até atingir proporções pandêmicas. A cada dia que se esvaía, a ideia de tê-la mais próxima, mais minha, tornava-se mais dominante, mais sufocante, como um tumor maligno em estágio avançado. Por anos, a distância alimentou o desejo, transformando-o em uma fome insaciável, mas foi ao tê-la finalmente ao meu lado, no altar, o palco de nossa encenação, que o demônio dentro de mim, aquele que ardia por controle, despertou com uma fúria avassaladora, uma tempestade de paixão e possessividade que eu sequer imaginava existir em meu interior.

A aliança que adornava seu dedo, um grilhão de ouro, não era meramente um símbolo de posse, mas um lembrete constante do poder que agora exercia sobre ela, um cetro invisível que regia seus movimentos e pensamentos. Contudo, mesmo o matrimônio, que deveria ter sido o apogeu de minha ambição, não saciou a sede que me consumia.

Casada com o InimigoOnde histórias criam vida. Descubra agora