Capítulo 41

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O quarto estava mergulhado em um silêncio pesado, mas a luz pálida que filtrava pelas cortinas anunciava que o dia já havia começado a reivindicar seu espaço

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O quarto estava mergulhado em um silêncio pesado, mas a luz pálida que filtrava pelas cortinas anunciava que o dia já havia começado a reivindicar seu espaço. Eu não sabia exatamente que horas eram, mas o frio da madrugada estava sendo substituído por aquela claridade crua do amanhecer. Não me mexi. Não abri os olhos. Mantive meu corpo imóvel, forçando uma respiração lenta e rítmica, fingindo um estado de sono profundo que meu coração, acelerado, teimava em desmentir.

Eu o ouvi chegar.

O som das botas no carpete era abafado, mas a presença de Riccardo era impossível de ignorar; ele irradiava uma energia carregada, elétrica. Quando ele se movimentou pelo quarto, o rastro do seu perfume — aquele aroma que parecia ter se impregnado na minha própria pele na noite anterior — me atingiu. No entanto, desta vez, havia algo mais. Algo acre, ferroso e perturbador que cortava a fragrância habitual: cheiro de sangue. Muito sangue.

Meu instinto primitivo gritou para que eu abrisse os olhos, para que eu fugisse ou o confrontasse, mas eu me recusei. Eu não queria ver o que ele trazia nas mãos ou nas roupas. Eu não queria saber de quem era aquele rastro de morte.

De olhos fechados, ouvi o ruído metálico do chuveiro sendo ligado. A água correu por longos minutos, um som constante que parecia tentar lavar mais do que apenas a sujeira física. Quando o silêncio retornou, ouvi seus passos em direção ao closet e, pouco depois, o colchão cedeu ao meu lado.

O peso dele na cama era como uma âncora. Fiquei ali, suspensa naquela tensão insuportável. Eu não sabia se ele havia percebido que minha inconsciência era uma farsa, ou se ele simplesmente preferia o nosso silêncio compartilhado. Ele não tentou se aproximar, e eu fiz questão de não me mover um milímetro sequer. Éramos dois estranhos dividindo o mesmo lençol, separados por um oceano de segredos e o odor de violência que o banho não fora capaz de apagar totalmente.

Fiquei estática por longos minutos — talvez horas, o tempo se perde quando o medo é a única companhia. O coração martelava contra as costelas, uma batida frenética que contrastava com a respiração pesada e profunda de Riccardo ao meu lado. Eu não sabia se ele já havia se entregado ao sono ou se apenas vigiava o escuro, mas chegou um momento em que meu corpo não suportou mais o teatro. Eu precisava me mexer.

Tentei me levantar com uma lentidão milimétrica, segurando a respiração para não causar o menor ruído. No entanto, assim que tentei esticar o tronco, uma fisgada cruel atravessou meu abdômen. O gemido escapou por entre meus dentes antes que eu pudesse contê-lo, e desabei de volta contra o colchão, arquejando.

Minha pele, nos pontos onde o açoite havia me marcado na noite anterior, parecia estar em chamas. Com as mãos trêmulas, ergui a seda fina da camisola. O que vi foi de rasgar o coração: minha pele estava viva, pegajosa. Filetes finos de sangue haviam vazado durante a madrugada, e o tecido da camisola tinha grudado nas feridas, agindo como uma segunda pele que latejava a cada movimento.

Casada com o InimigoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora