ROMANCE DARK
Ela sonhava com a liberdade. Ele era a própria prisão.
Aos vinte anos, Luiza Montti acreditava que finalmente conquistaria a liberdade prometida. Mas o que deveria ser um recomeço transformou-se em um pesadelo sangrento - e ela foi lanç...
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O tempo havia se tornado uma massa disforme, impossível de medir. Eu não sabia se minutos ou horas haviam se esvaído enquanto eu permanecia ali, estática, sobre o assoalho frio da biblioteca. A nudez, antes um convite ou uma entrega, agora parecia apenas uma exposição crua, uma pele desprotegida contra o ar gelado que circulava entre as estantes.
Minhas costas estavam pressionadas contra a madeira rígida da prateleira, mas eu mal sentia as arestas dos livros me cutucando. Minhas pernas, recolhidas sem qualquer graça ou cuidado, eram apenas membros pesados que meu corpo desistira de carregar no exato milissegundo em que o estalo seco da porta ecoou, selando a saída de Riccardo.
Meus olhos estavam cravados na porta, ardendo pela falta de piscar. Eu a vigiava com uma intensidade febril, como se a força do meu olhar pudesse girar a maçaneta de volta, ou como se, ao encarar o vazio por tempo suficiente, eu pudesse rebobinar a realidade e apagar o rastro da sua partida.
Dentro de mim, não havia tempestade — apenas o vácuo. Era um silêncio branco, hipnótico, que me mantinha suspensa em um limbo onde o presente não conseguia avançar e o passado se recusava a soltar. Eu não pensava, não chorava, não reagia. Era apenas o eco do silêncio, preenchendo cada espaço que ele havia deixado vago.
Meu corpo, porém, não me concedia a mesma letargia misericordiosa da mente. Enquanto meus pensamentos flutuavam no vazio, minhas terminações nervosas despertavam em um protesto silencioso e cruel.
A pele não apenas doía; ela pulsava.
Era uma queimação persistente, um calor fantasmagórico que irradiava dos pontos exatos onde o couro dos açoites havia beijado a minha carne. Não era uma dor profunda, de osso quebrado, mas uma dor de superfície, elétrica, que transformava cada milímetro de pele em um campo minado. O simples ato de expandir os pulmões era um risco; o peito subia, a pele esticava, e o ardor se renovava.
Com os dedos trêmulos, levei a mão ao braço. O toque foi tão leve quanto o pouso de uma borboleta, mas o efeito foi devastador: um arrepio gélido percorreu minha espinha, colidindo com o fogo da superfície. Minha garganta se contraiu em um seco e doloroso ato de engolir. Aquilo não era apenas memória; era uma marca invisível, uma assinatura de fogo deixada por Riccardo que se recusava a esfriar.
Eu era um emaranhado de contradições. Meus músculos estavam rígidos, travados em uma armadura de autoproteção, esperando o próximo golpe que nunca vinha. Mas, por baixo dessa rigidez, eu tremia. Uma vibração fina, quase imperceptível, que nascia na base da coluna e morria nas pontas dos dedos.
Eu estava mergulhada em um redemoinho onde a vergonha e a raiva se chocavam contra uma incredulidade paralisante. Mas, no fundo desse abismo, havia algo mais sombrio, algo que eu tentava desesperadamente não nomear: a culpa. Ela se arrastava como uma névoa espessa, sufocando qualquer tentativa de me sentir apenas uma vítima.
Meu próprio corpo havia me traído.
A lembrança do ápice, do instante em que meu prazer explodiu contra os lábios de Riccardo, era agora um eco obsceno naquele silêncio. Naquele segundo de eclipse, a dor não fora um castigo, mas um combustível. Eu havia esquecido o monstro. Tinha me esquecido das correntes invisíveis que ele apertava em volta do meu pescoço. Pior que isso: eu o havia desejado enquanto ele me destruía.