ROMANCE DARK
Ela sonhava com a liberdade. Ele era a própria prisão.
Aos vinte anos, Luiza Montti acreditava que finalmente conquistaria a liberdade prometida. Mas o que deveria ser um recomeço transformou-se em um pesadelo sangrento - e ela foi lanç...
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Desde cedo, o dia prometia calor. O sol incidia com força contra as vidraças altas, inundando o mármore com um brilho quente e dourado, como se quisesse reviver até as sombras. Lá fora, o jardim explodia em cores, flores abertas como bocas sedentas por vida.
Mas dentro de mim, o inverno não cedia.
Por mais que o mundo insistisse em florescer, meu peito era terra estéril — nenhum raio de sol conseguia brotar sentimento ali. Há dias, o calor era só um disfarce: o corpo suava, mas a alma... congelava.
Às vezes, é nos dias mais quentes que o coração descobre o quanto está morto.
Já se passaram duas semanas desde que Riccardo me deixou sozinha nesta mansão — ou melhor, desde que me trancafiou dentro dela, como um adorno de luxo que se guarda para não ser tocado. Partiu rumo ao Brasil, sob o pretexto de resolver pendências da Famiglia, e desde então, sumiu. Nenhum bilhete. Nenhuma ligação. Nenhum sussurro.
Apenas o vácuo. E, ironicamente, foi nele que encontrei o único alívio possível.
A ausência dele não era liberdade, mas era o silêncio mais próximo de paz que já me foi permitido.
Passei esses dias confinada no quarto como quem se recolhe de um mundo contaminado. Um exílio autoimposto, onde o silêncio era menos cruel do que qualquer palavra que pudesse me alcançar. Não tive ânimo, nem curiosidade, nem forças. Os corredores frios daquela casa podiam muito bem ser corredores de um mausoléu — e eu, a estátua viva de um luto que ainda nem tinha nome.
Não quis saber o que se passava nas outras salas, nas bocas que murmuravam pelas bordas da casa. Meu mundo havia se encolhido até caber dentro dessas quatro paredes.
Quando descobri que Caterina era minha irmã, foi como rasgar uma cicatriz antiga para revelar uma ferida que nunca havia de fato se fechado. Um laço de sangue selado com dor, em vez de amor. Um alívio que vinha junto do medo. Porque, ao contrário dos outros, ela me amava.
Sim, eu senti felicidade. Uma felicidade tão rara que me pareceu quase indevida. Pela primeira vez, o sangue que corria em minhas veias não era apenas herança de dor e mentira — era também um fio de pertencimento, um laço que não me sufocava, mas me sustentava.
Caterina era minha irmã. E me amou sem saber. Amou com uma pureza feroz, com uma lealdade que parecia ter nascido antes mesmo do nosso encontro, mesmo em meio a tantas mentiras.
Era um amor que me curava e, ao mesmo tempo, me expunha.
Porque o que cura, também revela.
E ao ser amada por alguém que dividia meu sangue, percebi o quanto fui traída por todos os outros que também o carregavam. Os mesmos que usaram nosso vínculo como algema, como sentença.
Então, aquela felicidade se transformou.
Virou medo.
Medo de perder. Medo de ver esse único afeto verdadeiro se tornar mais uma ferida.