Capítulo 29

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A madrugada já se dissipava no horizonte quando deixamos o salão, o céu adquirindo aquela tonalidade pálida e quase melancólica que precede o amanhecer

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A madrugada já se dissipava no horizonte quando deixamos o salão, o céu adquirindo aquela tonalidade pálida e quase melancólica que precede o amanhecer. O ar ainda carregava os vestígios da festa—o cheiro do champagne derramado, a fumaça dos charutos, a fragrância intensa dos perfumes caros. Mas, para mim, aquilo já parecia distante. Como se aquela celebração tivesse acontecido em uma outra vida, uma que eu não reconhecia mais como minha.

Riccardo caminhava ao meu lado, sua postura impecável e sua presença imponente, mas seu olhar não se voltava a mim. Desde que saímos, ele não desgrudava do telefone, falando em um tom baixo e severo, sua voz ressoando com autoridade. Não me dirigiu sequer um olhar, como se minha existência fosse irrelevante agora que o casamento já havia sido selado. Como se o simples fato de eu estar ali já bastasse.

E talvez bastasse.

Fui guiada com discrição até um dos carros que nos aguardavam. Apenas então percebi o verdadeiro peso da presença de Riccardo. Sempre soube que ele não era um homem comum, mas estar ao lado dele revelava uma nova camada dessa realidade brutal. Havia seguranças por toda parte, espalhados estrategicamente, atentos a cada movimento. Era como se estivéssemos no centro de uma fortaleza invisível, protegidos por soldados sem rosto que, sem dúvida, estariam dispostos a matar e morrer por ele.

Entre essas figuras, um rosto se destacou.

Felippo.

Ele estava um pouco afastado, mas seus olhos encontraram os meus. Um olhar denso, carregado por algo que eu não soube definir completamente. Nosso último encontro ainda ecoava em minha mente, suas palavras enigmáticas se misturando às incertezas que me consumiam. Havia algo nele—um subtexto, uma promessa velada, um perigo silencioso que eu ainda não sabia se me causava temor ou uma estranha esperança.

A entoada foi breve. Intensa, mas breve.

Desviei o olhar antes que aquilo se tornasse algo mais do que deveria, antes que qualquer um percebesse.

Quando entrei no carro, senti um frio na boca do estômago. Meu destino era desconhecido, e Riccardo continuava alheio à minha presença. Ele se acomodou ao meu lado, o telefone ainda em mãos, os dedos deslizando sobre a tela antes de realizar uma ligação. A luz azulada do visor iluminava seu rosto, destacando seus traços firmes e inabaláveis.

A tensão se acumulava no espaço entre nós. O silêncio, quebrado apenas pelas palavras ríspidas que ele trocava com alguém do outro lado da linha, me deixava ainda mais tensa. O casamento havia terminado. A farsa social, a dança, os sorrisos forçados... tudo aquilo já era passado. Agora, restava apenas a realidade nua e crua: eu era esposa de Riccardo Ferraro.

Minha nova vida começava ali, naquele carro, naquela viagem rumo ao desconhecido.

Minutos depois, o céu começava a clarear timidamente no horizonte, tingindo a cidade de tons pálidos de azul e cinza, enquanto o veículo deslizava suavemente pelas ruas desertas. Riccardo estava ao meu lado, absorto em seu celular.

Casada com o InimigoOnde histórias criam vida. Descubra agora