Capitulo 35

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Eu matei uma pessoa

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Eu matei uma pessoa.

Ou melhor — outra pessoa.

A segunda vida se esvaiu pelas minhas mãos, mãos que agora repousam sobre minhas coxas como se carregassem o peso de um corpo inteiro. Olhei para elas, dedos ligeiramente entreabertos, imóveis... tão imóveis que pareciam feitas de mármore. Mas não havia nada de puro ou artístico nelas. Havia apenas a mancha invisível de algo que nunca sairia, nem com água, nem com o tempo, nem com perdão.

Não se mexiam. Como se já não fossem minhas.

Como se pertencessem a alguém que morreu junto com aquela vida que eu tirei.

Minha visão ardia. Um calor seco, abrasador, que subia pelos olhos mas não transbordava. Era como se até as lágrimas tivessem medo de mim agora. Como se até elas soubessem que não adiantaria chorar.

Piscar? Não consegui. Respirar? Também não. Meu peito subia e descia de forma irregular, como se a própria existência recusasse continuar. Meu corpo estava ali, mas eu não. Eu estava num lugar entre o antes e o depois, presa num espaço onde o tempo não passava. O mundo ao meu redor se dissolvia numa névoa grossa, espessa, que não era feita de fumaça — era feita de culpa.

Tudo doía, mas de um jeito que não sabia nomear.

Não era físico. Era um incômodo profundo, que crescia dentro de mim como uma raiz escura, cavando espaços que antes eu nem sabia que existiam. Um ruído surdo ecoava nos meus ouvidos — talvez o som do próprio silêncio me engolindo.

Quantas vezes alguém pode morrer por dentro até que não reste mais nada?

Meus ombros curvavam como se algo invisível os pressionasse para baixo. O ar ao meu redor parecia denso demais, como se respirar significasse aceitar o que eu fiz.

A verdade era uma só: algo dentro de mim se partiu, e eu não sabia se um dia voltaria a se recompor.

Por um instante, vi em minhas mãos um rastro rubro, viscoso, escorrendo entre os dedos. Um delírio, talvez. Ou apenas um reflexo daquilo que agora carrego dentro de mim — o sangue que não manchou apenas minha pele, mas se entranhou nos sulcos invisíveis da alma.

A diferença entre essas duas vidas que ceifei era cruelmente nítida. Um abismo que separava não os atos, mas os sentimentos.

Quando Riccardo pressionou meu dedo contra o gatilho e Juliane tombou diante dos meus olhos, algo em mim se rompeu de forma irreversível. Um estilhaço que perfurou de dentro para fora. A dor não foi instantânea, mas contínua — um corte que não cicatriza, que pulsa em silêncio mesmo nos momentos de aparente calma. O som do disparo nunca deixou minha mente. Tampouco o olhar dela antes de cair. Havia perguntas nele. Havia incredulidade, tristeza... e um tipo de abandono que nunca saberei descrever. Aquela morte me despedaçou em fragmentos pequenos demais para serem remendados. Foi um luto seco, sem consolo. Um castigo eterno que me foi imposto pela consciência.

Casada com o InimigoOnde histórias criam vida. Descubra agora