Capítulo 39

5.5K 162 146
                                        

As horas pareciam escorrer pelas paredes daquela casa como um veneno morno, lento, persistente

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

As horas pareciam escorrer pelas paredes daquela casa como um veneno morno, lento, persistente. A mansão dormia, mas eu não.
O silêncio era quase absoluto, interrompido apenas pelo som abafado de algum cano distante, o tique-taque insistente do relógio de parede e o roçar do tecido fino da minha camisola contra o couro do sofá.

Meus pés descalços estavam dobrados sob o corpo, aquecidos pelo tapete persa que cobria o chão da biblioteca. Uma das cortinas estava entreaberta, deixando entrar a luz fria da lua que recortava a silhueta dos livros nas estantes. Meus dedos apertavam com firmeza o exemplar que eu segurava — a capa vermelha e preta de A Vingança Veste Prada, de Lauren Weisberger, contrastava com o vermelho do tecido que me cobria.

Tomei um gole do uísque que, em seu tom âmbar, descansava na mesinha lateral de ébano. O líquido desceu rasgando a garganta como fogo líquido, mas, paradoxalmente, aqueceu o peito, uma ardência que fazia companhia à dor crua que me habitava todos os dias.

Folheei mais algumas páginas, os dedos roçando o papel, até que uma passagem específica me fisgou. Parecia um sussurro ácido ao pé do ouvido, uma revelação perturbadora. Li em voz alta, a voz embargada pela emoção, quase como se o próprio livro estivesse me falando de mim mesma, me desnudando:

"... sempre subestimam o que uma mulher ferida é capaz de fazer. Acham que vamos chorar, implorar ou desaparecer. Mas as mais perigosas são aquelas que se vestem de silêncio e elegância. São as que esperam. As que sabem que a vingança certa é a que é servida fria. E quando ela chega, ninguém a vê vindo."

Fechei os olhos por um segundo, e um arrepio gélido percorreu minha espinha, mais intenso que o frio da madrugada. Era como se aquelas palavras tivessem sido talhadas com a minha própria caligrafia, a tinta invisível delas manchando a página e minha alma. O sangue que escorria por baixo da superfície daquelas frases era o mesmo que circulava dentro de mim agora: denso, pulsante, contaminado por lembranças e mágoas que eu ainda não conseguia expressar.

Inclinei-me para trás, afundando a nuca no encosto macio do sofá de couro. O uísque ainda queimava no fundo da minha garganta, uma brasa líquida que, estranhamente, trazia uma sensação boa. Sentia-me viva, apesar de cada pedaço de mim estar marcado por cicatrizes invisíveis.

Outro gole.

Inclinei o corpo para frente, com o livro ainda aberto sobre as pernas cruzadas. Uma mecha solta do meu cabelo deslizou por cima da bochecha. Usei as pontas dos dedos para afastá-la, jogando-a para trás da orelha com descuido.

Eu podia ser tantas versões de mim mesma.

A que amava. A que sangrava. A que calava. A que tramava.

E era disso que Riccardo se esquecia — ou fingia não ver.

Ele me tratava como uma prisioneira de luxo. Um troféu trancado numa redoma de vidro. Mas dentro dessa redoma, eu estava afiando lentamente as lâminas invisíveis da minha revanche.

Casada com o InimigoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora