Capitulo 37

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A noite estava tão quieta que até o vento parecia ter esquecido como se mover

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A noite estava tão quieta que até o vento parecia ter esquecido como se mover. As cortinas pendiam imóveis, e o único som que preenchia o quarto era o do meu próprio respirar — lento, mas irregular. Havia um peso no ar, algo espesso, invisível, que pressionava meus pulmões de dentro para fora.

Deitada sobre os lençóis revoltos, senti o calor se espalhar sob minha pele como uma febre traiçoeira. Meu corpo inteiro parecia em alerta, mesmo sem razão aparente. Foi quando percebi: havia algo diferente.

Um cheiro.

Ele chegou como uma memória viva. Amadeirado, denso, com uma nota escura que parecia se enroscar no fundo da garganta. O cheiro dele. De Riccardo.

O coração bateu alto, rápido, como se tentasse me acordar. Mas eu não dormia. Ou... achava que não. Minhas pálpebras pesavam, mas meu corpo sabia: não estávamos mais sozinhos. O colchão afundou suavemente, como se alguém tivesse se sentado na beirada da cama. Prendi a respiração. Cada centímetro do meu corpo vibrou em antecipação. Tive medo de abrir os olhos e tornar real o que sentia. Mas também temi que, se não abrisse, perderia aquilo para sempre.

O silêncio se quebrou com o som abafado de passos contra o tapete. Um leve roçar. Depois, a sensação de proximidade — quente, elétrica, íntima demais.

Senti primeiro a respiração dele. Lenta, controlada, a centímetros da minha nuca. E então, o toque. Um deslizar quase imperceptível dos dedos sobre meu ombro nu, descendo pela clavícula até repousar no centro do meu peito. Não havia pressa, nem força. Apenas a certeza de quem conhece o caminho.

Arrepiei.

Quis me mover, dizer algo, protestar... mas não consegui. Meu corpo me traiu, permanecendo imóvel, entregue àquela presença que eu sabia que não deveria desejar.

A palma da mão dele desceu com lentidão pela lateral da minha cintura, traçando uma linha morna até encontrar a curva do meu quadril. Um suspiro escapou de mim antes que eu pudesse controlar. Meus dedos se fecharam no lençol, a pele queimando sob o toque que parecia queimar sem ferir.

— Você voltou... — pensei, em silêncio, como se fosse um segredo sagrado demais para ser dito em voz alta.

Ele se inclinou mais, e o calor do seu corpo envolveu o meu como um cobertor invisível. Eu sentia o contorno do seu tórax contra minhas costas, o ritmo calmo do seu peito subindo e descendo, como se fosse eu quem o estivesse fazendo respirar.

Mas então, como se alguém puxasse uma cortina de fumaça, tudo sumiu.

Abri os olhos de súbito, o coração disparado, o corpo ainda ardendo. Levei a mão ao peito, tentando conter a sensação sufocante de confusão que me tomava. Riccardo estava viajando. Longe. Era impossível que estivesse aqui.

Mas juro... juro que senti.

Devido as cortinas o quarto ainda estava mergulhado na penumbra, calado, imóvel. Nenhuma presença. Nenhuma sombra. Nenhuma voz, apenas o som dos pássaros do lado de fora anunciando que um novo dia já começou. Fechei os olhos novamente, buscando encontrar alguma razão naquele delírio. Um sonho, era só isso. Um maldito sonho.

Casada com o InimigoOnde histórias criam vida. Descubra agora