ROMANCE DARK
Ela sonhava com a liberdade. Ele era a própria prisão.
Aos vinte anos, Luiza Montti acreditava que finalmente conquistaria a liberdade prometida. Mas o que deveria ser um recomeço transformou-se em um pesadelo sangrento - e ela foi lanç...
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Se alguém me perguntasse, há pouco tempo, qual era a fórmula para se tornar um ser oco — uma casca desprovida de sentimentos, capaz de caminhar pela maldade com um prazer gélido e calculista —, eu não teria respostas. Eu teria recuado diante da pergunta com o pavor de quem foge de um abismo sem fundo. Mas agora? Agora, enquanto sinto o calor do sangue e do suor secando na minha pele, eu percebo que não fujo mais. Eu anseio por esse vácuo. Eu desejo que ele preencha cada fresta da minha alma até que não reste nada da menina que eu fui.
Friedrich Nietzsche escreveu uma vez: "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro. E se olhares durante muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti."
Eu anseio, com cada fibra do meu ser, por me tornar essa criatura vazia. Quero a capacidade de extinguir uma vida com a mesma naturalidade com que se apaga uma vela, sentindo o último suspiro de quem me feriu vibrar contra a palma da minha mão, sem que o mínimo rastro de remorso ouse manchar a minha consciência.
Maquiavel estava certo: "é muito mais seguro ser temido do que amado". O amor foi a corda com que eles me enforcaram, a fraqueza que usaram para me manter de joelhos. Para renascer das cinzas do que eu era, eu preciso primeiro permitir que tudo morra aqui dentro. Se o preço da minha justiça é a perda da minha alma, que o Diabo a leve agora, e que ele se sinta satisfeito com o que vai encontrar.
Não busco mais a luz; busco o poder que habita na ausência dela. Se a piedade é para os fracos, que o medo seja o meu legado. Eu estou pronta para ser a lâmina, o veneno e o abismo. Se eles queriam me destruir, acabaram por me libertar de tudo o que me tornava humana.
— Tem noção do que está pedindo, ninfeta? — a voz dele saiu rouca, pesada, como o estrépito de um trovão que anuncia uma tempestade devastadora.
A mão dele não era gentil, e eu não queria que fosse. Os dedos se enroscaram com uma força possessiva na raiz do meu cabelo, próximo à nuca, tracionando os fios com uma violência calculada que fez meu couro cabeludo arder e minha cabeça ser jogada para trás. Ele me obrigava a expor o pescoço, a curva da garganta, a minha total e absoluta vulnerabilidade diante da sua soberania.
Riccardo me olhava como se estivesse diante de um sacrifício pronto para ser consumido no altar. Seus olhos vasculhavam os meus, procurando qualquer traço de hesitação.
— Eu não vou parar — ele sibilou, os lábios a milímetros dos meus, mas sem me tocar. — Nem mesmo se você implorar. Nem mesmo se estiver à beira da morte. Se eu começar a te destruir, eu vou até o fim.
Eu desci o olhar de forma lenta, deliberada, quase espevitada, traçando o contorno da boca dele com uma fome que eu nem sabia que possuía. Cada curva dos lábios de Riccardo parecia um convite ao desastre, e o magnetismo do perigo era uma força gravitacional me puxando para o centro da sua tempestade.
Mas, quando recuperei o foco e cravei meus olhos nos dele, o que encontrei foi um abismo diferente.
Não havia o brilho febril da luxúria que tínhamos compartilhado minutos antes. Não havia hesitação, nem a sombra de uma dúvida. O que eu vi me paralisou: era uma frieza absoluta, um vácuo emocional tão vasto e desolador que fazia o ar ao redor congelar. Era o olhar de quem já tinha visto o fim do mundo e decidido que não se importava. Aquele gelo nos olhos dele agiu como um combustível para mim. Senti minha nuca esquentar, uma queimação que subia pela espinha e fazia meu sangue ferver em uma reação química violenta.