Capitulo 42

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Pisquei várias vezes, apertando as pálpebras com força, como se pudesse forçar minha visão a organizar o que via naquela fotografia

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Pisquei várias vezes, apertando as pálpebras com força, como se pudesse forçar minha visão a organizar o que via naquela fotografia. Minhas mãos tremiam tanto que o papel estalava entre meus dedos, uma vibração que parecia vir do fundo da minha alma. Minha respiração tornou-se curta, frenética; o ar entrava, mas não alimentava meus pulmões. O pânico estava ali, à espreita, pronto para me engolir, e eu nem sequer conseguia entender o porquê daquela imagem me atingir com a força de uma detonação.

Na foto, uma mulher jovem e de uma beleza dolorosa me encarava através do tempo. Ela transbordava uma serenidade que eu nunca conheci. Em seus braços, ela embalava um bebê de poucos meses — um pequeno embrulho de inocência. Mas o que fez meu coração errar a batida foi a figura ao lado dela. Sentada em um banquinho baixo, estava uma outra menininha, também de expressão doce. Ela repousava a cabeça no braço da mãe com uma confiança absoluta, enquanto sua mão pequena, com dedos minúsculos, acariciava com infinita delicadeza a cabecinha do bebê.

Era uma cena de amor puro. Uma cena de pertencimento.

Meus olhos estavam pregados no rosto da mulher, fundindo-se aos dela em um transe doentio. Eu não conseguia desviar. Havia algo na profundidade daquele olhar... uma familiaridade fantasmagórica que fazia cada terminação nervosa do meu corpo gritar em reconhecimento, embora minha mente estivesse em branco. Ela não era uma estranha. Meu sangue parecia reconhecê-la, mesmo que minha memória me traísse.

Meu olhar oscilava entre o bebê e a outra criança em um vaivém frenético, um bumerangue de incertezas que cortava minha sanidade. Quando o pensamento de que aquele bebê poderia ser eu me atravessou, meus lábios murcharam e um soluço sufocado, vindo das entranhas, rasgou minha garganta. Uma única lágrima pesada rolou e atingiu o papel antigo com um som que, no meu silêncio mental, pareceu uma explosão.

— Quem é você? — sussurrei, a voz quebrada, enquanto meus dedos trêmulos acariciavam o rosto da mulher na foto, como se tentasse sentir o calor de uma pele que nunca me tocou.

Um bilhão de perguntas colidiram na minha mente, cada uma mais dolorosa que a anterior. Se eu era aquele bebê, quem era a mulher que me segurava com tanta adoração? Por que ela não era Andrea? Ou eu poderia ser a outra criança? Por que a vida inteira me entregaram uma impostora e me mandaram chamá-la de mãe?

Minha mão subiu ao meu próprio rosto, tateando meus traços, comparando-os com os daquela mulher desconhecida. O mesmo arco das sobrancelhas, a mesma curvatura melancólica dos lábios... A dor da suposta descoberta foi tão aguda que senti uma náusea violenta. Eu era uma mentira ambulante. Cada "bom dia", cada bronca, cada momento com Andrea tinha sido uma encenação macabra arquitetada por Giuseppe.

E a outra menina...

Meus dedos tremeram tanto que a foto quase escapou. A menininha na imagem não estava apenas ali; ela protegia o bebê. Havia um vínculo, um fio invisível de irmandade que Giuseppe cortou com o mesmo facão com que retalhou minha alma.

Casada com o InimigoOnde histórias criam vida. Descubra agora