Marcas na neve 2

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Minha mãe provavelmente acordaria em algum momento, e eu precisava garantir que o fogo permanecesse aceso e que a casa tivesse algo minimamente razoável para o dia.

Arrastei uma cadeira até a mesa e comecei a fatiar as maçãs, devagar. O barulho da lâmina atravessando a polpa parecia gritar no meio daquele silêncio esquisito. Cada pedaço que caía no prato me levava de volta pro último dia em que cruzei o olhar com Simon.

Pensando nisso, o que ele queria de mim? Eu não sabia. Na verdade, nem sabia se eu queria saber. Soltei o ar devagar e deslizei a lâmina pela maçã de novo, dessa vez com pressa. Ainda tinha que sair, dar um jeito de passar no mercado, mas duvidava que fosse sobrar tempo. A sensação de estar presa em um ciclo sem fim me engoliu mais uma vez.

Aquele torpor foi se espalhando devagar, arrastando tudo pra um breu que abraçava e sufocava ao mesmo tempo porque precisava me concentrar em fazer algo para minha mãe.

A faca risca a maçã devagar, arrancando a casca em tiras fininhas que vão se empilhando ao lado do prato. O cheiro doce se espalhava no ar quente da cozinha.

Dei mais um corte, até meus olhos arderem, piscam lento. Eu não queria dormir, ainda havia o mercado, a lista esquecida na geladeira, minha mãe ainda precisava de mim, só que a única coisa que eu queria naquele momento era ceder ao desejo de largar a faca, encostar a cabeça nos braços e desaparecer por uns instantes. Só até o tornozelo parar de latejar, e até as preocupações tomarem um pouco menos de espaço na minha mente.

Enrolei o cobertor até onde deu, trazendo o tecido áspero contra a pele dos braços, e escondi os pés gelados lá no fundo, tentando achar um cantinho menos frio.

Do outro lado da vidraça, a neve seguia cobrindo tudo, um branco que fazia parecer que o tempo não passava. O céu seguia acinzentado, escondido atrás de nuvens grossas e o frio atravessava as paredes. O estômago roncou de leve. Ainda era cedo, o relógio parecia parado, quando o estômago fez barulho, tudo o que eu conseguia pensar era numa fatia de pão quente com manteiga derretendo. Que raiva.

Fiquei olhando fixamente para a porta, os olhos grudados ali mais tempo do que o necessário. Se eu fechasse os olhos e contasse até três, talvez ele estivesse parado na entrada. Alto, e o mesmo casaco pesado de sempre, fazendo uma piada sobre o frio e me dizendo que minhas botas estavam mais pra decoração do que pra proteção

Deixei o ar escapar aos poucos, tentando afastar a sensação sufocante que se apertava no peito, mas era em vão. Enchi os pulmões de ar e voltei a focar nas maçãs, cortando uma fatia atrás da outra. Pensar que meu pai podia atravessar aquela porta agora, parecia tão fora de lugar quanto um dia de sol queimando no coração do inverno..

E mesmo assim, eu continuava esperando..

O tornozelo não parava de latejar, o incômodo se espalhando por todo o corpo, me forçando a mudar de posição, de novo e de novo, na tentativa inútil de encontrar algum alívio. Nem devia estar tão exausta assim. Mas o dia tinha sido longo, e o dia anterior, e o outro antes desse..

A lâmina deslizou pela maçã com um movimento que pareceu mais instável do que eu esperava. A ponta roçou a pele, o que foi o suficiente para me fazer prender a respiração e piscar rapidamente pra afastar o susto. Era melhor terminar logo, antes que alguma merda acontecesse.

Cacete, quase arranco meu dedo fora! Mamãe teria me dado um cascudo se me visse tão distraída.

Os pensamentos começaram a sumir, um de cada vez, até tudo ficar embaçado. Não lembro do momento exato em que o sono venceu. Só sei que quando percebi, já tinha sido puxada pra escuridão.
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De repente, me vi acordando sem saber por quê. O coração batia tão forte que parecia que eu tinha sido arrancada de um sonho ruim

Darkness - Tenente RileyHistórias para pegar e não largar. Descubra agora