Entre nós 3

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Eu estava num sono tipo um abismo negro, profundo, sem sonhos. Por isso, quando a consciência começou a voltar, foi um processo lento e grudento.

Aconchego no cobertor pesado em cima de mim. Depois senti o cheiro abafado da cabana habitual. E uma luz chata. Não era a escuridão total do depósito, nem a penumbra leitosa do amanhecer anterior. Era uma claridade suave, filtrada através da lona, tingindo o espaço de um amarelado. Manhã já avançada.

Um espasmo percorreu meu corpo, um último tremor do susto do dia anterior, mas foi rápido. A exaustão ainda estava nos meus membros, e uma preguiça profunda que fazia cada movimento parecer uma tarefa muito cansativa, e exagerada demais. Virei de lado no colchão, saindo de um raio de luz que aquecia meu rosto. Meus pensamentos eram como melaços e super desconexos.

Tão quieto…

Normalmente, o acampamento já estaria em atividade. Mas hoje havia um silêncio incomum..

Esfreguei os olhos com os nós dos dedos, tentando afastar a névoa do sono. Estava sonhando?

Ainda estava meio dentro do sono, uma realidade que se mistura com os resquícios do inconsciente. Por um segundo absurdo, pensei que talvez tudo tivesse sido um pesadelo longo. Que eu iria abrir os olhos e estar no meu quarto antigo, com o som do trânsito lá fora.

Mas o cheiro de mofo me trouxe de volta. Sem gentileza.

Dei um suspiro longo sentando no colchão. Os ossos da coluna estalaram. Olhei em volta, para minha cabana ordenada e patética. As estrelas na parede pareciam desbotadas à luz do dia. Tinta barata, mesmo.

Estava me sentindo estranha. Não totalmente presente. Como se houvesse um vidro fino entre mim e o mundo.

Não ouvi nenhum som. Não foi um cheiro diferente. Foi uma presença.

Uma mudança na pressão do ar dentro do espaço pequeno e a sensação inconfundível de outro ser vivo compartilhando o mesmo ar parado.

Meu coração deu um solavanco preguiçoso, nem chegando a disparar totalmente. A adrenalina tentou subir, mas foi abafada pela camada grossa de torpor que ainda me envolvia. Virei a cabeça lentamente.

E era o querido.

Sentado no único caixote que servia de banco, no canto mais sombrio da cabana, longe da faixa de luz. Simon. Não sua silhueta imponente bloqueando a entrada, mas uma figura sentada imóvel, como se tivesse sido esculpida na penumbra. A máscara de caveira estava no lugar, tão expressionista e aterradora quanto sempre. Ele não estava olhando para mim. Estava com a cabeça levemente inclinada, e observando algo que segurava nas mãos enluvadas.

Era um dos meus cadernos. O de capa marrom onde eu desenhava mapas e rabiscava observações.

Ele estava folheando as páginas devagar com uma atenção meticulosa. A luva tática fazia um ruído suave de atrito contra o papel.

Todo o sangue pareceu drenar do meu rosto e correr para os pés, deixando fria e leve. A vergonha da noite passada voltou, agora aguda e vívida perfurando a névoa do meu sono. Ele não só tinha me visto no meu momento mais baixo, como agora invadia o que restava de privacidade? Meus pensamentos desorganizados, meus rabiscos tolos, meus mapas inúteis?

— Invadir cabanas e vasculhar os pertences das civis faz parte do protocolo, tenente? — Minha voz saiu rouca completamente embaralhada do sono, mas surpreendentemente estável.

Darkness - Tenente RileyHistórias para pegar e não largar. Descubra agora