Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
───────────────────── 🕷️ ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ
Elena
Não era esse o cheiro que eu associava ao verão. Antes, o verão era protetor solar vagabundo, pele salgada de maresia, risadas altas demais na praia. Agora, o som que dominava era o gemido baixo e constante dos mortos-vivos lá fora, batendo contra as cercas de arame farpado, dia e noite, sem descanso.
Essa base militar tinha se tornado um abrigo precário. As paredes de concreto estavam rachadas, manchadas de coisas que eu não queria identificar. A eletricidade vinha e ia, alimentada por um gerador que tossia como um doente terminal. As pessoas aqui eram sobreviventes, rostos marcados pelo cansaço e pelo medo. Alguns soldados, a maioria civis e famílias despedaçadas, indivíduos solitários como eu, todos tentando não virar a próxima refeição ambulante.
Eu era Elara. Tinha 19 anos e antes do mundo acabar, estava no último ano de faculdade de arte. Agora, minhas habilidades se resumiam a ser quieta, ser pequena e ser rápida. Bem, quase rápida o suficiente.
Tinha um plano. Tolo desesperado, mas era um plano. Um grupo de suprimentos tinha sido avistado a algumas quadras dali em uma farmácia aparentemente intocada. Medicamentos, comida enlatada, talvez até água limpa. Eu não era soldado, não tinha treinamento, mas tinha agilidade. E um medo profundo que me impulsionava. Ofereci-me para ir com o grupo de reconhecimento. Precisava me fazer útil, senão, em um lugar como aquele as pessoas se tornavam um fardo. E fardos eram descartados.
A missão foi um desastre desde o início. Os zumbis não estavam dispersos como esperávamos, eles estavam aglomerados, como se atraídos por um cheiro que não sentíamos. O sargento que liderava a operação deu a ordem de retirada, mas eu vi a porta da farmácia entreaberta. A tentação foi maior que o medo naquele instante. Desobedeci. Escorreguei pela sombra e então entrei.
Foi lá dentro no corredor escuro entre as prateleiras vazias que percebi meu erro. Não estava sozinha. O som de arrastar pés veio de trás do balcão. Muitos sons.
E a porta de saída era minha única rota de fuga, porém estava bloqueada por corpos em decomposição que se amontoavam do lado de fora, atraídos pelo meu movimento.
O pânico velho subiu pela minha garganta como bile. Eu estava encurralada. Foi então que ouvi os passos firmes e pesados se aproximando pela rua.
Não eram arrastados.
Explosões de rifle ecoaram, gemidos cessaram. Alguém estava limpando a entrada.
Por um segundo, um segundo apenas, o alívio foi tão doce que quase me fez desmaiar. Até eu entender quem era aquele alguém.
Ele surgiu na porta. Era um homem e pelo visto bem alto, largo de ombros, uma presença que preenchia todo o espaço e sugava o ar. Ele usava uma máscara craniana, uma caveira que escondia completamente seu rosto. O uniforme era tático, sujo de sangue preto e terra, e seus olhos, os únicos pontos vivos visíveis na máscara, eram de um azul glacial que parecia furar a penumbra e me fixar onde eu estava, paralisada.