Na sombra dele 3

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Bati o pé contra o assoalho do jipe, descontando a frustração no estalo seco. Não que eu tivesse escolha, afinal estávamos no meio de uma porra de missão, mas ainda assim, ele tinha que transformar cada detalhe em demonstração de poder. Não bastava me separar dos outros, não bastava dar ordens curtas e me arrancar da cena, tinha que me isolar, fazer lembrar que a última palavra sempre seria dele.

— Vai ficar com essa cara amarrada até o fim do trajeto? — O rouquidão dele rompeu o silêncio.

Virei lentamente o pescoço encontrando o reflexo nos vidros. Ele não me encarava diretamente, mas a forma como apertava com mais força o volante dizia o suficiente.

— Vai se incomodar com o som dela também? Ou dessa vez é só minha companhia que te fere o ego? — Dei de volta na lata.

Ele não reagiu de imediato, mas o ronco baixo que escapou debaixo da máscara me fez entender que tinha acertado na provocação.

Eu não fazia ideia do porquê ele tinha me colocado sozinha, apenas com ele. Não fazia sentido tático, nem sentido estratégico. Se acontecesse alguma merda no trajeto? Se nos separássemos da equipe por qualquer imprevisto? Eu, treinada ou não, não era estúpida a ponto de ignorar o risco de ser isolada. Numa missão como aquela, a diferença entre viver e virar estatística podia ser de poucos segundos.

Passei a língua pelos dentes inquieta. Porra, Price estava no outro veículo. Soap também. Até Gaz. Homens que confiavam na formação, que seguiam o plano à risca. E eu que havia passado semanas provando que merecia estar ali, sendo arrastada para um jogo que não era meu, um jogo que Ghost parecia travar comigo, e só comigo. Estúpido demais pra isso.

Desviei da estrada e voltei para ele, mesmo que fosse apenas o perfil mascarado. Ombros largos, rígidos, punho firme demais no volante. Era impossível arrancar qualquer coisa dali que não fosse controle. Mas a pergunta engasgou até não caber mais dentro de mim.

Cruzei os braços contra o colete, apertando a fivela com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram. Minha expressão fechada era o reflexo exato do que queimava dentro de mim. Queria abrir a boca, exigir explicações, mas sabia que se desse o primeiro passo nesse terreno ele iria me esmagar com meia dúzia de palavras cortantes. Então calei.

Senti o olhar dele medir de canto, mesmo sem virar a cabeça. 

O motor do jipe roncava constante. Eu não me mexia, não respirava fundo demais, não piscava mais do que o necessário. Apenas encarava o reflexo distorcido no vidro, firme na ideia de que não ia ser eu a ceder.

E foi ele quem quebrou o peso da quietude.

— Sabe por que está aqui, não sabe? — O tom não era uma pergunta real.

Mantive o olhar no vidro, sem dar o gosto de virar de imediato. De uma certa forma eu tinha deixado. Porque obedecer era sempre mais fácil do que abrir guerra no meio de uma missão.

— Não. E também não é como se você fosse me explicar — Disparo seca, sem esforço para suavizar a calma que não existia a este ponto.

— Você fala demais quando não deveria. Com ele, principalmente. — A pausa carregada pesou no ar. — E eu não tolero isso.

Soltei o ar pelo nariz, um gesto curto de incredulidade. Era ridículo. Ou talvez eu fosse a ridícula, achando que podia simplesmente conversar como se estivéssemos todos no mesmo nível.

— Tá de brincadeira? — Virei finalmente o rosto para ele, as sobrancelhas arqueadas em deboche. — Você me arranca da equipe inteira porque eu troquei meia dúzia de palavras com o Soap? Isso não é tática, Ghost.

Darkness - Tenente RileyHistórias para pegar e não largar. Descubra agora