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A tarde escorreu preguiçosa feito mel grosso num dia frio, a luz laranja que entrava pela janela foi sumindo devagar.
Passei um pano qualquer sobre a mesa pra ocupar as mãos e calar a mente que não parava de disparar perguntas que eu fingia não ouvir, ajeitei umas velas meio tortas, acendi duas, deixei o restante se perder no escuro. O resto do quarto ficou no escuro, só o som do vento lá fora e da cadeira rangendo de vez em quando.
Subi pro quarto quase arrastando os pés, as pernas pesadas como pedra molhada. Deitei na cama com as roupas ainda grudadas no corpo, puxei o cobertor até o queixo.
Esperando ele voltar.
Ou rezando pra que não voltasse nunca mais.
Por que eu não trancava tudo, fugia no meio da noite, sei lá… qualquer coisa? Podia pegar a primeira estrada de terra, aquela mais escondida atrás da plantação, enfiar o pé na lama, me perder no meio da neblina e nunca mais olhar pra trás..
Cansa se sentir um fantoche de uma história que você nem pediu pra viver. Fugir virou necessidade, não escolha, e talvez essa seja a única coisa que ainda tenho direito de fazer por mim mesma: sobreviver.
O problema é que esperar naquele contexto, não era exatamente uma escolha, nem sempre fugir é tão simples quanto parece dentro da própria cabeça, porque fugir exige coragem. Sou corajosa, sempre me falam que sou uma garota muito corajosa..
Talvez o problema nunca tenha sido só o lugar, só as pessoas. Não faço idéia quanto tempo fiquei enterrada naquele cobertor áspero, perdida entre duas dores que se mordiam. — a dor de ficar, sabendo que aquilo significava continuar sendo refém de uma vida que me esmagava, e a dor de ir, carregando nas costas o peso de quem se sente, mais uma vez, uma covarde por escolher a própria pele em vez de quem no fundo ainda depende de mim pra existir. A lembrança da mulher que me colocou no mundo pesa mais que qualquer plano inconsequente, seria me condenar pra sempre e levar uma culpa que nem a distância e o tempo seriam capazes de dissolver.
Isso significaria deixá-la pra trás sozinha, condenada a definhar dentro daquela casa maldita que já nos roubou quase tudo, exceto aquilo que teima em não morrer, essa esperança inútil de que talvez algo mude, que alguém salve ou algum milagre aconteça — o tipo de esperança que nunca pertenceu a mim, mas que insiste em me manter presa a essa vida que mais parece um castigo antigo.
Convenhamos que aquele homem que um dia respondeu por pai já deixou de existir há tanto tempo que em determinados dias até parecia ter sido fruto de algum pesadelo antigo, uma invenção podre da mente que insiste em criar fantasmas onde só restaram lembranças esfareladas, porque a verdade é que se algum dia realmente existiu, foi só pra ensinar que amor também mata, também quebra e deixa cicatrizes que nem o tempo conseguem apagar.
Fechar os olhos não trouxe alívio, só aumentou a sensação de que algo se movia, que algum par de olhos me atravessava por dentro.
O corpo reagia por puro instinto, as mãos tremendo enquanto empurravam aquele cobertor sujo pra longe, os pés tocando o chão gelado que parecia roubar qualquer resto de calor que ainda existisse, olhei rápido pelos cantos do quarto, cada sombra parecia maior enrijecendo os músculos até que fosse impossível sequer pensar em levantar, alimentando do próprio medo que escorria feito veneno pela espinha inteira. Por um segundo, jurei ouvir passos vindo do andar de baixo, daquele corredor estreito que levava direto pra sala.
Com um salto da cama minha mão foi direto pra alça da mochila jogada no canto agarrando o tecido já meio rasgado nas pontas, e eu nem sei o que tava fazendo direito. O estômago se revirava com tanta força que dava a impressão de que ia vomitar a própria alma, os olhos ardiam forçando a não piscar.
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Darkness - Tenente Riley
FanfictionMeu instinto é correr em direção ao perigo. Vou continuar observando e esperando. Até eu conseguir torná-la minha. E assim que ela for minha, nunca irei deixá-la ir. ﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌﹌ Copyright © [2022] por Nana. "Nenhuma parte desta obra pode se...
