Talvez seja comum ouvir histórias de criminosos e pessoas de hábitos tortuosos buscando conforto em igrejas e santuários numa frustrada tentativa de se redimirem e riscarem seus nomes da extensa lista dos que queimarão a eternidade no fogo do inferno. Um pouco de mal, ok, mas um pouco de bem para manter as coisas em um mínimo equilíbrio. Eu não buscava redenção. Sabia exatamente o que queria e como o faria. Se em um primeiro momento não, à tal altura do campeonato já estava ciente do que poderia ocorrer a mim; o que estava tudo bem, eu pagaria o preço. Porém, a despeito de toda essa reflexão, sentia-me bem por ter salvo o menino naquela tarde.
***
A chuva engrossava e até mesmo de meu escondido quarto era possível ouvir os pingos – mais e mais fortes – batendo no chão da rua. Meus pensamentos migraram para a cena de Edgar perdendo a cabeça em seu escritório. "O que aquele rapaz fez para ele?", pensava, deitado na cama. Não sabia se a reação para meus bilhetes – esperava que fosse, o que mais poderia abalá-lo daquela forma? – acontecera de forma rápida demais ou lenta demais, mas podia imaginar o que o desgraçado faria a seguir. E, depois daquela cena, eu mesmo também tinha meus próprios planos. Oh, sim, tinha sim.
Levantei-me, trajando apenas a roupa de baixo, e fui até a pia do banheiro, onde tomei um punhado de meus comprimidos. Olhei-me no espelho por um momento e, acredite ou não, o lagarto em minha medalha brilhava, como se sentisse que o destino estava do nosso lado.
Voltei para o quarto. Após a reação de Edgar, os planos para minha noite mudaram. Precisava refletir e descansar; novas ideias precisavam fluir. Aquela tarde abrira-me inúmeros possíveis caminhos. E a vingança precisava ser lenta. O desgraçado precisava sofrer!
Sofrer como eu sofri!
Abri o guarda-roupas e tirei dele um pequeno aparelho de som, ligando-o na tomada mais próxima. Há muito tempo não escutava uma boa música; e sabe-se que em todas as ocasiões isso faz bem. O som ligou; funcionava. Verifiquei o disco que estava dentro dele: Pink Floyd, The Dark Side of the Moon. Sorri, não me contendo. O destino mostrava-se gentil naquele instante; havia melhor trilha sonora para o momento? Coloquei o disco para tocar. É dito que este álbum possui uma sincronia perfeita com a película O Mágico de Oz de 1939. Em 2012, eu iniciava minha aventura em uma estrada muito mais sangrenta do que o famoso caminho pavimentado de tijolinhos amarelos. Se iria eu encontrar tantos desafios, eu não sabia; mas estaria preparado. Ele iria sofrer.
Não consegui tirar o rosto de Edgar de minha cabeça até a hora em que adormeci, o que coincidiu com o final do disco.
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Liberte-se
Misteri / ThrillerObra disponibilizada na íntegra para o Wattpad. Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/511410ED517738 Para adquirir o livro pela Amazon: http://www.amazon.com.br/Liberte-se-Matheus-Mundim-ebook/dp/B00ZPSLZHE/ Convite: O passado nos constrói e nos co...
