Capítulo IV - Charlie? / Parte 4: James Morris (Momentos Antes)

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"Por aqui, garoto", o doentio rapaz convidava-me, adentrando um dos muitos becos de um trecho da rua em que usuários de crack já não se proliferavam. O Beco dos Ratos devia seguir uma certa diplomacia: uma parte pra pedra, outra parte pra porra; o mais discreto para o segundo. Os arredores estavam desertos e os pequenos prédios do local pareciam há muito desalojados; provavelmente com alguma nota ou algum contato você conseguiria adentrar para algum tipo de cenário sinistro que o interior deles prometia.

Segui os passos de meu querido amigo, Alex, enojado pelo forte cheiro de urina do local. A visibilidade era péssima. Adentrei a penumbra com passos lentos, até sentir um puxão em minha camisa. Podia sentir a respiração do filho da puta em meu pescoço.

"Mostre-me do que é capaz, garoto... Vamos", o desgraçado acertou um tapa em meu rosto. "De joelhos..."

O fétido cheiro penetrava a pele; uma essência mais desagradável da que a seguiria – a da morte.

Dei dois passos para trás, notando-o desafivelar o cinto e descer as calças, postando seu membro duro para fora.

"Vamos, garoto! Meu amigo não vai se chupar sozinho!"

"Pervertido, desgraçado", pensava, à medida que me colocava de joelhos. Olhei para cima; Alex mantinha os olhos fechados, torcendo os lábios. Eu apenas poderia pensar o que ele imaginava. Você gosta de surpresas, Alex? Gosta?! Lentamente levei a mão para trás de minha cintura.

"Vamos, garoto! O que está esperando? Adoro o cheiro deste..." Seus olhos arregalaram-se. "AAAAAAAAAH!!", o desgraçado gritou. "O QUE VOCÊ FEZ?", disse, levando as mãos para baixo, notando um líquido quente jorrar de seus testículos.

"Desgraçado, pervertido, doentio... Você achou mesmo que eu o chuparia?", afastava-me da horrenda cena do homem tentando – em vão – desesperadamente tampar o profundo corte no meio de suas pernas. Meu canivete agora estava vermelho, tal como grande parte da calça, camisa e mãos do indivíduo, a quem não restava muito, a não ser aceitar seu destino.

Sentia-me deliciado observando-o tentar parar o sangramento de seu saco escrotal, tal como um homem tentaria recolocar suas entranhas.

"EU VOU TE MATAR! O QUE VOCÊ... MEU DEUS!!", continuava a gritar. Era difícil aceitar um desfecho como este de uma noite que parecia tão promissora. Mantive cerca de quatro passos de distância; o suficiente para não participar do espetáculo sanguíneo que se desenrolava – cenas que não se encontraria nem nos mais inaceitáveis tipos de pornografia. "EU JURO QUE...", as lágrimas enfim vieram. "O QUE VOCÊ FEZ, DESGRAÇADO?" Com as mãos trêmulas e retilíneas, aceitando que não conseguiria estancar o ferimento, as calças na altura dos tornozelos e sua agora vermelha cueca pendendo na canela, ele começou a andar em minha direção.

Afastei-me a curtos passos, não desviando os olhos. "Uma chupada? O que você estava pensando, filho da puta?". Saquei a arma de minha cintura, apontando-a em sua direção. Neste ponto, um ato como esse poderia ser considerado misericórdia. E o tempo passava; eu não poderia arriscar tudo por tornar aquele caso específico em algo pessoal.

"SEU DESGRAÇADO! O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?", a luz começava a se aproximar, forçando-me a agir. "VOCÊ SABE QUEM EU..." Calou-se, atônito. E uma flor lótus vermelha começou a florescer em seu peito.

Tornei a apertar o gatilho. Misericórdia!

O rapaz caiu de costas após um passo falho que deu para trás, atrapalhando-se em suas calças.

"Deus..." Tossiu. Respingos de sangue saíram de sua boca, descansando em seu rosto.

Exaltei-me com a resposta, pois Deus não ajudava nem os bons, não ajudara nem a ela ... Como poderia uma pessoa como ele clamar por Ele? "Deus? Sério? Tenho boas novas para você, Alex ou quem quer que seja: o inferno o aguarda! Acha que Deus daria a mínima para um maníaco pervertido como você? Me poupe!"

Talvez ele não tenha ouvido minhas palavras; caso seja do tipo que pousa a mão no ombro de outras pessoas dizendo que já é o suficiente, pode-se pensar assim.

Aproximei-me um pouco. O último tiro atingiu a região da próstata, disparado por nada mais, nada menos, que ódio. Minha vontade era de cuspir sobre o desgraçado, mas o receio de deixar rastros fora maior; o tiro tinha de ser suficiente.

Teria que agir de forma rápida, pois tiros também já foram um dia a marca daquele local e não demoraria muito para alguém ir se certificar do que estava acontecendo. Tirei um bilhete que escrevera ao longo do dia – o desfecho já era esperado, a forma, no entanto, admito ter sido um tanto quanto inusitada; deixei-me levar. As letras não eram vermelhas, mas, ao afastar-me e obter uma visão menos detalhada do local, aceitei o fato de que já havia sangue o suficiente. Não me imaginei o causador de algo como o que visualizara e temi meus próprios demônios por um momento; até que ponto um homem é capaz de chegar? Levei a mão à boca, segurando o vômito e acreditando mais do que nunca na frase "o ódio cega as pessoas".

***

Não muito distante do local, ainda um pouco enojado, acompanhei a chegada das viaturas.

Ver o inconfundível sedã negro de Edgar Visco cruzar e dobrar a esquina que o levaria ao terceiro corpo (este especial, como sabemos) e ter a certeza de que tudo ia conforme o previsto – excluindo um asqueroso detalhe na minha última atuação – trouxe-me um grande alívio, seguido de um não tão breve momento de êxtase. Que gloriosa sensação!

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