Apoiei meu copo sobre a mesa, pressionando as mãos contra o rosto; a cabeça girava, como tantas vezes antes, naquela hora da noite. Ó, Deus. Não havia muito para se fazer. Arruinado é a palavra que me definia então. Fracassado! Conferi os bolsos, rezando para haver alguns trocados, apenas o suficiente para prolongar a noite. "Por favor...", sussurrava, mas os pedidos foram em vão. Nenhum mísero tostão; os bolsos estavam tão vazios quanto meu copo. Tentei me levantar, segurando a cadeira de metal vermelho, desbotada pelo tempo. Talvez devesse mendigar alguma dose a mais. Para onde iria, afinal? Ainda podia ouvir as palavras de minha esposa – ou ex-esposa, como poderia ter certeza? "Vá embora daqui e não volte nunca mais, seu vagabundo, miserável, infeliz! Onde fui amarrar meu maldito burro, desgraçado! Vá cuidar de suas desgraçadas putas, seu velho safado!". Vagabundo miserável... O filete de sangue ocasionado pelo prato atirado por ela ainda estava em meu braço. Vagabundo miserável... Toda uma vida para resumir-me a isso? "Você colheu o que plantou, meu filho", diria minha querida mãezinha.
Cambaleei em direção à porta, esbarrando em alguém no caminho – o que não era algo perigoso; ninguém estava em uma situação muito diferente da minha naquele lugar. Desempregado, expulso de sua própria casa, bêbado e muito provavelmente divorciado. E sem nenhuma moeda no bolso. Sua vida é uma vitória, Arthur! Uma maldita vitória, vagabundo miserável. Uma maldita vitória... Talvez se eu estivesse jogando rosas naquele maldito rio como as outras pessoas ao invés de gastar todo meu tempo e dinheiro naqueles puteiros. Vagabundo miserável... Na rua, caminhava em direção a lugar nenhum, até lembrar-me que estava de carro. Ainda possuía o carro! Uma lata-velha vermelha toda arranhada que acordaria toda uma vizinhança só com o motor. Que orgulho! Uma conquista de uma vida toda! Mal conseguia colocar um pé na frente do outro e, ainda assim, eu me iria colocar atrás do volante. Um "vitorioso"!
Avistei o carro ao final da rua – pelo menos achava que fosse ele –, próximo de um beco e diversas latas de lixo, e, aos tropeços, encaminhei-me em sua direção. Quando finalmente consegui chegar junto à porta – e não me pergunte como; creio que foi a maior caminhada de minha vida – comecei a travar outra batalha contra minha calça em busca das chaves.
"Ei", uma voz falava, mas eu a ignorei. "Ei, filho-da-puta!" O dia já estava fodido o suficiente. Não precisaria de um moleque me atormentando para piorá-lo.
"Escute...", virei, falando. A palavra rastejou de minha boca, lenta, quase incompreensível. "Escute aqui, moleque..." O infeliz estava armado.
"O quê?! Fala aí!! Escuta o quê?", mirava em minha direção.
"Nada!", levantei os braços. "Por favor, leve o que você...", meu estômago já revirava desde a saída do bar. Haveria um melhor momento para vomitar?
O rapaz franziu o cenho.
"Velho asqueroso...", senti o cano da arma na minha cabeça abaixada. Um filete de baba corria de minha boca.
"Pode levar o carro", a segunda onda de vômito bateu em meus sapatos. "Só não atire, pelo amor de Deus!"
"Pode levar o carro", remedou-me de maneira irônica. Senti o cano da arma apertando em meu pescoço. Metal gelado, mortífero. "Iria dirigir nesse estado? Você é a escória da sociedade, meu velho."
"Não... Claro que não! Você... Você não entende!", a vontade de vomitar voltava.
"Ó, não, meu caro... Eu entendo." A pressão causada pela arma já não existia mais. Levantei os olhos para vê-lo. Ele sorria. "Como entendo."
O desgraçado apertou o gatilho.
Três disparos. Rosas vermelhas começaram a brotar no peito e abdômen de minha suada camisa branca. Dei dois passos, apertando a barriga, que doía como nunca. Sentia o suco gástrico do estômago correr em minha pele; sentia o sangue banhando-me, correndo por minha pele. O mundo se escurecia e eu caía para frente rumo à calçada dura da qual eu não levantaria nunca mais. A imagem de minha mulher veio à minha cabeça. Vagabundo miserável... Talvez fosse para o melhor.
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Liberte-se
Mystery / ThrillerObra disponibilizada na íntegra para o Wattpad. Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/511410ED517738 Para adquirir o livro pela Amazon: http://www.amazon.com.br/Liberte-se-Matheus-Mundim-ebook/dp/B00ZPSLZHE/ Convite: O passado nos constrói e nos co...
