Ao retornar os pés dentro da Rota 62, todos os olhares se voltaram para mim. Encaminhei-me para o banco onde estava sentado; meu copo ainda estava lá. Acenei para Cole e apontei em direção à bebida.
Suze se aproximou. "Eddie...".
"Não...", limitei-me a interrompê-la. "Apenas... Não."
Ela mordeu os lábios, franzindo o rosto, e saiu. Não era o momento de escândalos, e ela sabia seu lugar.
Cole encheu meu copo.
"Outra", disse, após postar o copo vazio no balão. O ato se repetiu; aquele não era momento para pequenos goles. "Outra."
"Eddie...", Cole olhou para mim.
"Outra..."
E assim ele o fez. Assim ele o fez repetidas vezes.
Em alguns momentos torna-se difícil estar do outro lado do balcão. Ter a total percepção de quem já entregou sua vida à bebida, mas o que ele podia fazer? Não podia negar o líquido a todo maldito homem que se mostrasse perdido.
A embriaguez tomava meu corpo. Talvez eu resolvesse toda aquela confusão no dia seguinte. Talvez... Mas e se não? Não, não! Eu não poderia me dar ao luxo de pensar assim. Deixei o copo no balcão, puxando o anel de noivado do meu bolso, tornando a olhá-lo pela enésima vez. Não me reconhecia mais. Linda não me reconhecia mais. Será que eu a perdera? "Não!", meu subconsciente insistia em acreditar. Lembrei-me de minha adolescência; possuía uma relação com uma garota, amava-a, mas senti que a estava perdendo... Dizia para mim que não, mas sentia fortemente que estava. Sentia-me da mesma forma, então. E no passado... Eu a perdi.
Tornei a levar o copo aos lábios, movimento que se repetiu muito naquela noite. Eu não era um imbecil, sabia que nada de bom adviria de tal situação. Porém, em certos momentos o homem não busca o bem. Em alguns momentos a vontade é de se afogar em qualquer veneno que o afugente da realidade.
***
Trôpego, saí do bar – a história se repetia novamente. Andei para um lado e parei. O carro estava do outro. Virei-me e fui em direção ao veículo, ziguezagueando. Em qualquer outra data da "nova fase" da minha vida eu não cogitaria dirigir em tal situação. Deus, não cogitaria estar nessa situação! Mas, neste dia nada importava. Nada mais importava.
Avistei meu velho sedã. A despeito de falhar em alguns passos, consegui manter-me em linha reta.
Ao adentrar o carro, bati forte sua porta. Passei a mão no rosto, balançando a cabeça, buscando recuperar o foco; coloquei a chave na ignição e a girei, acelerando. E lá vamos nós! O motor ruiu, fumaça saiu dos pneus, mas o sedã sequer saiu do lugar. Apagou.
"Mas que porra foi...". O freio de mão. Estava puxado.
E lá vamos nós! O carro saiu do lugar e os pneus cantavam.
Não sabia ao certo para onde seguia, mas seguia rápido (a história se repetia novamente). O ponteiro da velocidade não se aquietava. Dirigia por uma grande avenida quando comecei a me sentir mal. As luzes laranjas dos postes se tornavam fortes e embaçadas; sentia minhas mãos suadas e o coração acelerado: uma espécie de pânico me atacava. Meus pés, no entanto, pesavam – o ponteiro já encontrava dificuldades para se mover.
Foi quando fui surpreendido com a imagem de uma garota no meio da rua. A pele clara adquiriu um tom celestial com os faróis do carro banhando-a.
(A história repetia-se novamente.)
Freei. Tentei frear.
"PORRAAAAAAA!!"
Naquela velocidade era impossível, como por mim já era sabido. Joguei o volante para o lado e os pneus deixaram sua trilha junto ao asfalto. O carro deslizou por entre a menina que, como fumaça, desapareceu.
Levei as trêmulas mãos à cabeça, desesperado.
"Não, não, não... Pelo amor de Deus!", balbuciava.
Adquirindo a coragem necessária – muita – olhei pelo retrovisor. Déjá vu. Mas nada. Não havia nada; ninguém. Levantei-me – não usava cinto – e olhei pela janela. Novamente, ninguém. "Porra!", voltei ao banco esmurrando o volante; lágrimas corriam pelo meu rosto. Doía; doía muito as imagens que passavam por minha cabeça. "PORRA!". Estava sofrendo malditas alucinações.
Tornei a ligar o carro e saí, devagar.
Tanta coisa emergia dos lugares mais fundos da minha mente... Era difícil segurar as lágrimas.
Demônios do passado...
O susto fizera com que recuperasse um pouco a sobriedade.
Duas quadras de minha casa, olhei para baixo e meu celular próximo ao banco. Estava ele lá a noite toda? Com o carro ainda em movimento, abaixei-me para pegá-lo, colocando-o no meio das minhas pernas. Voltando os olhos para pista, deparei-me com a mesma menina passando por cima de meu para-brisas, pintando-o com o próprio sangue.
Freei novamente.
Quando o carro parou, próximo ao meio-fio, saí, vomitando. Olhei para o vidro; nenhuma gota de sangue... Voltei os olhos para a rua; ninguém. Apenas a silenciosa e imaculada madrugada pairando sobre a desgraçada cidade de Circodema.
Escorei-me no carro, levando os joelhos ao queixo, desatando-me a chorar.
"Por quêeeeeeeeeeeeee?!!!!".
Tentei olhar para o lado, mas as lembranças não me permitiam; não havia coragem em mim para isso... Nunca houve. Machucava tanto.
Tanto.
"Por quê, meu Deus?", colei o rosto nos joelhos. "Por quê?!".
A cidade ouviu minhas lágrimas e a noite me acolheu após um momento. Dormi com a cabeça escorada na porta do meu velho carro.
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Liberte-se
Misteri / ThrillerObra disponibilizada na íntegra para o Wattpad. Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/511410ED517738 Para adquirir o livro pela Amazon: http://www.amazon.com.br/Liberte-se-Matheus-Mundim-ebook/dp/B00ZPSLZHE/ Convite: O passado nos constrói e nos co...
