LIBERTE-SE, EDGAR! LIBERTE-SE!
A arma repetia o frustrante barulho surdo. Continuava a apertar o maldito gatilho; formava-se uma roleta russa que não teria fim. Desejava apenas a morte, por Deus, apenas libertar-me daquele cenário. Sair daquela fissura que me levara para um lugar muito pior que o inferno.
Mas o seco som insistia. Nenhum disparo.
O sentimento que se apossava de mim à medida que pressionava o gatilho da arma, com os olhos vidrados no nada, esperando a doce solidão, perpassava a dor da morte. Eu havia perdido novamente. Não apenas um maldito jogo, não apenas a minha vida... Perdi Linda... Minha doce e amada Linda.
Abri a mão deixando a arma cair por entre meus dedos e tentei me levantar – quando caí de joelhos ao lado de minha amada, desejava a morte; quando me levantei, sentia-me morto. Já não havia alma, coração ou mente dentro de mim. Havia apenas ódio do mais puro tipo, o mesmo tipo de ódio que levou Lúcifer a criar o inferno para punir a humanidade por nada menos que toda a eternidade. Um ódio digno de passagens do Velho Testamento.
Com o corpo e os olhos sem vida, virei-me para meu carro, jurando que não fecharia meus olhos enquanto o desgraçado que a matara estivesse vivo. Matá-lo e ir ao encontro de Linda: os únicos objetivos de minha breve vida.
Parei após um par de passos, voltando os olhos ao corpo. As lágrimas continuavam a jorrar de meus olhos – um último ato humano.
Voltei ao meu caminho. Podia notar um tom avermelhado em tudo o que via.
Um de nós dois morreria aquela noite – provavelmente e preferivelmente ambos – e nada além disto seria aceitável.
Voltei ao meu carro. Minha visão tornara a esbarrar-se com o amassado ao lado direito dos faróis dianteiros. Minha cabeça doeu de uma forma tão intensa que em qualquer outro momento teria me feito desmaiar instantaneamente. Não fecharia os olhos! O passo falhou e tive que apoiar-me no capô do carro – a outra mão buscava a cabeça –, mas, por fim, consegui adentrar o veículo, fechando a porta em seguida.
Girei a chave do carro e o acelerei, novamente não sabendo para onde iria. O ponteiro da velocidade seguia – para este, também, não haveria volta. Estiquei a mão para o banco ao lado, procurando minha arma, mas esta não se encontrava em seu lugar.
Morte.
"Olá, Edgar...", a voz veio do banco de trás.
Olhei para o retrovisor, sendo sugado para o passado com a imagem. O rosto repleto de medo e ódio de um rapaz que... Déjà vu.
E tudo se esclareceu. Estava escrito.
Um turbilhão de imagens atropelou minha já-não-sana mente. A bebida. O ponteiro do acelerador. O amassado no carro. A menina... Deus... Assassino. Covarde! Não éramos muito diferentes. E no fim do túnel de lembranças estava o rosto do mesmo rapaz, assustado e odioso, sendo observado por mim através do retrovisor à medida que eu fugia. Sangue manchava meu para-brisa. Sangue de uma inocente menina... Ligados por sangue...
Sempre soube.
"Você...", limitei-me a dizer e afundei o pé no acelerador.
O que segue é um epílogo, pois a esta altura eu sabia: por dentro, estávamos ambos mortos.
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Liberte-se
Mystery / ThrillerObra disponibilizada na íntegra para o Wattpad. Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/511410ED517738 Para adquirir o livro pela Amazon: http://www.amazon.com.br/Liberte-se-Matheus-Mundim-ebook/dp/B00ZPSLZHE/ Convite: O passado nos constrói e nos co...
