Capítulo VIII - Liberte-se / Parte 7: Edgar Visco

1.6K 147 1
                                        

"Eddie...", George disse, sentando-se à mesa. "O que se passa?"

"Temos de pegá-lo, George...", respondi, esfregando as mãos no rosto e me sentando no estofado.

"Sim, Edgar. Eu sei", ele respondeu com o desdém de quem responde o óbvio.

"Não, George... Temos de pegá-lo", enfatizei a última palavra, olhando-o fixamente.

Houve silêncio.

"Isto pode nos custar caro, Edgar", ele quebrou o gelo. "Especialmente para um cara como você. Ou se esqueceu das merdas nas quais se meteu? A merda que aconteceu nesse mesmo lugar...".

"Não há um dia que eu não me lembre", o interrompi. O que não era de todo verdade. "E não há um universo em que eu não tenha feito a mesma coisa". Esta afirmação, sim, era uma completa verdade.

"Sabe, Edgar... Lamentei sua saída desde o primeiro momento. Você parece mais maduro agora, não consideraria..."

"Não!", o interrompi pela segunda vez. "Não posso! Entenda... Preciso apenas resolver este caso. Apenas este! Deus... Mais casos como este e isso me consumiria de uma forma que eu não conseguiria explicar."

Percebi com alguns dias que se voltasse a trabalhar naquele local perderia tudo o que realmente importava em minha vida. Tudo. Apenas aquele caso e apenas por um motivo que não poderia dizer para ninguém. Segredos foram feitos para serem guardados; aqueles que contam seus segredos não desejam que estes se mantenham como tal. George já sabia o que precisava saber. Esperava que pudesse compreender que eu não pertencia mais àquele lugar.

"Entendo", ele balançou a cabeça.

"Entende mesmo, George?". Olhava-o nos olhos. "Mesmo?"

"Provavelmente mais do que você imagina".

O que provavelmente era verdade.

Houve um segundo momento de silêncio em seu escritório.

"Alguma notícia do laboratório?". Desta vez, eu quebrei o gelo.

"Rachel está desde a madrugada lá, mas ainda não tivemos nenhuma notícia concreta".

"Nos resta aguardar, então..."

"Suponho que sim", sorriu por um momento. "Edgar, eu já te contei a história de como conheci Gisele?"

"Por que isso agora, George?". Se eu tivesse ouvido a história alguma vez, não me lembraria.

"Em momentos difíceis como este que passamos... Como o que eu passei... São essas coisas que nos fazem seguir em frente. Já se passaram tantos anos, mas não há nada que me alegre mais do que o sorriso daquela mulher."

Sorri. Entendia perfeitamente como ele se sentia. "Conte-me a história, então, George".

Detalhadamente, mantendo um sorriso sincero e o olhar nostálgico, o velho tenente contou toda a história de como conhecera sua amada Gisele. Como um clichê clássico de cinema – e de onde os clichês vêm? Em momentos de romance, a maioria dos casais sucumbe aos clichês; mulheres sempre adorarão flores, meu avô dizia – socorreu a linda moça em apuros de um ladrão qualquer que – felizmente! – roubara sua bolsa. Era sua segunda patrulha e os dois se apaixonaram instantaneamente.

"Ah, os velhos tempos!", George se alegrava.

Liberte-seHistórias para pegar e não largar. Descubra agora