Morena
pista já não era mais diversão, tava virando prisão.
O som continuava batendo, o povo dançando, mas eu? Tava sufocada. Com nojo daquela situação, com raiva dele, de mim, de tudo.
Nem avisei ninguém, só virei e saí andando da pista direto pra saída do baile. As luzes piscando atrás de mim, meu corpo ainda molhado da bebida da Rubi, e minha dignidade tentando se manter de pé.
Ouvi passos apressados atrás de mim, e antes mesmo de virar, já sabia quem era.
- Morena! - a voz dele soou firme, grave, como se ainda tivesse controle sobre mim.
Continuei andando.
Salto firme no chão, ombro erguido, sem nem olhar pra trás.
- Morena, porra. Pera aí. - ele segurou meu braço de leve, mas foi o suficiente pra me fazer girar no impulso.
- O que foi, R7?! Quer rir mais um pouco? Quer me ver passando mais vergonha?
- Tá falando merda, hein. Eu nem encostei naquela mina.
- Ah não? Só tava ali com ela sentada no teu colo, seminu, rebolando na tua cara, e tu... com aquele sorrisinho cínico quando ela me joga bebida? Tu acha isso o quê, piada?
Ele passou a mão no rosto, visivelmente irritado, mas tentando manter a calma.
- Tu sabe que é contigo que eu tô. Que a gente tá junto direto. Eu fui no baile pra curtir também, e ela colou. Eu nem...
- Nem o quê, R7? Tu não se afastou. Tu não tirou ela do colo. Tu ficou lá me encarando como se quisesse me provocar!
Ele deu dois passos pra perto, abaixou a voz, mais firme:
- Tu é minha, caralho. Tu sabe disso. Vamo pra casa, a gente conversa direito lá.
- Não. Hoje não. - falei, recuando.
Ele tentou se aproximar de novo, esticando a mão pra mim.
- Morena, entra na moto. Eu não vou deixar tu sair andando sozinha essa hora, tu é doida?
- Prefiro andar sozinha do que subir na tua moto com o cheiro daquela vagabunda ainda em ti.
A cara dele mudou. Ficou sério. Doeu nele. Eu vi.
Mas eu também tava doendo. E mais do que isso: tava me respeitando.
- Boa noite, R7. - virei de costas e segui rua abaixo, sem olhar pra trás.
O coração apertado, a raiva misturada com tristeza, mas com a certeza de que, pelo menos por hoje...
Quem dirigia minha vida era eu
tava subindo a viela da minha rua, o salto na mão, maquiagem borrada, cabeça cheia. O coração ainda batia acelerado por causa da treta com o R7. Eu só queria entrar, tomar um banho e esquecer daquele baile maldito.
Mas quando tava prestes a virar a esquina e colocar a chave no portão, senti um puxão forte no braço.
Antes que eu pudesse reagir, fui empurrada pra dentro de um beco escuro, daqueles que nem a lua se atreve a olhar.
- Fica quietinha, princesa. - sussurrou uma voz que eu conhecia bem demais.
Meu sangue gelou.
Caveira.
O desgraçado tava ali, todo disfarçado, capuz, cara semi-coberta, mas os olhos... eram os mesmos. Frios. Cruéis.
O tempo pareceu parar. Tentei gritar, mas ele foi mais rápido, tampando minha boca com força.
- Xiu. Vai gritar pra quê? Pra ninguém vir, como sempre? Tu sabe que aqui em cima, no escuro, tua voz morre no meio do caminho.
Tentei me soltar, empurrei ele, mas o peso dele me jogou no chão sujo do beco.
A dor nem doeu tanto quanto o medo que tomou conta de mim.
- Olha aqui, sua ingrata. - ele puxou o celular do bolso, desbloqueou a tela e jogou na minha cara.
Fotos. Minhas. Totalmente nua.
- Se tu não fizer o que eu mandar... essas belezinhas aqui vão parar em tudo quanto é canto. Instagram, grupos de zap, perfil fake... tua família, teus amigos, teus seguidores. Todo mundo vai ver tua raba pelada.
Minhas pernas tremeram.
- O que tu quer, Caveira? Por que tá fazendo isso comigo? Tu me largou! Me traiu! Me fez de lixo!
- E mesmo assim... tu ainda é minha. Sempre foi. Eu não gosto de dividir o que é meu. E tu, agora, tá se jogando no colo daquele tal de R7? Acha que isso vai ficar barato?
- Tu tá maluco... - sussurrei, chorando, tentando me arrastar pra longe dele.
- Eu só quero uma coisa, Morena: tu vai fazer o que eu mandar. Vai se afastar do R7. Vai parar de rebolar em baile. Vai sumir da vista dele. E, se eu quiser, tu volta a ser minha. Nem que seja por força.
Me deu um tapa leve no rosto, não de dor física, mas o suficiente pra me quebrar por dentro.
Depois, se levantou, ajeitou o moletom, e foi saindo do beco como se nada tivesse acontecido.
- Pensa direitinho, princesa... e lembra: uma foto vale mais que mil palavras,só mas uma coisa, amanhã passo no teu trabalho pra ti buscar esteja pronta.
Fiquei ali, caída, no chão frio, com as pernas bambas e a alma quebrada.
Não sabia se tremia de medo, de nojo, ou de ódio.
A única coisa que eu sabia...
É que agora, o perigo era real.
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
