Morena estava sentada no sofá da sala, com o cabelo preso de qualquer jeito, olheiras fundas e o olhar doce fixo no bebê que mamava tranquilo em seu colo. A casa estava silenciosa, só o som suave da televisão ligada no volume baixo e o barulhinho do bebê sugando o leite.
R7 entrou na sala com um copo de suco na mão, descalço, camisa regata, cabelo meio bagunçado. Ele parou, encostou na porta e ficou só observando. A cena era simples, mas pra ele, parecia sagrada.
- Caraca, olha esse moleque aí... já tá com a boca cheia, hein? - ele riu, sentando ao lado dela.
Morena sorriu, cansada mas feliz. Acariciava o cabelinho fino do filho, enquanto ajeitava a mantinha sobre ele.
- Ele mama o dia todo... e ainda chora querendo mais.
- Guloso que nem o pai. - R7 brincou, e ela deu um tapinha leve no braço dele.
Ele ficou ali alguns segundos em silêncio, depois soltou:
- Morena... quando é que a gente vai poder fazer aquele churrasco, hein? Quero apresentar o herdeiro pra geral... mostrar pra favela toda que o sucessor chegou.
Ela ergueu os olhos, meio rindo, meio assustada.
- R7, cê tá doido? O bebê ainda é muito pequeno... nem completou um mês.
- Mas, pô... só um churrasquinho, bem de leve... eu cuido de tudo. Ninguém vai chegar perto dele, juro. É só pra comemorar, tá ligado? Mostrar que minha família tá formada. - ele falou, com aquele brilho orgulhoso nos olhos.
Morena suspirou, olhando de novo pro bebê, que agora dormia, ainda com a boquinha entreaberta.
- Eu sei que a favela é sua, que tá tudo em paz... mas ainda assim... quero esperar mais um pouco. Ele é tão pequenininho... tão frágil... quero que ele fique mais esperto, mais forte.
- Tá certo, tá certo... - R7 assentiu, passando a mão na cabeça dela com carinho. - Mas quando for a hora, vai ser o maior evento da quebrada. O churrasco do herdeiro. Vai ter bandeira, música, fogos...
- Só não esquece que vai ter fralda e mamada no meio disso tudo.
- Pode crer. Vou botar até espaço baby no meio da laje. Vai ser churrasco com trocador.
Morena riu, balançando a cabeça. Depois encostou no ombro dele, o bebê ainda nos braços.
- Obrigada por tudo, R7... por tá aqui, por segurar minha mão, por não soltar nem quando eu quis desistir.
Ele beijou o topo da cabeça dela.
- Nunca que eu ia soltar. Você é minha mulher. E esse bebê é a prova disso. Minha família, meu tudo.
O silêncio voltou, suave, sereno. E naquela calma pós-tempestade, os dois sabiam: a nova fase da vida tinha começado - e eles estavam prontos pra ela, um passo de cada vez.
**\[Narração da Morena]**
Já tinha se passado uma semana desde o parto. O bebê agora já ficava mais tempo acordado, mexia as mãozinhas no ar e soltava uns barulhinhos engraçados enquanto mamava. Às vezes ele olhava direto pra mim, como se entendesse tudo - meu coração derretia cada vez mais.
A gente se mudou pra casa nova logo depois que saímos do hospital. A casa é linda, enorme, com paredes brancas, varanda com rede, jardim na frente e até um quartinho só de brinquedos que R7 mandou montar. Mas, pra ser sincera, ainda tô me acostumando. É tudo tão diferente da minha realidade... parece que ainda não caiu a ficha.
Minha mãe tem sido um anjo. Tá aqui o tempo todo me ajudando com o bebê, dando banho, colocando pra arrotar, lavando roupinha, cuidando de mim quando eu tô cansada demais. Sem ela, eu não sei como ia conseguir.
Porque, verdade seja dita, o R7... ele tenta. Mas tá sempre no corre.
Entre a gente e o morro, eu sinto que ele vive dividido.
Ele acorda cedo, resolve mil problemas, volta correndo, toma banho, brinca cinco minutos com o bebê e já recebe ligação no meio do almoço. Às vezes nem dá tempo de me perguntar como eu tô. Outras vezes, ele até pergunta, mas o olho dele já tá longe, pensando em alguma treta da quebrada, em alguém que pediu ajuda, em alguma coisa que precisa resolver.
E aí, quando dá umas duas, três da manhã... lá vem ele.
**Cheio de mão boba.**
- *"Tá dormindo, rainha?"* - ele sussurra no escuro, deslizando a mão pela minha cintura.
Eu respiro fundo, viro devagar e encaro ele com cara de sono:
- *"Tô de resguardo ainda, R7..."*
Ele faz aquela carinha de pidão, beija meu pescoço, tenta me convencer com carinho.
Mas eu sei que ele só tá com saudade - e tá difícil segurar.
Não é só o corpo... é a gente. A conexão. A cama tá grande demais pra tanto silêncio.
E mesmo cansada, eu entendo.
A gente se ama. Mas esse começo é puxado.
Só que às vezes... fico me sentindo sozinha.
Fico olhando pra porta, esperando ele voltar. O bebê no colo, o peito doendo, a cabeça cheia.
Ele diz que faz tudo por nós, e eu acredito.
Mas eu também preciso dele aqui - inteiro.
Queria que ele percebesse isso sem eu ter que falar.
Que o nosso filho precisa do pai, sim... mas **eu** também preciso do meu parceiro.
Nem que seja só pra sentar do meu lado, pegar na minha mão e ficar em silêncio.
Sem morro, sem favela, sem telefone tocando.
Só a gente três.
Nossa família.
> Talvez, quando o puerpério acabar, não seja só o corpo que vai estar pronto. Talvez seja a nossa vida que vai começar a entrar no ritmo de novo - do nosso jeito, no nosso tempo.
Mas por enquanto...
A gente segue.
Com amor, cansaço, e aquele desejo guardado entre um choro de bebê e uma madrugada cheia de promessas.
Continua...
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Vivendo
RomansaEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
