vou pensar

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Morena

Fiquei ali na cozinha, escutando os passos dele subindo com calma.
Mesmo todo machucado, ele fazia questão de ir.
**De ver o filho.**
E isso... eu não posso negar - mexeu comigo.

Preparei mais um café, dessa vez mais forte, do jeito que ele gosta, e fiquei olhando pela janela, vendo o céu limpo lá fora. A favela já tava viva, gente na laje, criança gritando, o som de algum funk de fundo. E eu ali, com a cabeça a mil.

Não demorou muito e ouvi lá de cima a voz dele baixinha:

- **"Ô, meu príncipe... olha quem chegou. É o papai, molequinho."**

Fechei os olhos por um segundo, sentindo uma mistura de emoção e cansaço.
Aquele homem... ele me tira do sério, mas quando fala com o nosso filho, muda completamente. Fica leve, doce, quase bobo. E eu sei que esse lado é real. Não é cena.

Subi devagar, com a xícara na mão.
A porta do quarto tava entreaberta, e parei ali, só observando.

R7 tava ajoelhado do lado do berço, o braço bom segurando a borda, o outro enfaixado pendendo meio torto. O bebê olhava pra ele, meio sonolento ainda, mas atento.
E R7 falava baixo, com um sorrisinho nos lábios.

- **"Mamãe tá brava com o papai, sabia? Mas papai mereceu. Vacilei feio. Mas ó... eu vou consertar, tá? Por você. Por ela. Pela gente."**

Aquela cena me desmontou.
Senti o coração apertar, o nó na garganta.
Entrei no quarto sem dizer nada, coloquei o café na cômoda e fui até o berço.

Ele me olhou, surpreso.
- **"Nem ouvi você subindo."**

- **"Tava te escutando daqui."**

R7 ficou em silêncio por uns segundos.
Depois se levantou com esforço, o rosto sério.

- **"Morena... eu juro, eu vou mudar. Eu sei que agora não é mais só sobre nós dois. É ele também. E eu vou aprender a ser mais presente. Não só com presença... mas com atitude. Tu merece isso. E ele também."**

Fiquei olhando pra ele, analisando cada palavra.
E por mais que a raiva ainda estivesse ali, meio abafada, o que falou mais alto foi o jeito que ele olhava o nosso filho.

A verdade é que, por trás de toda aquela marra, do cargo no morro, das responsabilidades, o R7 tava tentando.
**Tentando ser pai. Tentando ser homem. Tentando ser meu.**

- **"Você tem uma chance, R7. Não desperdiça."** - falei, firme, mas sem grosseria.

Ele assentiu, com os olhos levemente marejados.

- **"Obrigado, meu amor... vou te provar. Você vai ver."**

Nos abraçamos ali mesmo. Sem pressa.
O bebê, entre a gente, virou o rostinho de lado, como se sentisse a paz voltando pra casa.

> E naquele momento, eu entendi:
> amar alguém de verdade não é nunca se machucar.
> É saber se curar **juntos**.
> E ensinar, a cada dia, como se merece permanecer.

R7

Dei um **beijo de língua** nela, daquele jeito que ela conhece - **gostoso, quente**, cheio de saudade.
Desde que o bebê nasceu, tudo mudou... mas o que eu sinto por essa mulher só cresceu.
E eu tô aqui, todo enfaixado, com esse braço preso que parece mais uma prisão.
**Não aguento mais essa faixa.**

Mas tenho que usar.
**Tenho que respeitar o tempo dela também.**
O **puerpério** é dela, é do corpo dela, da mente, do coração. E por mais que eu esteja **louco** pra ficar com minha mulher de novo do jeito que a gente era, eu vou esperar.
**O tempo dela é lei.**

Hoje o clima amanheceu diferente. Leve.
Falei pra ela que ia **dar um pulo no QG** rapidinho, ver umas paradas, mas que voltava logo pra gente almoçar **juntos**, só nós três.
E já avisei:

- **"Não faz comida hoje, meu amor. Hoje tu vai ser servida. Vamos almoçar fora, num restaurante top."**

A quebrada tá tranquila, tudo em ordem, sem estresse.
Deixei as coisas na mão do **Pimenta**, que tá na responsa. Confio nele.

Voltei direto pra casa.
Quando entrei, tive até que **segurar o fôlego**.

**Morena... tava uma visão.**

Vestido colado no corpo, cabelo solto, um perfume suave que tomava a casa inteira.
**Tava uma gostosa.**
Minha rainha. A mãe do meu filho.
E que mulher... parecia que quanto mais o tempo passa, mais linda ela fica.

O **herdeiro** tava no colo dela, com uma roupinha azul, uma touquinha que mal cobria os cabelos ralos. Um verdadeiro **príncipe**. Todo arrumadinho, pronto pra bater perna com os pais.

Fui direto pro banheiro, tomei um **banho rápido**, passei um desodorante, ajeitei a roupa no corpo com cuidado por causa do braço e voltei pra sala.
Cheguei nela com aquele olhar sacana, mas com respeito, e falei:

- **"Cê tá linda demais, Morena. Assim cê me mata."**

Ela riu, tímida, mas toda cheia.

- **"Escolhe o carro, vai... hoje quem manda é você."**

Ela pensou um pouco, depois me olhou com aquele sorrisinho de canto:

- **"A Lamborghini preta."**

**Fechou.**

Fomos pro carro com calma. Coloquei o bebê com todo cuidado na cadeirinha que já tava ali atrás, ajeitei os cintos, conferi duas vezes.
Ela entrou do meu lado, cruzou as pernas devagar, e eu juro...
**Dirigir assim é tortura.**

Mas é minha tortura favorita.

Liguei o motor, dei um beijo na mão dela e partimos...
**Pro asfalto.**

Família feita.
Favela respeita.
E a estrada?
A estrada é nossa.

Continua....

VivendoOnde histórias criam vida. Descubra agora