confusão

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Mas o pior é que o Caveira tava lá, me encarando de longe. Mano... o olhar daquele desgraçado é sinistro, parece que ele enxerga dentro da alma. Finge que tá na dele, mas sei que tá ligado em cada passo meu. Fico toda travada, coração acelerando na marra, como se eu tivesse feito algo errado — mesmo sem ter feito porra nenhuma.

Tentei disfarçar, segurei o copo firme, dei mais um gole só pra parecer normal. Mas já senti o gosto estranho na hora... um amarguinho no fundo, meio esquisito. Na hora pensei que podia ser só a bebida quente, sei lá, mas algo no meu instinto já gritou: tem coisa errada.

Olhei de canto, vi o Pimenta meio ressabiado, trocando ideia com um dos vapores e olhando de rabo de olho pra mim. Senti que ele sabia de algo. Senti no ar. Mas continuei quieta, fingindo que tava tudo suave.

A cabeça começou a pesar devagar, visão meio turva, tipo quando a gente vira drink de estômago vazio. A música ficou meio longe, como se o som estivesse afundando num poço.

Me apoiei numa parede ali perto, tentei respirar fundo, mas o chão parecia que queria me puxar.

– Ei, tu tá bem? — ouvi uma voz longe, talvez da Cláudia, talvez da Vanessa, já nem sei.

Queria responder, mas a boca parecia pregada. Senti a mão de alguém segurar meu braço, quente, firme demais. Abri os olhos, tentei focar..
Fiz mó esforço pra parecer firme, mesmo com a cabeça já dando uns giros sinistros.

— Tô de boa, rapa. Só bateu um enjoozinho bobo. Deve ter sido o drink misturado. — falei na marra, segurando o copo como se nada tivesse rolando.

A Cláudia me olhou torto, desconfiada, mas deixei passar. Virei pra ela com cara de quem não quer papo e soltei:

— Ei, me dá a chave da tua casa rapidinho? Quero só fazer um xixizinho, rapidão.

Ela, sem questionar muito, meteu a mão na bolsinha e me entregou.

— Tá trancado, mas a chave menor é do portão. Vai lá.

Assenti com a cabeça, fingindo que tava plena. Mas por dentro, mano... parecia que meu corpo não era mais meu. O bagulho tava estranho demais.

Desviei o caminho só um pouquinho e vi a Vanessa, aquela bixa sonsa, já toda jogada no colo do Caveira, rindo de qualquer bobagem, se derretendo. Tive que me segurar pra não vomitar ali mesmo.

Revirei os olhos, com nojo, dei aquele olhar de desprezo que corta mais que navalha.

— Se acha a rainha da boca, mas é só mais uma, né, querida? — murmurei baixinho pra mim mesma.

Enquanto isso, o R7 tava lá no canto, com uns caras da quebrada, trocando ideia séria sobre a favela. Vi de longe ele todo envolvido, nem percebeu que eu tava saindo de fininho. Melhor assim. Não queria ninguém vendo meu estado.

Desci as escadas meio trôpega, segurando no corrimão como se fosse a última esperança. As luzes já tavam me cegando, tudo piscava, tudo rodava. Senti o estômago embrulhar de novo.

Cheguei na casa da Cláudia, abri o portão com dificuldade, entrei cambaleando. Nem pensei mais em banheiro. Me joguei no sofá da sala como se fosse minha salvação.

Tudo girava, tudo ecoava.

Tentei puxar o ar, mas o peito pesava. A visão foi apagando devagarzinho, como se alguém tivesse abaixando o volume e a luz ao mesmo tempo.

Apaguei

Caveira

Fiquei lá no rolê, tranquilo… ou pelo menos parecendo.
A Vanessa, aquela que vive se jogando no meu colo, hoje teve utilidade.
Me aproveitei do fogo dela, dei uns amassos só pra manter o controle. Enquanto ela ria das minhas gracinhas, já fui direto:

— Faz um corre pra mim. Quero que tu siga a Morena, vê onde ela vai, e me manda tudo. Tudo mesmo, entendeu? Tô falando de foto… e não é selfie de rosto, não. Quero ela peladinha. Quero ver o que ainda é meu.

Ela me olhou meio chocada, mas bastou eu chegar mais perto, sussurrar no ouvido e lembrar quem manda aqui.

— Tu quer continuar andando com segurança nessa quebrada, né? Então me obedece.

Ela nem pestanejou. Levantou do meu colo e saiu na miúda, rebolando, achando que tava abafando.
Mal sabe ela que só serve pra isso: serviço sujo.

Fiquei ali, de boa, bebendo meu whisky, trocando ideia com os aliados, fingindo que nem sabia de nada.
Mas por dentro? O sangue fervendo.

R7 lá no canto, achando que é dono da porra toda, e a morena, minha ex, minha mulher, minha posse… tentando se afastar de mim como se fosse fácil. Ela pode até fingir que esqueceu, mas o corpo dela lembra de tudo.

O celular vibrou no bolso.
Primeira notificação.
"Cheguei aqui. Ela tá na casa da Cláudia. Sozinha."

Segundos depois…
Outra mensagem.

E aí vieram elas…
As fotos.

Primeira: ela deitada no sofá, meio largada, o vestido já subindo na perna.
Segunda: topinho de fora, o sutiã jogado no chão.
Terceira… ah, moleque. Aquela ali me fez rir de canto, morder o beiço.

— Que mulher gostosa do caralho.

Passei a língua nos lábios, segurei o celular com força.

— Tu continua sendo minha, morena. Mesmo que não queira. Mesmo que nem saiba.

O plano já tava em movimento. E ninguém — nem o R7, nem a Vanessa, nem ela mesma — ia escapar do que eu tinha armado.

Aqui é Caveira, parceiro.
E no meu jogo, ninguém joga de graça.

Claudia

Mano… a Morena me deixou com o coração na mão. Disse que ia ali rapidinho, fazer um xixi e já voltava.
Mas o tempo passou, o baile rolando solto… e nada dela.

Fiquei bolada, tá ligado? A Morena não é dessas de sumir assim. Peguei minha bolsinha e saí do rolê meio no sapatinho, cabeça já mil grau pensando besteira.

Cheguei na minha quebrada, e quando vi a porta da minha casa toda arreganhada, meu sangue gelou.

— Puta que pariu... — murmurei, já entrando com o coração acelerado, pronta pra qualquer parada.

Entrei devagar, rezando baixinho, achando que ia encontrar cena de filme de terror. Mas quando vi…

Lá tava ela.
Morena. Jogada no meu sofá, só de lingerie, toda largada.

— Caralho, mina… o que houve contigo? — falei baixinho, meio aliviada e meio assustada.

Dei uma geral na casa, cada cômodo, até no quintal. Nada. Nenhuma alma viva.
Provavelmente esqueceu de trancar a porta, no estado que tava.

Voltei pra sala, peguei uma manta, cobri ela com carinho, ajeitei a cabeça dela na almofada e sentei ali do lado.
Nem dormi direito. Fiquei na vigília, só observando, encucada com aquilo.

No dia seguinte, o sol mal tinha nascido e ela começou a se mexer.

— Clau...? — a voz saiu fraca, como se tivesse ressaca daquelas brabas. — Que que aconteceu? Que que eu tô fazendo aqui?

Olhei pra ela, sentando do meu lado ainda confusa, cabelo todo bagunçado, cara de quem tinha viajado pra outro planeta.

— Tu que me diz, neguinha. Tu pediu a chave pra mijar, desceu e nunca mais voltou. Te achei largadona aqui, dormindo quase pelada. Cê não lembra de nada?

Ela me olhou, o olhar perdido, tentando puxar da mente alguma coisa… mas nada.

— Não lembro nem de ter deitado aqui, Cláudia… juro. Isso é estranho pra caralho.

Na hora, um arrepio subiu pela minha espinha. Algo tava errado.

E eu?
Já tava decidida.
Alguém fez merda com a minha amiga. E eu vou descobrir quem foi.

VivendoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora