clima tenso

41 0 0
                                        

Morena

Chorei a madrugada inteira, com o travesseiro
encharcado e o corpo tremendo de medo.
Só de lembrar o Caveira no beco, o olhar dele, as ameaças… me dava enjoo.
Aquele desgraçado tem minhas fotos. Pode destruir minha vida.

Mas não tinha tempo pra surto. O mundo não para quando a gente quebra.
Me levantei no automático, lavei o rosto, me arrumei, e fui pro trampo no bar.

Cheguei fingindo força, como se nada tivesse acontecido. Cumprimentei a Cláudia com um sorriso forçado e fui direto limpar os balcões.

Tava no meio do corre, quando ouvi aquele assobio nojento.
Meu estômago virou.
Virei devagar e vi ele: Caveira.

De pé, do lado de fora, com o capacete na mão e aquele olhar que fazia meu sangue gelar.
Olhei pra Cláudia, meio perdida.

– Amiga, vou ali rapidinho.

– Morena, tu já saiu antes. Não pode ficar saindo toda hora, o patrão vai ficar na bronca. – ela disse, preocupada.

Antes que eu conseguisse responder, ouvi a voz dele de novo:

– Vamo logo, Morena! Tá me tirando?

O bar inteiro virou o pescoço. Baixei a cabeça, envergonhada, coração na boca.
Fui até ele, tentando manter a calma.

– Caveira, posso ir mais tarde? Tô no meio do expediente, se eu sair agora posso até perder meu trampo.

Ele bufou alto, revirando os olhos.

– Tô falando contigo, tu não escutou? Se eu mandei tu vir agora, é agora. Ou tu quer que eu suba aí dentro e te busque no braço?

Engoli seco.
Não tinha opção.
Olhei pra Cláudia, com os olhos marejados, e apenas sussurrei:

– Se o patrão perguntar… diz que eu volto logo.

E saí.
Sem forças pra resistir, sem ter pra onde correr.
Subi na moto dele com o coração despedaçado e a sensação de estar sendo engolida viva.

Porque quando o passado bate à porta… às vezes, ele vem armado.
subiu a ladeira do Alemão com o ronco do motor ecoando entre os becos. Meu coração batia descompassado, parecia que ia pular pela boca. O Caveira do meu lado, calado, com aquele olhar gelado e um cigarro aceso entre os dedos. Eu tentava controlar a respiração, mas a mão dele no meu joelho me fazia tremer mais do que o frio da noite.

— Chegamo — ele disse seco, jogando o cigarro pela janela antes de sair do carro. — Bora, princesa.

Princesa... ele falava como se fosse carinho, mas soava como sentença. Desci devagar, as pernas bambas. A quebrada tava cheia de vapor nas esquina, tudo armado, os olhares pesando em cima de mim. Me senti um peixe fora d’água.

— Que que cê vai fazer comigo, Caveira? — perguntei, tentando manter a postura, mas a voz saiu quase num sussurro.

Ele parou na porta da casa dele, virou devagar, e deu um sorrisinho torto. Aquele tipo de sorriso que arrepia a espinha.

— Cê vai aprender que agora cê é minha. Vai ficar aqui, quietinha, sem showzinho. Se tentar fugir, tu sabe... — ele puxou a camisa e mostrou a pistola na cintura. — Não esquece com quem tu tá lidando.

Tentei responder, mas uma tontura bateu forte. Tudo girou. Me apoiei na parede, sentindo a vista escurecer.

— Tá passando mal agora? Ah, se manca, garota — ele riu debochado. — Tá pensando que eu sou teu pai pra cuidar de você?

Me deixei cair no sofá da sala, a cabeça latejando, o estômago embrulhado. Ele me olhou de cima a baixo, com desprezo, como se eu fosse só mais um problema.

— Tu vai ficar aqui. Tranca essa porra dessa porta — gritou pra um dos vapores.

— Eu não vou ficar aqui não! — consegui falar com a pouca força que restava.

Foi aí que ele virou. Num estalo. E o tapa veio seco, sem aviso. A cara queimou, a alma doeu mais ainda.

— Vai sim... e cala essa boca antes que eu perca a paciência de vez.

Me largou ali, trancada, cercada de segurança pra tudo que é lado. A casa cheirava a cigarro e crime. Sentei no canto do sofá, o rosto ardendo, o coração em pedaços. Sozinha. Presa. Com medo

Dois dias. Já tinha perdido a noção do tempo aqui dentro dessa jaula de luxo suja e abafada. Dois dias sem ver a luz do sol, sem escutar uma voz que não fosse de algum vapor armado do lado de fora da casa. Presa. Como se fosse um bicho.

A comida deixavam na porta, mas nem descia direito. Enjoo constante, cabeça girando... corpo estranho. Eu nem sabia mais se era fome, fraqueza ou o desespero querendo me levar.

Na primeira madrugada, chorei até dormir. Na segunda, já nem chorei mais. Só fiquei encarando a parede, com ódio correndo nas veias.

Até que surtei.

Levantei, comecei a jogar tudo no chão. Peguei o controle e taquei na TV dele com força. A tela estourou na hora. Arranquei umas roupas do armário dele e rasguei tudo com a faca de cozinha. Era o mínimo pra descontar a raiva, a dor, a prisão.

— Maldito! Tu destruiu minha vida! — gritei pra mim mesma, com as mãos tremendo.

Tava sentada no sofá, encolhida, sem forças pra pensar em mais nada. Cabelo bagunçado, olhos inchados e um gosto amargo de desgosto na boca.

Foi quando ouvi.

A porta.

A chave girou e o estalo do trinco ecoou pela casa. Meu corpo gelou inteiro. Os passos dele entrando foram pesados, lentos... e perigosos.

— Que porra é essa aqui? — ele falou alto, já fechando a porta com força.

Ficou parado, olhando tudo em volta. TV quebrada. Roupa rasgada. Eu, destruída.

— Perdeu a noção, foi? — ele veio andando até mim.

— TU ME DEIXOU AQUI! COMO UM ANIMAL! — gritei de volta, levantando num impulso.

— Tu tá achando que tá onde, sua louca?! — ele gritou, e antes que eu terminasse de falar, ele já tava em cima de mim.

O tapa veio primeiro, depois o empurrão. A raiva dele era combustível pro meu ódio.

— EU TE ODEIO! — cuspi na cara dele, sem medo.

Ele se transformou. Os olhos dele ficaram vermelhos de raiva. Me segurou pelo braço com força, me sacudiu com tanta brutalidade que mal conseguia respirar.

— Tu vai me respeitar, sua vagabunda! — ele gritou no meu ouvido.

Tentei empurrar ele, gritar, correr. Mas ele me jogou com tudo no chão. Bati a cabeça na quina da mesinha de centro. Na hora, a visão ficou turva, os sons abafados...

Só consegui ver o rosto dele se afastando enquanto tudo escurecia.

Desmaiei.

VivendoOnde histórias criam vida. Descubra agora