Morena
Respirei fundo, dobrei o bilhete com cuidado e guardei no sutiã, como quem esconde munição. Me levantei devagar, e quando olhei em volta, percebi que alguns dos vapores mais antigos me observavam em silêncio. Esperando minha reação.
Eu não era mais só "a mulher do R7".
Agora eu era parte do comando.
E essa provocação... foi pra mim também.
Chamei o Cabelinho, o Léo e o Biguinha, que estavam por perto.
- **Reforça a segurança na base de cima e fecha as entradas do morro. Sem visita, sem recado, sem entrega. Quem não for nosso, não sobe.**
- **Certo, rainha.** - Léo respondeu firme.
- **E manda um dos pivete tirar foto desse bilhete e entregar pro R7 onde quer que ele esteja. Ele precisa ver isso. Agora.**
Eles saíram rápido, e eu fiquei ali. O sol já começava a ameaçar nascer atrás dos morros, tingindo o céu de laranja. O fim da festa tava decretado, mas o início da guerra... talvez tivesse começado.
Minha mãe apareceu na varanda, com uma manta nas mãos.
- **Você precisa descansar. Pensa no bebê.**
- **Eu sei, mãe. Mas antes preciso organizar umas coisas.**
Ela assentiu, mas me olhou com aquela tristeza silenciosa que só mãe tem.
Não era só medo por mim. Era por tudo. Pelo que podia vir.
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Entrei de volta na mansão. As luzes ainda piscavam fracas, os últimos convidados dormiam nos sofás, ou se despediam aos cochichos. Peguei meu celular e mandei mensagem pra três nomes que o R7 confiava:
> 📲 **Dona Marta** - matriarca da comunidade vizinha.
> 📲 **Zoinho** - dono de uma boca no outro lado da cidade.
> 📲 **Tigrão** - um dos ex-vapores do R7 que agora tava limpando nome e investindo em negócio.
Mandei a mesma coisa pra todos:
> "Recebemos ameaça direta. Precisamos conversar. Hoje ainda. Sigilo total."
Agora era articulação. Estratégia. Não dava pra agir só com raiva.
Mas dentro de mim... ela já tava acesa.
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Quase às seis, finalmente recebi uma mensagem do celular do R7:
> 📲 *"Tô com o pimenta. Tá vivo, mas fraco. A gente vai reagrupar. Tô voltando antes do meio-dia. Fica firme."*
Fechei os olhos, aliviada.
Mas também com o sangue fervendo.
Acordaram a leoa errada.
E dessa vez, eu não ia só cuidar das feridas depois.
Eu ia estar na linha de frente.
Porque ser rainha do morro... não é só usar coroa.
É saber quando mandar flores...
e quando mandar fogo.
O sol já queimava alto quando o carro preto parou em frente à mansão. O motor mal desligou e eu já tava na porta. R7 desceu com a camisa manchada de sangue - não dele, mas do pimenta - e o semblante fechado. Os olhos vermelhos, o maxilar travado, a fúria quieta que eu já conhecia bem. Era ele. Inteiro, mas diferente. Carregando o peso da noite.
Corri até ele e abracei forte. Ele me segurou por uns segundos, mas logo se afastou, olhando em volta como se já estivesse armando os próximos passos.
- **Vamos embora. Não quero você aqui mais nem um minuto.**
- **Pra onde a gente vai?**
- **Pra nossa casa nova. Tá pronta. Vai ser nosso refúgio agora.**
Ele chamou um dos vapores, que colocou nossas bolsas no carro. Eu entrei muda. A ficha ainda caindo. A tal casa nova era um projeto antigo, mas eu não sabia que ele já tinha terminado. Na real, nada mais parecia ter tempo de preparação. Tudo era guerra e urgência.
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No caminho, o silêncio cortava o ar.
- **Como o pimenta tá?** - perguntei.
- **Respirando. Só isso. Mas já tá sendo cuidado. E eu vou descobrir quem mandou fazer isso. Palavra.** - Ele disse com a voz baixa, mas firme, como quem já decidiu.
Eu respirei fundo. Tava na hora.
- **R7... a gente precisa conversar.**
Ele desviou os olhos da estrada e me olhou de lado, desconfiado.
- **Lá vem.**
- **Lá vem mesmo. Porque você precisa me ouvir agora. Eu sei que você quer vingança. Eu sei que quer responder no grito, na bala, no terror. Mas... agora não.**
Ele apertou mais forte o volante.
- **Vai me pedir pra deixar passar? Como se nada tivesse acontecido? Quase mataram um dos meus! Magoaram a gente na noite da nossa paz, Morena! Quer mesmo que eu engula isso?**
- **Não é engolir. É esperar. É respirar.**
- **Esperar o quê? Eles se armarem mais? Matar outro dos nossos?** - ele quase gritou.
- **Não, R7! Esperar nosso filho nascer. Esperar eu passar por isso com segurança. Esperar a gente respirar de verdade... sem correr risco de perder tudo.**
Ele deu uma freada mais brusca e parou o carro no acostamento. Virou o corpo pra mim, encarando. O olhar dele tremia entre raiva, medo e confusão.
- **Você ainda ama o Caveira? É por isso que não quer vingança agora?**
Aquilo me atingiu de surpresa. Pisou numa ferida que eu já tinha enterrado.
- **Você tá falando sério?**
- **Tô. Porque do jeito que você defende ele...**
- **R7, pelo amor de Deus.** - Minha voz embargou. - **Eu não amo o Caveira. Não tenho mais nada com ele há tempos. A única pessoa que eu amo nessa vida agora é você. E o bebê que tá crescendo dentro de mim.**
Ele não respondeu. Só baixou a cabeça, o peito subindo e descendo rápido.
- **Não quero que esse bebê nasça no meio do caos. Não quero criar nosso filho vendo pai correr atrás de morte. Quero criar nosso filho vendo você lutar pela vida, por um futuro. Por nós.**
Ele passou as mãos no rosto, como se quisesse arrancar os pensamentos ruins. Ficou assim um tempo. Até que disse, mais baixo:
- **Eu não sei como ser esse homem direito. Eu cresci na guerra, Morena. A paz sempre pareceu covardia pra mim.**
Toquei a mão dele, devagar.
- **Então aprende. Por mim. Pelo nosso filho. E por você mesmo.**
-
Meia hora depois, a gente chegou na casa nova.
Não era mansão, nem luxo... mas era lar.
Portão automático, jardim simples, parede clara e uma rede pendurada na varanda. A cozinha já cheirava a novo. Tudo no lugar. Tudo esperando a gente. Esperando paz.
R7 me ajudou a descer. Antes de entrarmos, ele segurou minha mão, olhou pra barriga e depois pra mim.
- **Eu vou tentar, Morena. Não prometo virar santo... mas vou tentar.**
Sorri fraco, já com os olhos cheios.
- **Tentar já é muito.**
E naquele momento, por mais que a guerra estivesse lá fora, aqui dentro...
a gente estava, pela primeira vez em muito tempo, **em casa.**
> **Continua?**
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
