R7 narrando
Eu já sabia que ela ia querer inventar alguma desculpa pra não ficar.
A morena é orgulhosa... e ferida. Dois ingredientes que deixam qualquer conversa parecendo campo minado.
- Fica aqui hoje... - falei, tentando manter a voz calma, sem aquela imponência que costumo usar com todo mundo. - Você não tá em condição de voltar pra sua casa.
Ela desviou o olhar, mexendo no prato.
- Eu durmo lá, R7... não precisa se preocupar.
Respirei fundo.
- Preciso sim. - Me aproximei, encostando na mesa, olhando direto pra ela. - Você não entende... eu não vou conseguir fechar o olho sabendo que você tá sozinha, fraca, com esse bebê pra cuidar.
Na hora que falei "bebê", vi ela engolir em seco. Era a primeira vez que eu tocava no assunto de forma tão direta desde que descobri.
- Eu sei cuidar de mim - ela respondeu, mas a voz falhou.
Me abaixei até ficar na altura dela.
- Eu sei que sabe. Mas... deixa eu cuidar de vocês dois, pelo menos essa noite.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, e só quando percebi que não ia responder, falei:
- Se quiser, amanhã você vai embora. Eu não vou segurar. Mas hoje... fica.
No fim, ela cedeu. Não foi um "tá bom" cheio de doçura, foi mais um "tanto faz" atravessado, mas eu já conhecia. Era a forma dela dizer que tava cansada de lutar contra.
Mais tarde, ela tava deitada na minha cama, virada pro lado da parede. Eu sentei na beira, sem saber se devia falar ou só deixar o silêncio tomar conta.
- Você já pensou... - comecei, hesitando - ... como vai ser com ele ou ela aqui?
Ela virou devagar, me olhando de um jeito que misturava medo e esperança.
- Todo dia - respondeu. - E... isso me dá medo.
- Eu também tenho medo - admiti. - Mas eu vou tá aqui. Não importa o que aconteça, eu vou tá.
Ela respirou fundo, como se aquela promessa fosse ao mesmo tempo um alívio e um peso.
- Só não me promete e depois some, R7.
Meu peito apertou.
- Eu não vou sumir, morena. Dessa vez... eu fico.
O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Ela encostou a cabeça no meu ombro e, pela primeira vez em muito tempo, eu senti que a gente tava no mesmo lado da guerra.
Morena
Acordei com o cheiro de café vindo da cozinha e uma luz tímida entrando pela cortina. Por um segundo, esqueci de todo o caos. Só senti o calor do cobertor, o colchão macio e o barulho distante do R7 mexendo nas coisas.
Me espreguicei devagar, tentando ignorar o fato de que eu tava na casa dele... de novo. Quando levantei, ele apareceu na porta do quarto com aquela cara séria de sempre.
- Tem visita pra você - disse, cruzando os braços. - GuiGui, Bruna e... Cláudia.
Eu arregalei os olhos.
- Aqui? Agora?
Ele deu um meio sorriso de canto.
- Eles tavam insistindo. Disseram que queriam te ver e saber como você tá. Eu deixei... mas é rapidinho.
Na sala, o GuiGui já tava todo espalhafatoso, sentado no sofá como se fosse dele.
- Meninaaa, olha só pra você, tá pálida igual parede de hospital! - falou, me puxando pra um abraço apertado. - Mas pelo menos tá viva, e com esse cabelo ainda maravilhoso.
A Bruna veio logo atrás, com aquele olhar preocupado de amiga que quer falar "eu te avisei", mas segura a língua.
- Tá se cuidando? - perguntou baixinho, segurando minhas mãos.
A Cláudia, como sempre, foi mais direta.
- Eu sabia que você tava mal. Se tivesse me escutado antes... - parou no meio da frase, olhando pro R7 de canto de olho. - Mas pelo menos ele fez a coisa certa dessa vez.
Eu respirei fundo, sentindo o clima pesar. O GuiGui, percebendo, quebrou a tensão:
- Gente, vamos parar de cara fechada, que eu não vim aqui pra assistir novela de mágoa. Trouxe pão de queijo e fofoca!
R7, encostado na parede, só observava. Eu percebia que ele tava se controlando pra não cortar a conversa.
No meio das risadas forçadas e perguntas sobre o bebê, eu sentia um aperto no peito. Por mais que fosse bom ver gente que se importava comigo, a mistura de mundos - meus amigos, minhas amigas, e o R7 ali - parecia um copo prestes a transbordar.
Continua...
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
