R7
fazia dois dias desde aquele baile doido... dois dias que eu não via a Morena, nem ouvia a voz dela, nem sentia aquele perfume doce que ela sempre deixava no ar. E o pior... ela sumiu, do nada.
Não atendeu minhas ligações, não respondeu mensagem, nem visualizou nada.
Fui até a casa dela ontem e hoje, mas parecia abandonada, janela fechada, silêncio total. Pedi pros moleque dar uma geral, perguntar no ponto, procurar no pagode, no trampo… mas ninguém viu nada.
E isso tava me consumindo.
Ela tava nos meus pensamentos toda hora, no meio da reunião com os caras da conexão, na laje, até no meio da favela com os radinho cantando, eu só pensava nela. Onde cê tá, Morena...?
Fui até o trampo dela hoje, cheguei lá com o coração pesado, mas tava tudo fechado, parecia que fazia dias que ninguém aparecia. Nessa hora o gelo bateu de vez.
— Mano, que merda aconteceu? — murmurei pra mim mesmo.
E o pior é que a última vez que a gente se viu… agente brigou feio.
Morena
Acordei meio zonza, com uma dorzinha chata na cabeça e os olhos ardendo. Quando abri os olhos direito, vi um rosto conhecido ali do meu lado.
Bruna.
A mulher do Bocão.
Nem lembrava quando tinha sido a última vez que vi ela, mas só de ver aquele jeitão protetor dela já me deu um alívio no peito.
— Caraca, Bru… é você? — falei com a voz rouca, sentindo a garganta seca.
— Sou eu, doida... ainda bem que tu acordou! — ela respondeu, ajeitando o lençol em cima de mim. — Tu tava bem mal, cheia de marca roxa, machucada...
Olhei em volta e vi que não tava mais na casa do Caveira. Ela me tirou de lá.
Na hora, as lágrimas desceram.
Desabei.
— Ele acabou comigo, Bruna... me bateu, me prendeu... — falei entre soluços.
Ela me abraçou forte, passou a mão no meu cabelo e me deixou desabafar tudinho. Disse que ia me ajudar, que não ia deixar eu voltar pra aquilo nunca mais. Cuido dos meus ferimentos, passou uma pomada no rosto e me deu um calmante natural, coisa dela.
Mas do nada, bateu um enjoo forte.
Forte mesmo.
Corri pro banheiro quase caindo. Vomitei tudo que nem lembrava de ter comido. Bruna veio atrás, segurando meu cabelo e me olhando com cara de susto.
— Ô Morena... quanto tempo tu tá assim?
— Desde que ele me trancou... só enjoo e tontura direto.
Ela me encarou séria.
— Tu tá grávida, fia?
Arregalei os olhos na hora.
— Quê? Não, não... quer dizer... se tiver... NÃO É DO CAVEIRA!
Ela me olhou surpresa.
— Então é de quem?!
Fiquei quieta por um segundo, respirei fundo.
— Se for... é do R7.
Ela quase engasgou com o ar.
— DO R7?! DO DONO DA ROCINHA?! TU TÁ MALUCA, MORENA?!
Começamos a rir. Rir de nervoso, de medo, de alívio… de tudo. Ela se jogou do meu lado no colchão, e a gente ficou ali, rindo e conversando como duas parceiras que passaram pelo inferno.
Mas no fundo…
meu coração ainda tava com ele. Com o R7.
Mesmo depois de tudo.
E agora… talvez com um pedacinho dele dentro de mim
Fiquei parada ali por uns segundos, olhando pro teto, sentindo o enjoo voltar junto com o desespero.
Grávida.
E se for mesmo…
É do R7.
Meu coração apertou na hora.
E se o Caveira descobre? Ele é louco, não tem freio, não pensa duas vezes antes de fazer alguma maldade.
Só de imaginar ele tentando me forçar a tirar esse bebê, meu estômago vira.
Me dá pavor.
E o R7... meu Deus, como será que ele reagiria? Será que ia gostar? Ia me apoiar? Ou ia surtar também?
— Cê tá pálida, Morena — Bruna falou, me tirando do meu transe.
Eu respirei fundo e tentei me recompor, mas era difícil manter a pose com tudo girando dentro de mim. O enjoo, o medo, a incerteza.
— Amiga... ele te trouxe pra cá pra eu cuidar de você. Disse que mais tarde volta pra te buscar — Bruna disse com a voz meio baixa, quase como se tivesse medo da minha reação.
Revirei os olhos na hora, o pânico subindo pela garganta.
— Diz pra ele que eu não tô bem, inventa alguma coisa, por favor. Eu não quero ir com ele, Bru... eu tô com medo!
— Tá, tá... eu vou tentar enrolar ele. Mas... cê tem algum plano ou vai ficar fugindo pra sempre? — ela perguntou, já ansiosa.
Dei um sorrisinho nervoso, meio torto.
— Tenho sim. Quando ele vier e tu disser que tô doente, tu enrola ele. Quando ele for embora... eu visto uma roupa do Bocão, algo largo, capuz... e saio fora daqui do Alemão.
Ela arregalou os olhos, como se tivesse ouvido eu falar que ia pular da ponte.
— Cê tá doida, Morena?! E se ele descobre? E se te pega no meio do caminho? Ele pode matar nóis duas!
— Eu sei, amiga... — falei, pegando na mão dela com força — mas se eu ficar, ele vai matar é meu filho. E isso eu não vou deixar, nem que eu morra tentando fugir. Meu filho não vai crescer nesse inferno!
Bruna respirou fundo, olhou pros lados como se já tivesse vigiada, e assentiu com a cabeça.
— Tá bom. Mas vai ter que ser agora ou nunca. Tu tem poucas horas, ele disse que voltava antes do anoitecer.
— Então me ajuda... vamo pegar uma calça larga, moletom com capuz... e me dá aquele tênis do Bocão. Tô pronta pra meter o pé daqui.
Meu coração tava acelerado, mas pela primeira vez em dias, eu me sentia viva.
Com medo? Muito.
Mas com coragem também.
Se Deus quiser... essa será minha última noite sendo refém do Caveira.
E se o R7 ainda sentir por mim metade do que eu sinto por ele...
Ele vai me achar. E vai lutar comigo.
CONTINUA...
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
