QG
Luz fria no teto. Cadeira de metal no centro. O carteiro, com as mãos amarradas nas costas e o rosto suado, tremia diante dos vapores posicionados nos cantos da sala como sombras.
A porta se abriu devagar. R7 entrou.
Olhar firme. Arma no coldre. Nenhuma palavra. Só o silêncio e a tensão que podia ser cortada com uma faca.
O carteiro engoliu seco, se encolhendo na cadeira.
— P-pelo amor de Deus… eu não sabia! — ele disparou, antes mesmo que R7 dissesse qualquer coisa. — Eu só entrego! Só entrego, juro!
R7 cruzou os braços, se aproximando devagar.
— Quem mandou o buquê? Fala. Agora.
— Foi… foi um cara estranho. Me parou na rua, jogou uns trocado… disse que era só entregar na casa da… da Morena. Eu nem sabia que era ela! Eu juro, mano! Eu não sabia que tinha alguma coisa no buquê. Eu só entrego, sou motoboy…
R7 encarou ele por longos segundos. Depois, fez um sinal com a mão e os vapores se afastaram. Era só ele e o carteiro agora.
— Esse cara te deu nome? Alguma coisa?
— Não… só me chamaram no rádio da central. Mas… mas… ele tinha uma caveira tatuada na mão. Uma caveira com uma lágrima no olho esquerdo. Nunca vou esquecer disso.
R7 franziu o cenho. Aquilo bastava. A assinatura estava ali.
Caveira.
Tinha mandado o recado sujo. E agora a resposta viria.
R7 saiu da sala sem dizer mais nada. O carteiro ficou chorando, pedindo perdão pra ninguém ouvir.
De volta à casa
R7 entrou em silêncio. Morena estava sentada na poltrona do quarto com o bebê dormindo no colo. O quarto iluminado apenas pela luz baixa do abajur.
— E aí? — ela perguntou, a voz ainda cansada, mas firme.
R7 se ajoelhou ao lado dela, colocando a mão na perna dela com cuidado.
— Foi ele. O Caveira. Botou grana na mão de um motoboy e mandou o buquê com a droga. O carteiro não sabia. Mas eu vi nos olhos dele: tá falando a verdade.
Morena assentiu, os olhos marejando de raiva contida.
— Ele tentou me matar, R7… e podia ter afetado nosso filho.
R7 apertou os olhos, cheio de fúria e dor.
— Eu preciso saber se você me autoriza… a agir. Se posso ir atrás dele. Fazer do jeito que eu sei fazer.
— E se você não voltar?
— Eu volto. — ele pegou a mão dela, encostando na boca. — Mas eu preciso ouvir de você. Eu não vou fazer isso sem a sua bênção.
Morena respirou fundo. Olhou pro filho dormindo. Depois olhou nos olhos dele.
— Vai, R7. Acaba com isso. Por nós.
Ele fechou os olhos, como se aquela permissão fosse tudo o que precisava. Se levantou, pegou a arma, prendeu na cintura e jogou a jaqueta por cima.
Foi até o bebê, beijou a testa dele. Depois se abaixou e deu um beijo longo em Morena.
— Eu te amo.
— Volta pra gente.
Ele assentiu, firme.
E saiu.
Agora, o campo de batalha estava traçado.
O QG se transformava.
Não era mais só um quartel.
Era um campo de interrogatório que agora dava lugar à guerra.
E o Caveira…
...já tava marcado.
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Vivendo
RomansaEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
