Festa

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Enquanto a música ainda tocava na mansão e a Morena tentava manter o sorriso no rosto, lá na **Vila Baixa**, o clima era completamente outro.

A base dos aliados do R7, localizada num beco fechado e vigiado 24 horas, estava em silêncio demais pra um sábado à noite. E isso já era sinal de alerta. Dois vapores estavam de plantão, mas sumiram das câmeras há mais de uma hora.

Quando o carro do R7 encostou no fim da ladeira, ele já estava com a Glock na cintura, o semblante fechado. Desceu sem falar nada, acompanhado de dois vapores de confiança — o **Zóio** e o **Biel**.

— **Cadê o Jackson? E o Galo Cego?** — ele perguntou, andando rápido em direção à entrada da base.

— **Sumiram, chefe. Última vez que falaram no rádio foi antes das 21h. Desde então, silêncio total.** — disse Zóio, segurando firme a arma.

R7 levantou a mão, mandando silêncio.
Ouviu um estalo… um passo… algo no chão lá dentro.

— **Tem alguém aqui.** — ele murmurou.
Com sinal, os três avançaram com cuidado pelas escadas que levavam até o miolo da base.

Lá dentro, o portão da entrada dos fundos estava **arrombado**. Gavetas reviradas, armas faltando. Na parede, uma pichação nova, feita às pressas:

> **"O morro vai sangrar. Caveira voltou."**

R7 cerrou os punhos. A raiva subindo quente na garganta.
Mas o pior ainda tava por vir.

Quando chegaram nos fundos do depósito, acharam Jackson, desacordado, com um corte na testa. Amarrado com as mãos pra trás e um bilhete preso com fita no peito:

> **“Isso é só o começo. Você me tirou tudo, agora eu tiro você aos poucos.”**
> **— Caveira.**

Biel tentou acordar o Jackson, que gemia fraco.

— **Chefe... ele invadiu com dois homens. Vieram com rosto coberto... sabiam onde tudo tava. Tavam procurando documentos... e algo teu.**

— **Meu quê?** — R7 perguntou, já com o sangue fervendo.

Jackson tossiu, com dificuldade:

— **Tavam atrás de fotos... da Morena... e do bebê.**

O mundo parou por um segundo.

R7 ficou estático.
Foi como se tudo à volta desaparecesse. Só o som da respiração pesada dele ecoava ali.

— **Ele mexeu?**
— **Não diretamente... mas se ele pegou as fotos… ele já sabe tudo.**

Silêncio.

Então R7 falou baixo, frio:

— **A guerra começou.**
— **Ele quer a minha família? Então agora ele vai conhecer quem eu sou de verdade.**

R7 saiu dali bufando de raiva, ligando pro segurança da mansão, pedindo reforço, ordem pra redobrar os homens, trancar o portão e vigiar cada segundo.

Caveira não queria só retomar o controle do morro.
Agora ele queria atingir R7 onde mais dói:
**na Morena. No filho. Na vida que ele finalmente começou a construir.**

E o R7 jurou…
**Ele não vai deixar isso barato.**

Fiquei ali parada por um tempo, olhando o portão da mansão se fechar atrás do carro do R7. A música ainda tocava, o povo ria, dançava, mas pra mim, tudo ficou embaçado. Parecia que o som tinha ficado longe, como se o coração tivesse virado surdo pra alegria.

Minha mãe veio até mim, me abraçou pelas costas.

— **Filha, tá tudo bem?** — a voz dela suave, mas preocupada.

Assenti com a cabeça, mesmo sabendo que não tava. Ela sabia. Mãe sente.

— **Vai dar tudo certo**, ela disse. **Esse homem te ama. Ele volta.**

Eu queria acreditar. E acreditava. Mas no morro, o amor não é suficiente pra garantir que alguém volte inteiro.

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Pouco tempo depois, a festa começou a dispersar. Alguns desciam o morro rindo, outros ficavam só por perto, cochichando. Os vapores que ficaram ali de vigia já não escondiam a tensão. Mexiam nos rádios, passavam mensagens curtas. Um deles, o Léo, chegou perto de mim:

— **Morena, se quiser ir embora, a gente te escolta.**

— **Não. Vou esperar aqui. Até ele voltar.**

Ele assentiu. Ninguém discutia comigo mais. Depois de tudo que rolou, sabiam que não era só mulher do R7. Eu era a “rainha” mesmo. A que cuida dos seus. A que aguenta a bronca.

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Já era quase 4h da manhã quando ouvi barulho de moto lá embaixo. Me levantei na hora. Mas não era o R7. Era o Cabelinho, um dos moleques da base.

Ele chegou suado, com os olhos esbugalhados, ofegante.

— **É ele. É o pimenta. Acharam ele.**

— **Vivo?** — perguntei, gelando.

O Cabelinho hesitou. Baixou a cabeça.

— **Mais ou menos. Tava num terreno na divisa com a Favela Nova. Espancado. Quase morto. Amarrado. Mandaram um recado.**

— **Que recado?**

Ele puxou um papel do bolso, sujo de sangue e terra. Me entregou.

> “Cada rei tem sua queda. Aproveita sua festa. Logo vai ser a última.”

Minhas mãos tremeram. Era isso. Tão tentando provocar. Declarar guerra. E fizeram de propósito: **na noite da nossa comemoração**.

Sentei de novo, respirei fundo, e pensei:
Agora não era só sobre o R7.
Era sobre **a nossa família**, o **nosso filho**, e o que a gente tava tentando construir.

E quem tentasse derrubar isso, ia descobrir que a “rainha do morro” também sabia guerrear.

Continua...

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