Morena💋
Assim que a porta bateu e as visitas foram embora, a sala ficou num silêncio estranho... daqueles que dá pra ouvir até o coração batendo.
Eu fiquei de pé no meio da sala, mexendo no cabelo, tentando disfarçar o clima pesado que a Cláudia tinha deixado. O R7, encostado na parede, não tirava os olhos de mim.
- Tá se sentindo melhor? - ele perguntou, com aquela voz grave que sempre mexeu comigo.
- Tô... - respondi seca, só pra não dar corda.
Ele deu uns passos até mim, devagar, como quem não quer assustar.
- Você sabe que eu só quero cuidar de você, né?
A gente ficou a um palmo de distância. O olhar dele desceu pros meus lábios, e eu senti o estômago embrulhar - mas não era de nervoso... era aquele friozinho que ele sempre causou.
O R7 inclinou o rosto, quase roçando no meu... e, por um segundo, eu pensei em deixar. Mas a cabeça gritou mais alto que o coração.
Empurrei ele de leve pelo peito.
- Não, R7... não agora.
Ele franziu a testa, mas não falou nada. Só ficou me olhando com aquele jeito de quem queria discutir, mas tava se segurando.
Cruzei os braços.
- Me leva pra casa.
- Você não vai pra casa - ele respondeu na lata, firme. - Tá fraca, e eu não confio em deixar você sozinha.
- Não tô perguntando se você confia, tô dizendo que quero ir - rebati, marrenta.
- Morena, para de teimosia. Fica aqui mais uma noite, pelo menos.
- Eu falei que quero ir pra casa, caralho. - Olhei bem nos olhos dele. - Ou você vai me levar ou eu vou sozinha.
Ele suspirou pesado, passando a mão no rosto, como se contasse até dez pra não explodir.
- Você me tira do sério, sabia?
- Sempre soube. - Dei um meio sorriso de deboche. - Agora pega a chave.
No fundo, eu sabia que ele ia ceder. Mas também sabia que isso não ia acabar ali... aquele quase-beijo tinha deixado a gente com uma bomba-relógio no peito.
Assim que ele pegou a chave e a gente entrou no carro, o silêncio ficou ainda mais pesado.
O R7 dirigia sério, o maxilar travado, como se estivesse segurando alguma pergunta há séculos.
Quando parou o carro na frente do meu prédio, ele ficou ali, com a mão no volante, me olhando de canto.
- Posso te perguntar uma coisa?
- Depende - respondi, já desconfiada.
- Você e o Caveira... qual é a real de vocês?
Eu travei na hora, o coração disparando.
- Não tem nada, R7.
- Não enrola. - Ele virou o corpo pra mim. - Eu
O R7 piscou devagar, como se processasse a informação.
- Casada?
- É... mas acabou. Acabou no dia que ele me bateu - respondi firme, mas sentindo a garganta arder. - Depois daquilo, eu nunca mais quis olhar na cara dele.
Ele cerrou os punhos no volante.
- E por que você não me contou isso antes?
Olhei pra ele, quase com raiva.
- Porque eu tinha medo, R7. Medo dele, medo de você se meter e acabar pior... medo de tudo.
O carro ficou em silêncio por alguns segundos, só o barulho da minha respiração pesada.
Ele engoliu seco e, de repente, soltou:
- Posso dormir aqui hoje?
- Pra quê? - perguntei desconfiada.
- Pra garantir que você e o bebê tão seguros.
Revirei os olhos, mas abri a porta.
- Tá, mas não enche o meu saco.
A gente subiu, e depois de eu me ajeitar no sofá, ele veio sem pedir licença, deitou a cabeça na minha barriga e ficou passando a mão de leve.
- E aí, moleque... ou moleca - ele falou, com a voz mais baixa e calma que eu já vi nele. - O pai tá aqui, viu? Não vai deixar nada de ruim acontece e com vocês
Ele continuou
- Tu vai crescer ligeiro, sabendo se virar... mas também vai aprender que tem gente que vale a pena confiar... - ele fez uma pausa, passando a mão devagar na minha barriga. - E tua mãe... tua mãe é marrenta, mas tem o coração mais bonito que eu já vi, pô.
Revirei os olhos, tentando disfarçar o nó na garganta.
- Para com essa viadagem, R7. Vai fazer o bebê nascer todo meloso.
Ele deu um sorrisinho de canto, sem nem tirar a cabeça dali.
- Melhor meloso que dura igual você.
- Engraçadinho. - Dei um tapa de leve no ombro dele. - Já que vai dormir aqui, vai tomar um banho, que tá com cheiro de rua.
- É ordem agora? - ele levantou o olhar, com aquele ar de deboche.
- É. - Cruzei os braços. - E se reclamar, vai pro chão.
Ele levantou devagar, como se não quisesse sair dali, e foi pro banheiro.
Enquanto eu ouvia o chuveiro cair, fiquei pensando no quanto era perigoso deixar ele chegar desse jeito... não só por causa do Caveira, mas porque, no fundo, eu sabia que meu coração ainda reconhecia aquele abraço.
Quando ele voltou, de camiseta e cabelo molhado, se jogou no sofá do meu lado, pegou minha mão e botou de novo na minha barriga.
- Hoje ninguém encosta em vocês, morena. - Falou firme, daquele jeito que quase me fez acreditar que ele podia mesmo segurar o mundo se quisesse.
CONTINUA...
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
