Morena...
Eu ouvi tudo.
Cada palavra que o R7 disse do lado de fora da porta na noite passada.
Ouvi o tom de arrependimento, a voz falhando, o pedido de perdão.
Mas fingi que não escutei.
**Não abri a porta.**
Não por orgulho - mas porque eu tava cansada.
Cansada de sempre entender, sempre esperar, sempre segurar a barra sozinha.
Naquela noite, meu único foco era o bebê. Só queria que ele continuasse dormindo, que o barulho não acordasse ele.
Então me virei pro lado, puxei a coberta e abracei meu filho, ignorando tudo.
**Hoje de manhã**, o sol entrou pela janela e me acordou devagar.
Olhei pro meu menino dormindo no berço, tão sereno, e me levantei.
Desci com passos lentos. O silêncio da casa era diferente, meio pesado.
Foi quando vi o R7 jogado no **sofá**, dormindo de qualquer jeito, o braço enfaixado e pendurado como se tivesse sido improvisado.
Por alguns segundos, fiquei só olhando.
O coração meio mole... mas a cabeça firme.
Fui pra cozinha, botei a água pra ferver, preparei o café, pão com manteiga e queijo.
Mas nem tive tempo de respirar.
**Logo senti as mãos dele me agarrando por trás.**
Virei brava, empurrei na hora:
- **"Me larga, R7!"**
Ele deu um passo pra trás, as mãos erguidas em rendição, o olhar cansado e cheio de culpa.
- **"Bom dia pra você também, meu amor... Eu quero te pedir desculpas por ter sumido."**
Virei de costas, servindo o café, mas com o sangue fervendo.
- **"R7, toma vergonha na cara, na moral."**
Ele tentou se aproximar de novo, a voz mais baixa:
- **"Morena, deixa eu explicar... presta atenção, por favor."**
Virei de frente pra ele, o olhar cortando como faca:
- **"Vou logo avisando, se tu tava com mulher, se pensou em me trair ou me traiu... olha, eu juro por Deus, eu pego meu filho, desço desse morro e você nunca mais me vê. Tô avisando. Sem choro. Sem desculpa. Eu sou mãe agora. Não sou palhaça."**
Ele arregalou os olhos, levantando a mão boa, o outro braço mal se mexia.
- **"Calma, Morena. Pelo amor de Deus, olha pra mim. Eu nunca faria isso contigo."**
- **"Então explica."**
- **"Eu bati o carro, voltando do QG. Um maluco furou o sinal. Não lembro nem direito do impacto. Só sei que acordei no postinho, com o Pimenta do lado. Quebrei o braço, fiquei grogue... passei a noite lá. Tentei ligar, mas meu celular tava com ele, descarregado. Só consegui te ligar hoje. Eu sei que parece desculpa, mas é verdade. Pergunta pro Pimenta. Pergunta pra minha mãe."**
Fiquei em silêncio por uns segundos, observando os olhos dele.
Não vi mentira ali.
Vi dor, frustração, arrependimento.
Mas ainda assim...
- **"Você devia ter deixado meu número com alguém. Você devia ter dado um jeito. A gente tem um filho agora, R7. Eu não sou mais só tua mulher, eu sou mãe do teu filho. Não dá mais pra sumir."**
Ele abaixou a cabeça, respirando fundo.
- **"Você tem razão. Eu falhei. E não vou repetir isso. Nunca mais. Me perdoa, Morena. Pelo nosso filho. Pela gente."**
Fiquei ali, parada. O café esfriando, o peito quente.
Não respondi.
Não ainda.
Mas, por dentro, eu sabia...
Essa dor dele não era fingida.
E apesar da minha raiva, uma parte de mim...
**ainda queria lutar por essa família.**
Só que agora, ele ia ter que provar com atitudes.
Porque o amor continua aqui...
Mas a paciência tem limite.
Morena
Depois de todo aquele climão, da explicação, do susto, da raiva... R7 ficou ali parado, me olhando, meio que tentando entender se já podia respirar aliviado ou se eu ainda ia despejar mais umas verdades.
Eu tava cansada. Mentalmente esgotada. Mas ainda firme.
Ele olhou pra mim com aquele jeitinho meio moleque e perguntou, com a voz mais mansa:
- **"E o nosso príncipe? Tá bem?"**
- **"Tá, sim. Tá lá em cima dormindo no berço."**
Ele soltou um suspiro aliviado e passou a mão na nuca, desviando o olhar por um instante.
- **"O quarto ainda tá trancado?"**
Dei um meio sorriso, tentando esconder que já tava amolecendo por dentro.
- **"Não... destranquei quando acordei."**
Na mesma hora, ele deu um passo em minha direção.
Devagar. Com aquele cuidado típico de quem sabe que pode levar outra patada se vacilar.
Tentou me abraçar, só que eu fiquei parada.
**Pensativa.**
Repassando tudo o que ele disse.
Tentando entender se meu coração tava pronta pra perdoar - ou se ainda precisava do meu tempo.
Foi aí que ele, com aquela cara de safado arrependido,
**roubou um selinho.**
Rápido. Leve. Do jeito que só ele faz.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ele sussurrou:
- **"Te amo, neguinha... fica assim comigo não. Olha pra mim, pô. Cê tá vendo meu estado. Consigo nem mexer o braço direito..."**
Olhei pra ele, tentando segurar o riso, mas não consegui.
Dei aquela revirada de olhos dramática e soltei:
- **"Vou pensar no seu caso."**
Ele abriu um sorrisão, daquele que ilumina o rosto todo, mesmo machucado.
Com o braço enfaixado e um brilho nos olhos, foi subindo devagar as escadas.
- **"Vou ver o meu herdeiro..."** - disse, com orgulho na voz.
E ali, sozinha na cozinha, com o cheiro do café no ar e o coração ainda meio bagunçado,
eu percebi que... talvez a vida a dois fosse isso mesmo:
**perdoar, amar, se irritar e continuar.**
Mas uma coisa eu sei:
Ele pode ter quebrado o braço...
> Mas quem manda no ritmo dessa casa agora, sou eu.
> Mãe, mulher e dona do meu coração - do jeitinho que ele aprendeu a respeitar.
Continua...
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
