Morena
Se passou uma semana. Uma semana arrastada, pesada, daquelas que parece que o tempo tá de mal com a gente. Eu não saía da cama, mal comia, só chorava escondido no travesseiro tentando abafar o som. Os enjoos então... cada dia pior, vinha de manhã, de tarde, às vezes até de madrugada. Tentava disfarçar, juro que tentava. Mas o Caveira não é burro. Me olhava de rabo de olho, como se tivesse desconfiando de alguma coisa.
Essa semana foi um inferno. Tristeza, medo, saudade… tudo junto. E no meio de tudo isso, o R7 não saía da minha cabeça nem por um segundo.
Aquele jeito dele bruto, mas que me fazia sentir segura.
A raiva que ele sentia de mim… doía. Doía como se alguém tivesse arrancando um pedaço de mim viva. Mas a real é que eu amo ele. Por mais errado que pareça, eu amo.
Acariciei minha barriga devagar. Tava estranha, sensível. Nem fiz teste ainda, mas no fundo... eu sei. Eu sinto.
Tem alguma coisa crescendo aqui dentro. Um pedacinho meu… e dele.
Foi aí que ouvi a porta abrir. Me virei rápido, meio assustada.
— Tá melhorzinha, princesinha? — Caveira entrou com aquele deboche nojento de sempre, encostando na porta com os braços cruzados.
Não respondi. Só fiquei ali, encarando ele com um nojo que eu nem tentava mais esconder.
— Vai ter pagode hoje, reunião das cabeças das facções… e tu vai comigo.
— Não quero ir — falei firme, mas com a voz fraca.
— Tu acha que tem escolha? — ele deu um sorriso torto, daquele que gela até a espinha. — Se arruma… e se arruma direito. Quero tu linda do meu lado, pra geral ver que é minha.
Ele bateu a porta e saiu antes que eu dissesse mais alguma coisa.
Engoli o choro. Meu estômago revirava, não sei se era enjoo ou nervoso. Talvez os dois.
Deitei de lado, encolhi as pernas, abracei meu travesseiro e comecei a rezar baixinho.
Por mim…
Pelo bebê…
E por um milagre.
Um milagre que me tirasse dali.
Ou que fizesse o R7 me ver de novo com os olhos de antes.
R7 Já faz uma semana... e eu ainda não consigo tirar aquela maldita da Morena da minha cabeça. Tento focar em outras fita, desenrolar meus corres, tocar a vida… mas é só fechar o olho que me vem a imagem dela, com aquele olhar perdido, assustada, quando o Caveira chegou no pagode.
Desde que a Cláudia veio aqui e jogou tudo na minha cara, parece que minha mente virou zona de guerra. As palavras dela tão martelando na minha cabeça desde então.
"Aquilo ali não era escolha... ela tava apavorada..."
E quanto mais eu penso, mais tudo faz sentido. O jeito que a Morena sumiu do nada, a confusão, os vacilos que ela deu e que agora eu começo a ver de outra forma...
Tenho quase certeza que doparam ela naquela porra daquele pagode. A real é que eu fui um otário. Eu devia ter ficado colado nela a noite toda. Se eu tivesse feito isso, talvez nada daquilo tinha acontecido. Talvez ela ainda tava aqui… comigo.
Mas agora é tarde, né? Ou talvez… ainda dê tempo de fazer alguma coisa.
Hoje vai ter reunião das facções, evento grande, cheio de figurão. Obrigação marcar presença. Não posso dar mole e faltar, senão acham que tô desviando do jogo. E o pior... é que sei que o Caveira vai tá lá. E tem algo me dizendo que ele não vai tá sozinho.
Com a noite caindo e o céu começando a escurecer devagar, fui pro quarto, abri o guarda-roupa e comecei a me ajeitar.
Botei a camisa preta de botão, aquela mais alinhada, que impõe presença. Corrente no pescoço, reluzindo na luz fraca do abajur. Calça escura, tênis limpo. Tudo no esquema. O relógio brilhou no meu pulso. Olhei meu reflexo no espelho e vi um cara que parece firme, mas por dentro tá todo bagunçado.
Passei a mão no rosto, respirei fundo.
— Hoje eu vou olhar nos olhos daquele desgraçado… — falei baixo, pra mim mesmo — e se ela estiver lá… eu vou saber toda a verdade.
Porque uma coisa é certa…
Essa história ainda não acabou.
E se ela precisar de mim...
Eu vou buscar até no inferno se for preciso
Morena
Assim que a gente pisou no pagode, geral virou o pescoço pra olhar. Parecia que o tempo tinha parado, os olhares vinham de cima a baixo, como se tivessem tentando adivinhar o que tava rolando entre eu e o Caveira. Ele, do meu lado, apertou forte meus dedos, estalando, como se quisesse marcar território. Fiz cara de nada, mas doeu, viu?
Tava com um vestido mais soltinho, nada grudado no corpo — a barriguinha já querendo dar as caras, então preferi esconder o jogo. Mesmo assim, não tinha como negar que eu tava bonita, e eu senti isso quando o R7 chegou com os vapores, todo no estilo, trajadão, perfume bom que até o vento respeitou.
Quando ele me viu… mano, os olhos dele vieram direto em mim. Aquela encarada que só ele sabe dar. Mas bastou ele notar que eu tava de mãos dadas com o Caveira, que o olhar virou desprezo puro. Senti um aperto no peito. Quase fui na direção dele, juro que ia... mas o Caveira puxou meu braço com força e soltou:
— Tá maluca? Tu não vai sair do meu lado, nem por um segundo.
Engoli seco. A tensão tava pesada.
Logo a Cláudia apareceu, com aquele jeitinho dela, já me abraçando apertado.
— Tá tudo bem, miga? — ela cochichou no meu ouvido, com preocupação no olhar.
Eu não podia abrir o jogo ali, com todo mundo em volta. Só balancei a cabeça e soltei um "tô sim", quase mudo.
Enquanto isso, o clima entre o R7 e o Caveira tava sinistro. Um olhando pro outro como se fossem se matar ali mesmo. Ninguém falava nada, mas dava pra sentir o ódio escorrendo pelo olhar dos dois.
E eu? Bem no meio desse furacão.
R7 não conseguia tirar os olhos dela. Por mais que tentasse se concentrar em outra coisa, era impossível. Morena estava deslumbrante, mesmo com o vestido mais soltinho — provavelmente tentando disfarçar algo. Ele notou... e também notou os pequenos hematomas em seu braço. O sangue dele ferveu na hora.
"Se o Caveira tiver encostado um dedo nela... juro por tudo que mato esse desgraçado com minhas próprias mãos", pensou, cerrando os punhos.
Antes que fizesse qualquer movimento, um dos líderes chamou os cabeças das facções para um canto reservado da quadra. R7 respirou fundo e foi, mas a mente continuava presa nela.
Enquanto isso, Cláudia e Morena ficaram um pouco mais afastadas, sentadas num cantinho mais tranquilo, longe do barulho da roda de samba. Conversaram baixinho por alguns minutos, até que Morena, com os olhos marejados e a voz falhando, resolveu contar:
— Amiga… eu tô grávida.
Cláudia arregalou os olhos, ficou em choque por um segundo — e então pulou da cadeira gritando:
— VOCÊ TÁ GRÁVIDA?!
O som atravessou o pagode como um trovão. Todo mundo olhou. Inclusive eles dois.
R7 e Caveira estavam a poucos metros dali. A frase bateu direto no peito dos dois. Se entreolharam no mesmo instante, com um misto de surpresa, confusão e tensão.
O silêncio pesou. Nenhum deles disse nada… mas os olhares diziam tudo.
O clima esquentou — e não era por causa da batucada.
Continua...
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
