**R7...
Acordei no susto. Madrugada. A casa silenciosa, só o barulho da geladeira lá da cozinha e o relógio de parede ticando. Me virei na cama e vi a Morena sentada, uma mão na barriga, outra apertando o lençol. O rosto dela tava pálido, suado.
- **Morena? O que foi?** - me aproximei rápido.
- **Acho que tá começando... ai!** - ela gemeu, o corpo se curvando.
Aí meu coração disparou. Levantei num pulo, tropecei no chinelo e chutei a quina da cama. Mas nem doeu. Tinha outra coisa dominando tudo: o medo.
- **Calma, calma... respira! Respira comigo! MÃE MARTA!!!** - gritei, abrindo a porta do quarto.
Minha sogra apareceu do corredor num instante, de camisola, com os olhos arregalados.
- **O que foi?! Tá nascendo?!**
- **Não sei, mas olha pra ela! Ela tá com dor!**
A Morena fez uma careta forte, suando, o corpo já todo encolhido. Foi aí que... *PLOC!*
A bolsa estourou. A água desceu ali mesmo, encharcando a cama e o chão.
- **É AGORA! MÃE, PEGA A BOLSA DO BEBÊ! MORENA, SEGURA MINHA MÃO!**
Aí foi só corre-corre. Eu meti o chinelo torto no pé, peguei o celular, a chave do carro, a bolsa dela, a do bebê, o carregador e até uma toalha de banho. Saímos quase voando pela porta.
Na garagem, o carro nem esquentou. Só abri, joguei tudo no banco de trás e ajudei a Morena a entrar com cuidado. Ela gritava baixo, mordendo os lábios, tentando ser forte.
Minha sogra foi atrás, entrando no banco de trás com a Bíblia na mão.
- **Vai, vai, pelo amor de Deus, menino, acelera esse carro!**
Eu liguei o motor e meti o pé. A rua ainda escura, tudo deserto, só o som da nossa respiração e o choro contido da Morena.
- **Tá doendo muito... R7...** - ela gemeu, apertando minha mão com força.
- **Eu tô aqui, meu amor. Eu tô aqui. Olha pra mim. Respira comigo.**
Eu tentava ser forte, mas por dentro eu tava **em pânico**.
Era o nosso filho vindo ao mundo. E ela ali, toda corajosa, aguentando uma dor que eu nunca vou entender.
Passei dois sinais vermelhos. Quase bati num caminhão parado. Mas segui.
A Morena gritava. Minha sogra chorava. E eu... eu só pensava:
> *"Chega no hospital, chega no hospital, chega no hospital..."*
A mão dela apertava a minha com tanta força que eu sentia meu braço formigar.
Mas eu não soltava. Nem se quebrasse meus dedos.
- **Você vai conseguir, Morena. Você é forte, você é minha rainha. Nosso filho vai chegar bem. Eu tô com você. Até o fim.**
Ela virou o rosto pra mim, as lágrimas escorrendo, misturadas com o suor.
- **R7... não deixa nada acontecer com ele...**
- **Nunca. Ele vai nascer. E vai nascer com o pai do lado.**
E naquela madrugada, entre dor, choro e promessas sussurradas dentro de um carro velho,
eu descobri o que era o verdadeiro medo -
e o verdadeiro amor.
(...)
Chegamos ao hospital em estado de choque, mas os enfermeiros já estavam prontos. Morena foi direto para a sala de parto. Eu fiquei do lado dela, segurando sua mão, tentando transmitir alguma calma que nem eu tinha.
- **R7... dói demais...** - ela sussurrou, quase sem fôlego.
- **Eu sei, meu amor. Tá quase... tá quase...**
E então começou. A cada contração, meu coração parecia pular da boca. A mãe dela, Marta, estava ao lado, segurando sua outra mão, falando palavras de incentivo, acariciando o cabelo dela. Eu nunca tinha visto Morena tão vulnerável e tão forte ao mesmo tempo.
Depois de algumas horas que pareceram uma eternidade, ouvi o primeiro choro. Um grito pequeno, mas poderoso. Um bebê estava ali, vivo, perfeito.
- **É um menino!** - anunciou a enfermeira.
Morena olhou para ele com lágrimas nos olhos, exausta, mas sorrindo. Eu me senti flutuar, uma mistura de alívio, felicidade e amor que eu nunca tinha sentido antes.
Pouco depois, Sasa e Cláudia apareceram para visitar. Sasa entrou correndo, com aquele sorriso largo, e Cláudia logo foi direto abraçar Morena. Elas ficaram encantadas com o bebê, elogios e carinhos por todos os lados.
Eu tentei me aproximar, mas confesso... senti uma pontada de ciúmes. Morena, ainda sem fôlego, colocou o bebê no peito e ele começou a mamar. Aquele momento de ligação... meu coração apertou. Um sentimento novo, estranho e intenso.
- **R7... olha como ele pega direitinho...** - disse Morena, entre suspiros.
- **Eu sei... eu sei...** - murmurei, tentando sorrir, mas sentindo meu peito apertado.
A mãe dela, sempre atenta, ajudava Morena a segurar o bebê corretamente, mostrando a posição certa, oferecendo lenços, toalhas. Cada gesto era delicado e cuidadoso. Eu fiquei ali, segurando a mão dela, sentindo que a nossa família estava começando naquele instante.
E, mesmo com aquele ciúme bobo do momento da amamentação, percebi que nada disso importava perto do que eu sentia por ela, pelo nosso filho, e pela nossa nova vida que começava ali, entre lágrimas, risos e suspiros.
> **Continua....
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
