apavorada

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Morena
Acordei na bad, cabreira. A noite anterior ficou martelando na minha mente. Talvez eu tenha dado bandeira demais, mostrado sentimento pra quem não tá na mesma sintonia. Vai ver ele me vê como mais uma que caiu na lábia dele... mas eu juro que não sou dessas mina emocionada que ele fica por aí.

Levantei, olhei pro Arthur todo encolhidinho no sofá, dormindo feito um anjinho. Só de pensar que iam levar ele pra casa da vó, meu peito já apertou. Fiquei ali, olhando ele dormir, tentando gravar cada detalhe. Porque pra mim, ele é mais que um afilhado, é meu filho de coração. Criei como se fosse meu, e é meu.

Quando ele acordou, me abraçou forte e soltou um "te amo, mamãe" que desmontou meu mundo inteiro. Tentei ser forte, mas desabei. Um dos vapores do R7 chegou pra buscar ele e eu chorei, chorei de soluçar. Foi o Gui que segurou minha onda, me abraçou, limpou minhas lágrimas e disse que tava comigo pro que der e vier. Agradeci na moral, porque aquele viado tem um coração do caralho.

Respirei fundo, me arrumei daquele jeito - shortinho colado, top preto e jaquetinha -, e fui pro asfalto com o Gui. Primeiro dei uma passada no trampo, depois segui direto pra goma do R7. Sabia que ele não ia tá lá, mas mesmo assim fui. Precisava ocupar a mente, limpar o bar, botar as ideias no lugar.

Cumprimentei a Cláudia, troquei umas ideia e fui pro corre. Só que, do nada... ele apareceu.

Caveira.

Meu ex. Ex mesmo, de passado sujo, dono do Alemão, Quando vi aquele desgraçado entrando no bar, meu coração deu um pulo no peito. Senti minhas mãos suarem e a raiva subir.

Corri pro banheiro antes de encarar. Me apoiei na pia, me olhei no espelho e tava pálida. Surtei em silêncio.

- Caralho, o que esse demônio tá fazendo aqui?

Fechei os olhos, respirei fundo e me lembrei: não sou mais aquela mina frágil que ele dominava. Sou outra, sou foda, tô de pé e ninguém vai me quebrar de novo.

Voltei pro salão com cara de paisagem. Ele tava lá, sentado numa das mesas, me olhando com aquele sorriso de canto que sempre escondia veneno.

- E aí, Morena... sumida hein. - ele falou, a voz grossa, debochada.

- Sumida não. Só me livrei do lixo. - rebati seca, sem baixar a cabeça.

Ele riu. Aquele riso que dá vontade de estourar a cara.

- Continua braba... gosto assim. Mas cuidado, o jogo tá virando. Esse teu morrinho de novela vai virar palco de guerra logo logo. Tô só dando o papo.

Na hora que ele soltou isso, o clima pesou. O ar pareceu parar de circular. Aquilo foi ameaça disfarçada.

A gente ficou se encarando, de novo naquele silêncio cheio de coisa não dita.
Morena narrando

Pedi pra Cláudia atender ele no salão, não quis nem sair da cozinha. Hoje eu não tava no clima. Não queria treta, não queria olhar feio, não queria nada. Só queria silêncio, paz... e esquecer que o Arthur tinha ido embora. O coração ainda tava amassado.

Anoiteceu e a Cláudia, vendo meu semblante no chão, quis me tirar da bad. Me chamou pra colar num pagode que ia rolar na laje da Tia Nêga, lá no alto do morro. Era ponto neutro, ia colar gente de tudo quanto é canto... até os cria das facção.

- Vamo, Morena, cê tá muito jururu. Vamo se jogar um pouco. Ficar nessa bad não vai trazer o Arthur de volta agora.

Respirei fundo e fui. Me arrumei daquele jeito que ninguém ignora. Vestidinho colado, curto, batendo no meio da coxa, costas de fora, cabelão solto, aquele salto que me dava postura de quem manda na porra toda. Me olhei no espelho e pensei: já sofri demais, hoje eu vou causar.

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