Morena
Entrei na casa de mãos dadas com o R7. A porta rangeu baixinho, como se sussurrasse boas-vindas. A luz da manhã atravessava as janelas grandes da sala e tocava cada canto com um brilho calmo. Era diferente de tudo que a gente já viveu. Sem o barulho das motos, sem rádio chiando com alerta de polícia, sem ninguém batendo na porta querendo ordem.
A gente tava sozinho. Pela primeira vez em paz.
- **É linda, R7...** - murmurei, andando devagar pela casa. - **Você fez tudo isso escondido?**
- **Fiz.** - ele deu um meio sorriso. - **Queria te mostrar no dia certo. Mas depois de ontem, eu percebi que... não existe dia certo. A gente é que faz ele acontecer.**
Sorri, mas logo sentei no sofá. As costas pesavam, os pés estavam inchados. Ele notou.
- **Vou pegar uma água. E depois você vai deitar um pouco, ouviu? Nem vem dizer que tá bem.**
Assenti com a cabeça, e por alguns minutos, ele virou o homem que eu sonhei que ele fosse. Atencioso, presente, com o olhar leve, preocupado só comigo e com o bebê.
Quando ele voltou, me entregou a água e se sentou ao meu lado. Ficou me olhando em silêncio, como se tentasse gravar meu rosto.
- **Você mudou minha vida, Morena. Antes de você, eu achava que amar era fraqueza. Que confiar era burrice. Que sonhar era só pra quem ia morrer cedo.**
- **E agora?** - perguntei baixinho.
- **Agora... eu quero durar. Quero ficar velho. Ver esse bebê crescer. Ver você rindo com a cara amassada de sono. Ver a gente brigando pra escolher nome de escola. Quero tudo. Até as partes chatas.**
Meus olhos encheram de novo. Eu nem tentava mais segurar. A gravidez já tinha me transformado num mar de emoção constante. Mas por mais que aquilo me comovesse, eu sabia: a vida que a gente queria ainda era um campo minado.
- **Mas pra isso, R7... você vai ter que segurar sua fúria. Vai ter que confiar que a gente pode vencer diferente dessa vez. Não na bala. Mas no tempo.**
Ele passou a mão pelo rosto, como quem limpava um passado inteiro.
- **Se for por vocês, eu seguro. Eu espero. Mas se mexerem contigo de novo, Morena... eu juro, eu viro o inferno.**
Me aproximei dele e encostei minha testa na dele.
- **Não vão mexer. Porque agora eu também tô pronta pra proteger o que é nosso. Do meu jeito. Com cabeça. Com estratégia.**
Ele sorriu de lado.
- **Agora entendi por que te chamam de rainha.**
- **Não é só porque eu sou bonita.** - brinquei, dando um soquinho no ombro dele.
- **É porque você tem um reino dentro de você. E agora... um herdeiro também.**
A gente riu, e por alguns segundos, tudo parecia simples.
Mas, do lado de fora, o mundo seguia se movendo.
E mesmo que a gente quisesse só viver, eu sabia: a paz que a gente tava tentando construir teria que ser defendida. Não com tiros - pelo menos, não agora -, mas com inteligência. Com lealdade. Com sabedoria.
E com amor. Muito amor.
Porque no fim, era isso que nos separava dos inimigos:
**A gente não queria vencer o morro. A gente
queria salvá-lo.**
A tarde chegou mansa. O sol esquentava os vidros da casa nova, e pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não doía. Ele curava. R7 me fez deitar no quarto - o nosso quarto - e ajeitou uns travesseiros pra minha coluna. Ficou ali, sentado na beira da cama, só me olhando enquanto eu respirava fundo.
- **Tá tudo mesmo bem, Morena?** - ele perguntou, a voz mais baixa que o normal.
- **Tá. Pela primeira vez em muito tempo... tá.**
Fechei os olhos por uns minutos, sentindo a paz como um cobertor. Mas é aquilo... quem cresce em guerra, nunca dorme de verdade. Nem em cama boa, nem com homem do lado.
Meia hora depois, ouvi um barulho discreto do celular dele vibrando.
R7 levantou, atendeu do corredor. A voz tava baixa, mas firme.
- **Fala. Já descobriram alguma coisa?**
- (silêncio)
- **Como assim, sumiu?**
Fiquei em alerta. Sentei na cama, me aproximando da porta sem fazer barulho.
- **Não era só um aviso, então...** - ele murmurou. - **Eles tavam testando nosso tempo de resposta. Medindo nosso fôlego.**
Silêncio.
- **Não. Por enquanto, ninguém se move. Me espera mandar o sinal. E vê se consegue rastrear o último rádio da Vila Baixa.**
Quando ele desligou e virou pra voltar pro quarto, me viu ali, encostada na porta.
- **Testando nosso fôlego?** - perguntei direto.
Ele deu um passo até mim e passou a mão no rosto, cansado.
- **Sumiu outro vapor da base de apoio. Um garoto novo. Foi visto pela última vez ontem, antes da festa. Ninguém achou ele até agora.**
Meu estômago revirou.
- **Eles tão provocando, R7. Um por um. Querem ver quando você vai explodir.**
- **E tão quase conseguindo.** - Ele fechou os punhos.
- **Mas a gente não vai dar esse gosto pra eles. Ainda não.** - falei firme.
Ele me olhou, tenso, lutando contra o instinto de reagir. Mas assentiu. Devagar.
- **Então o que a gente faz, rainha?**
- **A gente age como eles nunca esperariam. A gente puxa conversa com quem manda na favela que faz divisa com a nossa. Descobre quem tá se vendendo, quem tá se aliando. Começa por baixo. Enquanto eles tentam mexer com nosso emocional, a gente desmonta a base deles no silêncio.**
Ele sorriu, meio surpreso.
- **Você quer comandar tudo, é?**
- **Não. Só quero proteger o que é nosso. Mas se tiver que comandar... eu comando.**
-
Mais tarde, R7 saiu pra encontrar com Zoinho, como a gente tinha planejado. Fiquei na casa nova, sentada na varanda, passando a mão pela barriga já levemente arredondada. O bebê se mexeu devagar, como se sentisse tudo.
- **Calma, meu amor. Mamãe tá aqui. E o mundo ainda vai ser mais seguro pra você. Eu prometo.**
Liguei pra minha mãe, avisei que tava bem. Falei com Cláudia, com a Sasa. Pedi pra manterem o povo calmo. As fofocas já estavam voando, e a última coisa que a gente precisava era de pânico no morro.
Quando a noite caiu, R7 voltou. Tava com o olhar atento, mas menos pesado.
- **Zoinho confirmou o que a gente suspeitava. Tem um terceiro comando tentando entrar pelas beiradas. Usando os garotos novos, pagando por informações.**
- **Infiltrados?**
- **Não só. Tem ex nosso se vendendo. Gente que comeu do nosso pão.**
Suspirei fundo. Era pior do que parecia.
- **Então a gente vai limpar por dentro. Em silêncio. Sem tiro. Sem grito. Só verdade.**
Ele assentiu.
- **E quando esse bebê nascer... aí sim, Morena. Se eles ainda tiverem de pé, a gente vai derrubar um por um.**
- **Se for preciso... a gente derruba. Mas com justiça. Porque eu não vou criar meu filho num morro onde vingança vale mais que vida.**
Ele me puxou devagar, beijou minha testa e depois minha barriga.
- **Vai ser diferente, eu juro. Vai ser do nosso jeito.**
E ali, com o mundo lá fora prestes a desmoronar, a gente construiu a primeira base da resistência:
**nossa família.**
Porque quando o coração vira trincheira,
nem a guerra mais cruel consegue apagar o amor.
> **Continua...
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
