Prejuízo

13 1 0
                                        

Mas tarde
Morena conferiu o celular de novo. Três chamadas perdidas para R7. Nada de retorno.

— “Atende, R7… só atende…” — murmurou, apoiando o aparelho na mesa.

O Luan já estava inquieto, batendo o carrinho no chão. Ela respirou fundo, pegou a bolsa dele, separou uma troca de roupa e algumas fraldas. Precisava ir ao mercado — não tinha mais leite, fruta, nem nada pro almoço.

Tentou ligar mais uma vez.

Chamou. Chamou. Caiu na caixa postal.

Morena fechou os olhos por um segundo, irritada e preocupada ao mesmo tempo.

— “Tá… eu resolvo sozinha.” — decidiu, pegando o menino no colo.

Chamou um Uber, ajeitou o Luan no braço e trancou a porta. O carro chegou rápido. O motorista sorriu, ela entrou e amarrou o cinto no bebê, ajeitando tudo com cuidado.

No caminho, o pequeno ficou olhando a rua pela janela, encantado.

Ela, não. Cada esquina parecia mais pesada que a outra, um incômodo que ela não sabia explicar.

No mercado, o movimento estava tranquilo. Morena colocou o Luan no carrinho de compras e foi passando corredor por corredor: frutas, leite, fraldas, umas coisinhas pra casa.

O menino balbuciava, batia as mãozinhas no carrinho, apontava pros biscoitos.

— “Você só pensa em comida, né?” — ela brincou, apertando o nariz dele.

Mas, mesmo sorrindo, a sensação continuava lá — como se existisse um par de olhos grudados nela.

Cada vez que virava um corredor, alguém parecia sumir rápido demais. Ou parar de mexer no celular assim que ela olhava.

Ela pensou que era coisa da cabeça.

Ou quis acreditar que era.

Terminou de passar as compras no caixa, colocou tudo nas sacolas, pegou o Luan no colo e saiu. O sol bateu forte no rosto, e ela ajeitou a bolsa no ombro, tentando equilibrar o peso das compras.

Foi então que ouviu a voz.

Grossa. Intrometida. Familiar demais.
Morena saiu do mercado com o Luan no colo, o coração acelerado e a sensação ruim grudada nela igual sombra.

“Quer ajuda aí, Morena?”

A voz veio carregada de deboche.

Ela virou na hora.
Era ele.
**O mesmo maluco** que o R7 tinha encarado ontem. Encostado no muro, com aquele sorriso torto de quem não presta.

Morena apertou o menino no colo.

—Não. Valeu. Melhor tu ficar na tua. Nem te conheço.

O cara deu um passo devagar, como se fosse dono da rua.

— “Ô louca… calma. Só tô sendo gente boa.”
Esticou a mão pro Luan, como se pudesse tocar. — “Deixa eu pegar ele rapidinho, só pra—”

— **“SE AFASTA!”** — ela cortou, recuando. — “Não encosta no meu filho, não, vacilão.”

Ele riu de canto, aquela risada que dá arrepio ruim.

— “Tá assustada por quê, princesa? Nem fiz nada…”

Morena engoliu seco. A rua parecia vazia demais, o sol quente demais, tudo errado demais.

Foi quando o Uber parou na frente.

Aleluia.

Ela praticamente correu, abriu a porta e jogou o olhar pro motorista.

VivendoOnde histórias criam vida. Descubra agora