fugir da barriga

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Morena.

Um mês se passou. O tempo parecia correr e parar ao mesmo tempo. A barriga já tava enorme, pesada, e o Luan Davi - sim, o nome foi escolhido numa madrugada de carinho e conversa - podia nascer **a qualquer hora**. Só de pensar, meu coração acelerava.

O morro andava mais calmo. Nenhuma baixa, nenhuma ameaça nova, nenhuma movimentação estranha. Era quase estranho viver essa tranquilidade, mas eu não reclamava. A paz, mesmo que temporária, era bem-vinda.

R7, apesar de continuar cuidando da estrutura do morro, vinha se desdobrando pra estar presente. A cada ultrassom, ele segurava minha mão com o mesmo frio na barriga que eu sentia. A cada madrugada de dor nas costas, ele era o primeiro a levantar e ajeitar os travesseiros. Até o GuiGui dizia:

- **Esse daí virou pai antes do filho nascer, mana. Tu amansou o pitbull!**

Nos últimos dias, minha mãe veio morar temporariamente com a gente. Dizia que era pra ajudar, mas eu sabia que ela queria *ver com os próprios olhos* que eu tava sendo bem cuidada. E tava.

Naquela tarde, depois do almoço, fiquei na pia lavando a louça devagar. As mãos na água morna me ajudavam a relaxar. A janela da cozinha deixava entrar a luz do fim de tarde, e o rádio tocava uma música romântica bem antiga que minha mãe amava.

De repente, senti braços me abraçando por trás.

- **Olha quem volto um ...** - falei sorrindo, mas logo senti o suor grudando na minha roupa.

- **Eca, R7! Tá todo suado! Onde cê tava?!**

- **Futebol com os moleque lá da base. Precisa ver, amor... meti gol de placa!** - ele disse, colando o rosto no meu pescoço.

- **Sai fora! Tá fedendo a cachorro molhado com bafo de churrasco!** - falei rindo, me virando e empurrando ele com as duas mãos na barriga dele.

- **Credo! Me trata assim mesmo? Cadê o carinho com o pai do Luan Davi?!**

- **Vai tomar banho, criatura! Depois a gente conversa!**

Rimos juntos, e ele foi saindo com os braços erguidos, como se tivesse se rendido. Na porta da cozinha, minha mãe apareceu com aquele olhar entre divertido e julgador.

- **Tomando banho que é bom... esse menino só quando tu reclama, né?** - ela disse, cruzando os braços. - **E olha que vai ser pai... imagina quando o bebê nascer e o menino fizer cocô. Vai sair correndo.**

- **Não fala isso pra ele, mãe! Ele tá até que se esforçando.** - brinquei.

R7, de longe, gritou do corredor:

- **Nada disso, dona Marta! Eu troco fralda, sim! Se tiver que limpar até vômito, eu limpo. Só não lavo louça! Isso aí é domínio da rainha.**

- **Vai sonhando!** - gritei de volta.

Minha mãe balançou a cabeça rindo e foi pegando uma vasilha na geladeira.

- **Vou preparar aquele suco de maracujá que você gosta. Pra ver se esse bebê sossega e para de ficar dando chute aí dentro.**

- **Ai mãe, ele não para. Essa noite parecia que ele tava tentando fugir da barriga.**

- **Já tá igual o pai, querendo comandar tudo.**

Eu ri. Mas era verdade. Luan Davi já se mostrava agitado. E eu sentia que ele ia ser daqueles que ia nascer trazendo revolução no olhar.

-

Mais tarde, depois do banho, R7 voltou pra sala já todo cheiroso, só de bermuda e camiseta branca. Sentou do meu lado no sofá, pegou meu pé e começou a massagear devagar.

- **Acho que a qualquer hora ele vem, né?** - ele perguntou, olhando pra minha barriga com um brilho no olhar.

- **Qualquer hora mesmo. Tô com 38 semanas... médico falou que é só esperar.**

- **Tô pronto. Juro que tô. Se for de madrugada, de tarde, no meio da favela, onde for. Eu largo tudo e corro. Você e ele são prioridade.**

- **Você fala isso agora... mas se ele resolver vir durante o jogo da seleção, tu vai tá gritando gol e me esquecendo!**

- **Oxente! Gol é só gritar. Agora parir o filho é contigo.**

- **Olha a audácia!** - falei, dando um tapinha no braço dele.

A gente riu. De verdade. Leve.

Naquele momento, com os pés sobre o colo dele, minha mãe cozinhando ao fundo, o cheiro do amaciante ainda fresco na roupa pendurada, e o rádio tocando baixinho...
tudo parecia certo.

E mesmo sabendo que o morro podia virar do avesso a qualquer hora,
ali, naquela casa,
naquela tarde...
a gente só pensava em uma coisa:

> **Luan Davi tá chegando. E ele vai nascer em um lar que aprendeu a amar, mesmo em meio à guerra.**

> **Continua...

VivendoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora