Poder

42 1 0
                                        

Morena

Eu não devia ter falado aquilo.

Na moral, que merda.
Falei sem pensar.
Sem filtro, no impulso, com o sangue fervendo... e o coração? Ah, o coração tava misturado com os hormônios da gravidez, com o enjoo, com o medo de perder ele, de perder tudo.

Mas ele me tira do sério, porra.

O R7 tem esse poder.
De me fazer sentir no céu num minuto e no inferno no outro.

Depois que ele desligou o celular na minha cara, eu fiquei ali...
Sozinha.
Com aquele silêncio pesado que nem o ventilador no 3 dava conta de quebrar.

Chorei.
Chorei feio.

Aquela choradeira feia mesmo, de soluçar, de borrar a cara toda, de abraçar o travesseiro achando que era ele.
A madrugada inteira foi assim.
E eu nem sei se era só tristeza ou se era os hormônios fazendo rave no meu peito.

A barriga doía leve, tipo um aviso.
O enjoo bateu.
Mas eu respirei fundo, fui pro banheiro e me olhei no espelho.

- Tu é forte, morena. Tu não vai se humilhar pra macho nenhum, mesmo que ele seja o pai do teu filho.

Fui dormir quase amanhecendo.

O dia seguinte chegou cuspido.
A cara inchada, a alma amassada.
Mas levantei.

Mesmo meio zonza, com a cabeça girando e o estômago revirado, eu fui dar uma geral na casa.
Varri tudo, lavei louça, dobrei roupa, limpei até onde não precisava.

Era minha forma de dizer pra mim mesma: "Tu ainda tem controle de alguma coisa."

Meu celular apitou umas quatro vezes.
Primeiro uma notificação de chamada perdida.

R7.

Depois, mensagem.

R7: "Morena, me atende aí. Fala comigo."

Mais tarde...

R7: "Tô passando aí se tu não responder."

Depois mais outra...

R7: "Tá de mal agora, é? Tá passando mal de novo? Me responde, porra."

Olhei.
Li tudo.
E deixei no vácuo.
Não respondi.
Nem vou responder.

Macho escroto não merece minha paz.

Agora eu vou ser assim: na minha, calada, fria.
Quem quer ficar na minha vida, fica.
Quem quer me deixar chorando por aí enquanto mete dança no baile... que se foda.

Ele que corra atrás.
Eu tô cansada de ser a que ama mais.

Mesmo passando mal... mesmo com o peito doendo mais que a cabeça...
Hoje, ele que sinta minha falta.

R7
Até pensei em colar lá na casa dela, de verdade.
Bateu vontade.
De bater na porta, encostar na parede e ouvir ela reclamando que eu fui sem avisar.
Mas a real é que eu tava atolado de coisa até o talo.

A favela não dorme, e eu não posso dormir junto.
Cada esquina um problema, cada vapor uma bronca, e ainda tem o Caveira se mexendo nas sombras.
Não dava pra deixar o trono vazio.

Por isso pedi pro Piu-piu - um dos meus vapores mais ligeiro - ficar de olho lá na casa dela.

- Qualquer barulho estranho, movimento, ou ligação daquele maluco... tu me avisa na hora. - falei com ele firme.

Ele assentiu e partiu na missão.
Fiquei mais tranquilo?
Nem um pouco.

Tentei ligar pra morena mil vezes.
Literalmente.
Era ligação atrás de ligação, mensagem atrás de mensagem.

VivendoOnde histórias criam vida. Descubra agora