R7 narrando
Logo que cheguei na laje, vi que o clima tava diferente. Pagode tocando alto, povo rindo, cerveja rodando... mas minha atenção tava cravada nela. A Morena.
Ela chegou toda produzida, daquele jeitão que me desmonta sem esforço. Vestidinho curto, cabelo jogado, aquele olhar de quem sabe que pode escolher qualquer um ali... mas que me escolheu antes.
Só que não demorou muito pra eu notar uma parada que me tirou do sério: o Caveira não tirava o olho dela. O desgraçado babando nela descarado, tipo quem já conhece a fruta e quer provar de novo.
- Qual foi, viado? - pensei na hora, já fechando a cara.
Fiquei só na contenção, de canto, observando. Mas aí... o filho da puta se aproximou.
Minha visão ficou vermelha.
Vi ele colando na Morena, cochichando algo no ouvido dela. Ela tentou disfarçar, mas dava pra ver que ficou tensa. E eu conheço ela. Aquilo não era flerte, não era joguinho. Era medo.
Medo.
E o sangue ferveu de vez quando vi ele segurando o braço dela. Tipo quem quer marcar território. Tipo quem acha que ainda tem direito. Quase dei o bote ali mesmo.
Fui sair do canto, já partindo pra cima, mas um dos chefes do Dendê colou na frente, segurou meu braço com firmeza:
- R7, na moral... aqui é solo neutro, não arruma pra cabeça. Hoje é paz. Qualquer treta aqui, vai sujar teu nome com os comando tudo.
Fiquei ali, travado. Punho cerrado, maxilar travado, coração batendo no modo guerra.
Olhei de novo... o Caveira já tinha se afastado. A Morena foi pra um canto com a Cláudia, parecia despedaçada por dentro, mas segurando a marra. E eu ali, parado feito um otário, sem poder fazer nada.
Voltei o olhar pro Caveira. Ele me olhou de volta, com aquele sorrisinho de canto, tipo quem quer provocar.
- Filho da puta sabe que tá mexendo com o que é meu... e ainda debocha.
Respirei fundo, mas só pra não explodir ali mesmo. A vontade era voar no pescoço dele. Mas sei como o jogo funciona. E eu não sou moleque pra cair em armadilha de bandido recalcado.
Mas uma coisa é certa:
vou descobrir e quando descobri o céu vai cair.
Any
Desabafei tudo. Falei do que o Caveira tinha me dito, mas também fui além... contei que já fui mulher dele. Que ele me abusou, me espancou. Foi pesado. Vi o olhar da Cláudia mudar na hora, mas pedi logo:
- Por favor... não conta pra ninguém. Isso é só entre a gente.
Ela assentiu, segurou minha mão com força. Mas sabe o que me tirou do eixo? Foi perceber quem tava ali também... a Vanessa. Aquela falsa, que arrumou briga comigo na outra festa, e que é caidinha pelo R7. Me odeia de graça, e sinceramente? Tô pouco me lixando pra ela.
Fiquei na minha, só observando. A pista fervendo, a galera dançando, e eu ali, quieta, tentando manter a pose. Mas quando vi o Caveira se esfregando numa loira toda montada, meu estômago virou. Que nojo.
Do nada, o R7 colou do meu lado.
- O que aconteceu, Any? Tá com uma cara estranha.
Olhei pra ele... meu coração disparou. Eu queria tanto contar tudo. Dizer que aquele cara que ele acha só um "marginal qualquer", já foi meu pesadelo pessoal. Mas eu congelei.
- Nada não... só tô cansada - menti, forçando um sorriso.
Ele me olhou fundo, como se tentasse ler minha alma. Mas desviou o olhar e assentiu.
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
