Morena
Ontem eu adormece, não lembro direito,só sei que o R7 dormiu aqui de novo,mas não aconteceu
Nada entre a gente.
Dia seguinte
Acordei com aquele cheirinho de café misturado com cigarro... e uma voz grossa, resmungando baixo na cozinha.
- Que merda... não sei nem quebrar um ovo direito...
Dei um sorrisinho besta, mesmo toda enjoada ainda.
Levantei devagar do sofá, com a barriga roncando e a alma mais leve.
Ele tava lá, todo marrento, camisa sem manga mostrando as tatuagens, cabelo bagunçado... e um copo de leite na mão.
- E tu achando que só servia pra meter medo nos outros, né? Tá até tentando fazer café da manhã agora? - falei manhosa, encostando na parede, com aquele jeito de quem quer atenção.
Ele virou de lado e riu, meio sem graça.
- Não enche, morena. Tô tentando. Tu disse que acordava passando mal, né? Então pronto.
- Marrento mas fofo... olha só.
Cheguei perto, abraçando ele por trás, o rosto encostado nas costas dele. O corpo dele era quente, e o cheiro... aquele cheiro dele me dava uma paz esquisita.
- R7... - murmurei, quase num sussurro - Tu já pensou no nome do bebê?
Ele ficou em silêncio por uns segundos.
Virou de frente e me encarou com aquela cara séria dele, mas os olhos mais calmos.
- Já.
- É mesmo? E aí? Vai querer botar teu nome? Tipo... R8? - brinquei, dando risadinha.
Ele revirou os olhos.
- Se for menino, eu pensei em Luan. Se for menina... Ayla.
- Ayla? - sorri. - Bonito... diferente.
- Nome de quem vai ser forte. Que nem tu.
Fiquei toda boba por dentro, mas fingi costume, cruzando os braços com pose.
- E se eu quiser botar Valentina?
- Se tu quiser, vai ser Valentina. Mas vai brigar comigo? Já tamo brigando por nome de criança agora?
- Não... mas se for menina, ela vai ser minha cópia.
- Puts... então já sei que vai ser encrenca - ele riu.
Aí do nada, meu celular vibrou em cima da mesinha.
Olhei com preguiça, achando que era alguma amiga ou grupo de venda de roupa...
Mas não.
Número desconhecido.
E um frio subiu pela espinha.
Atendi meio desconfiada.
- Alô?
Silêncio. E então...
- Fala, boneca... sentiu saudade?
A voz dele.
O Caveira.
Meu coração parou. A mão começou a tremer. Eu congelei na hora, sem saber se desligava, gritava ou chorava.
- Que foi? Travou por quê? - a voz debochada dele continuou. - Relaxa. Só quero trocar uma ideia. Mas não demora não... tempo é vida.
Antes que eu falasse qualquer coisa, R7 veio do nada, puxou o celular da minha mão com força.
- QUEM É?! - ele berrou, já com os olhos esbugalhados.
Ele escutou por dois segundos, depois desligou na cara do Caveira, socando o celular na parede.
- ELE TE LIGOU? ELE?! ESSE MERDA AINDA TEM A CARA DE PAU DE TE PROCURAR?!
- R7, calma...
- CALMA, O CARALHO! TU NÃO SABE DO QUE ELE É CAPAZ, MORENA!
- E tu acha que eu não sei?! Fui eu que fiquei presa com ele, não tu!
- Pois é, e tu continua se envolvendo nessa porra toda, me escondendo coisa! - ele berrou, andando de um lado pro outro, os punhos fechados.
- EU TÔ GRÁVIDA! TU ACHA MESMO QUE EU IA ESCOLHER ESSA VIDA, R7?! - gritei de volta, com a voz embargada.
Ele parou. Olhou pra mim. Respirou fundo.
- Eu só... eu só quero proteger tu e o nosso filho, porra.
- Então me escuta, caramba. Me protege, mas não some. Não me trata como se eu fosse só mais uma. Eu não sou qualquer uma, e tu sabe.
Ele se aproximou devagar. A raiva ainda tremia na pele dele, mas o olhar... tava quebrado.
- Eu sei. Tu não é qualquer uma. Tu é a morena. A minha.
Ele me puxou pra perto, colou a testa na minha.
- Eu vou pegar o Caveira. Mas do meu jeito. E quando isso acabar... ninguém nunca mais vai encostar um dedo em tu.
Abracei ele forte, o coração ainda acelerado.
Eu sabia que a guerra ia começar.
Mas ali, nos braços dele, eu tava pronta pra lutar
Mas tarde Narradora
Botou a camisa preta colada no corpo, largou um beijo de canto na testa da Morena - que fingiu dormir só pra não ter que ver ele indo embora.
- Qualquer coisa tu me chama, viu? - ele murmurou, baixo, antes de fechar a porta.
Na rua, o clima já tava pesando. Os vapores na função, cochichos na viela, e os boatos do Caveira ganhando força.
Caic continuava sumido.
E o R7... com a mente fervendo.
Passou o dia todo resolvendo parada na favela - cobrança, reunião com os vapor antigo, um informante ali, outro acolá...
Mas nada, nada, tirava a Morena da cabeça dele. Nem o barrigão ainda pequeno, nem o medo dela, nem aquele olhar que dizia "fica comigo só mais um pouco".
Quando a noite caiu, o morro ferveu.
Luz de LED colorindo a viela, caixa de som explodindo funk, cheiro de lança-perfume e churrasquinho no ar.
Era dia de baile.
E como sempre, R7 tinha que marcar presença.
Deu aquela ajeitada no cordão, no boné, e antes de sair mandou uma mensagem:
R7: "Tô indo no baile, coisa rápida. Qualquer coisa tu me liga. Tô de olho em tudo."
Do outro lado, Morena leu e já bufou.
Morena: "Tu vai MESMO pra baile com tudo acontecendo? Com o Caveira solto? Com o Caic sumido?"
R7: "Não começa, morena. Já tô saindo. Preciso aparecer. É meu nome que tá na responsa do morro."
Morena: "Ah, mas quando é pra cuidar de mim tu inventa desculpa, né? Mas pra dançar e ser ovacionado tu vai bonitão."
R7: "Tu tá viajando já..."
Morena: "Viajando, o caralho, R7! Tu prefere ser o rei do baile do que o pai do meu filho!"
Foi aí que ele travou. A mão tremendo de leve com o celular, o maxilar travado.
R7: "Cê não tem ideia da merda que eu tô carregando nas costas. E ainda quer botar pilha? Na moral, fica na tua. Não me enche hoje."
Morena: "Fica na tua, né? Quando for tu precisando, eu tenho que tá aqui chorando, esperando mensagem..."
PLUFT.
Ele desligou o celular.
Sem dó, sem peso.
Só raiva.
No baile, o som tava insano.
R7 chegou e foi direto cumprimentar os aliados, subiu no palco improvisado, acendeu um baseado, e ficou ali - como se nada tivesse acontecendo.
No fundo, o peito tava pesado.
Mas ele sabia que mostrar fraqueza ali era pedir pra cair.
Com o copo de bebida na mão, ele olhava em volta como se fosse dono do mundo.
Mas o olhar... procurava alguém.
Morena não tava ali.
E o silêncio do celular desligado parecia berrar dentro da cabeça dele.
Mesmo com a batida alta do DJ tocando "toma-toma" no talo...
...a mente do R7 só gritava "E se ela tiver passando mal agora?"
"E se o Caveira ligar de novo?"
"E se ela for embora?"
Mas ele não voltou.
Não naquela noite.
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
