R7
radinho vibrou no bolso da bermuda. Nem queria atender, mas era um dos vapores de confiança, o Pimenta. Atendi no seco, voz grossa, sem paciência:
— Fala logo, irmão.
— Chefe... achei a Morena.
Meu coração gelou.
— Aonde?
— Tá no Alemão, patrão. Tenho a foto... — ele mandou o arquivo em seguida.
Abri a imagem no celular. Minhas mãos tremeram.
Meu mundo parou.
Ela… na garupa daquele desgraçado do Caveira.
Mãozinha na cintura dele, colada nele como se fossem parzinho apaixonado. Os dois de moto, ela de cabeça baixa, capuz cobrindo o rosto, mas dava pra ver... era ela. Era minha Morena.
Quer dizer... que era.
Porque agora…
É só mais uma traíra igual às outras.
Fechei os olhos com raiva. Me apoiei no capô do carro, puxei o ar, mas não teve jeito... a decepção engasgou na garganta.
— Então é isso... — falei pra mim mesmo, rindo de canto. — Enquanto eu aqui, feito um idiota, pensando em pedir ela em namoro, sentindo falta, indo atrás, perdendo o sono... ela tava de rolê com o inimigo. Na garupa daquele marginal de merda.
Comecei a andar de um lado pro outro, o sangue fervendo nas veias.
— Puta merda… que otário eu fui. Achando que ela era diferente... que ela tava com medo, que tinha sumido porque tava em perigo. Nada! Só aproveitou a briga da gente pra meter o pé direto pro colo do outro.
Bati a mão com força no retrovisor do carro. Quebrei. Foda-se.
— Ela era X9 desde o começo. Dormiu comigo só pra arrancar informação... me usou. Como as piores putas fazem.
Cerrei o punho, joguei o celular longe. Tava cego de ódio.
— A vontade que eu tenho é de ir lá agora... acabar com ela. Mostrar que com o R7 ninguém brinca, ninguém engana, ninguém tira de otário.
Fiquei ali, respirando pesado, tentando entender onde foi que eu errei.
Será que ela fingiu tudo? Até aquele olhar quando a gente se pegava?
Mentiu o tempo todo?
Olhei pro céu escuro da favela. As luzes piscando ao longe, o barulho dos morros vivos ao redor.
Mas por dentro… eu tava morto.
— Tá bom, Morena... cê escolheu. Agora aguenta as consequência.
Se eu te encontrar... não prometo que vou lembrar que já te amei.
Porque agora…
só vejo uma traíra que precisa pagar.
Morena
Fugi igual sombra na madrugada, sem olhar pra trás. Cada passo que eu dava em direção à Rocinha era com o peito apertado, o coração sangrando e a mente cheia de flash da última noite... Caveira, o desespero, o medo. Cheguei na favela como um vulto, direto pra minha quebrada. Mal entrei em casa, travei.
Tremia mais que vara verde. Joguei a roupa no chão, entrei debaixo do chuveiro e deixei a água gelada cair tentando apagar o terror que tava grudado na minha pele. Mas não adiantava... Era como se a sujeira tivesse por dentro. Vesti qualquer coisa, prendi o cabelo com a mão tremendo e fui atrás do R7. Eu precisava dele. Só ele podia me tirar daquele pesadelo.
Caminhei até o QG dele, mas o destino, sempre sacana, colocou ele bem no meio do caminho. Tava de boné baixo, camisa branca colada no corpo, cercado por dois vapores. Assim que me viu, parou. O olhar? Gélido. Gelado igual coração de traíra.
— R7… eu preciso falar com tu… — falei baixinho, quase implorando.
Ele me encarou por uns segundos que pareceram horas. E aí veio o baque.
— Falar o quê, sua piranha X9? — ele soltou, alto, como se tivesse no microfone de baile funk.
O mundo parou. Me senti pelada no meio da rua. Os vizinhos colando nas janelas, as portas abrindo, até os cachorro calaram. A favela inteira ouvindo ele me massacrar.
— Tu achou que eu não ia saber que tava coladinha com o Caveira? Na garupa da moto dele, toda agarradinha. Tu foi só uma isca, né? Fingiu sentimento, fingiu carinho... só pra me fuder. Cê me fez de palhaço, sua vagabunda!
Meus olhos encheram na hora, mas eu segurei o choro. Eu queria explicar, gritar que não era nada daquilo, que Caveira me forçou, que eu fui pega no meio de um jogo sujo. Mas ele não deixava.
— Some daqui, desce a Rocinha agora! Se não sair por bem, vai sair com os pé pra frente, tu me ouviu? Eu juro que se te ver aqui de novo, eu mesmo te apago!
Minha alma saiu do corpo. Não deu tempo nem de pegar minhas coisas. Não deu tempo de explicar. Só dei meia-volta, chorando como criança perdida, descendo a favela com as pernas bambas, tropeçando no próprio desespero.
Fui embora com os olhos ardendo, o coração em cacos e a certeza de que perdi tudo. Meu nome, minha quebrada… e o único cara que eu amei de verdade.
Desci a Rocinha em prantos, me sentindo um nada. Tava zonza, sem chão, com o gosto amargo do desprezo do R7 ainda preso na garganta. Cada passo era uma dor, parecia que o mundo inteiro tava me esmagando. Quando botei os pés na pista, o calor e o cansaço bateram de vez.
Senti uma tontura cabulosa, a vista escureceu. Levei a mão na barriga, coração acelerado… Foi aí que eu percebi: a gravidez.
O enjoo veio com tudo. Me apoiei num poste tentando respirar, suando frio, a boca seca. Tudo girando.
E como se não bastasse o inferno que eu já tava vivendo, vi o carro dele.
Caveira.
Aquele Voyage preto veio vindo devagar, malandro. Na hora eu tentei correr, mesmo fraca, mas o corpo não acompanhava. Ele desceu do carro igual demônio saindo do inferno, já veio me agarrando com força, me puxando pelo braço.
— Tá pensando que vai pra onde, vadia?! — ele rosnou no meu ouvido.
Tentei soltar, tentei gritar, mas não tinha mais forças nem pra me defender. Meus braços pareciam de pano. Ele me empurrou pra dentro do carro e bateu a porta com tudo. O cheiro dele me dava ânsia. O terror no olhar dele queimava minha alma.
— Tu achou que ia me enganar? Achou que podia brincar com minha cara igual fez com o R7? — ele disse, me agarrando pelos cabelos com tanta força que meu couro cabeludo queimava.
— Para… por favor… — minha voz saiu falhada, quase um sussurro.
Mas ele não parou. Me obrigou a olhar nos olhos dele enquanto despejava o ódio.
— Tu é uma piranha suja, traíra de merda! — e veio o tapa, forte, estalando no meu rosto. Minha cabeça virou pro lado, o gosto de sangue na boca.
— Só sabe abrir as pernas e fazer cena, né? Agora vai aprender a quem tu pertence.
Outro tapa.
E eu ali, sem forças, sem orgulho, sem voz… só chorando. As lágrimas desciam sozinhas, igual chuva fina num dia nublado. Pensava no R7, no bebê dentro de mim, na vida que eu sonhava e que agora parecia só um pesadelo.
Eu só queria sumir.
Continua...
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Vivendo
RomanceEntre favelas rivais,Tudo pode acontecer Cada um com a sua história Personagem principal Morena
